Opinião de Martim Pereira
Também incluído no FEPIANO 58, publicado em Junho de 2025
Muitas vezes se fala na desconexão que existe entre o que a elite intelectual valoriza na política e o que verdadeiramente interessa ao povo. Mas não estará o discurso político na sua generalidade orientado para problemas superficiais? Será que muito do que nós discutimos se trata mesmo de política?
A discussão política nos países de primeiro mundo tornou-se completamente elitizada. A ciência política é hoje encarada como um campo do saber inteiramente teórico e puramente lógico. Os partidos aperceberam-se disto e dão vitórias superficiais ao seu eleitorado, para os distrair dos assuntos verdadeiramente estruturais.
Nos dias que correm, a discussão política resume-se a um confronto entre a sinalização de virtude dos mais à esquerda e a vontade colérica de ir contra o “politicamente correto” dos mais à direita. As pessoas adotam correntes políticas que condizem com a sua personalidade idealizada, como um acessório. Muitas vezes nem questionam a sua posição quanto a vários tópicos, apenas sabem que aquela é a posição do seu grupo identitário e que a devem defender de forma dogmática. Não se trata de pensar, mas sim de pertencer. Esta idealização excessiva da política é um privilégio de quem não está na corda bamba. Não estarão estes eleitores a desconsiderar aqueles que necessitam de um governo ativo que consiga melhorar a sua vida?
As pessoas que trabalham a tempo inteiro e que não conseguem pagar uma casa ou os professores com carreiras congeladas ou até os idosos que não têm médico de família, não têm condições para discutir política de
forma puramente abstrata. Discutem-na com a corda ao pescoço. É engraçado que entre os que procuram ganhar as discussões nunca interessa tanto ver quem é que está mais do lado de quem passa dificuldades, como interessa perceber que é que está irrevogavelmente do lado dos factos. Interessa mais estar do lado dos sagazes do que dos capazes. E a sagacidade dos sagazes não se vê só na forma como argumentam, também se vê na forma como distraem.
Durante o Império Romano, para aumentar a sua popularidade, o Imperador organizava espetáculos nos coliseus e oferecia comida aos cidadãos. Chamava-se a isto de “pão e circo”. Atualmente, olhamos para este processo e julgámo-lo de bárbaro. Um pensamento ingénuo, visto que o “pão e circo” ainda existe, apenas está mais sofisticado. Em 2024, nos primeiros meses da governação, o governo da Aliança Democrática liderado por Luís Montenegro reverte as cores dos boletins de vacinas, voltando a ser rosa para as mulheres e azul para os homens.
Para além disso, o logótipo do governo também retrocedeu para a sua instalação anterior. Estas mudanças tomaram o centro da discussão política, pois retiraram com sucesso o foco do estado cada vez mais degradado do SNS, deram uma vitória inconsequente à ala conservadora e uma oportunidade para os progressistas baterem o pé face a problemas menores. O governo ganhou, porque conseguiu entreter o povo. Para mim, isto evidencia duas coisas: que o debate político se tornou apenas um confronto de raciocínios à priori, com vista a provar que o outro lado é menos entendido que o nosso. E o privilégio inerente a toda esta discussão.
“Mesmo quando discutimos política local em concreto fazêmo-lo com algum desfasamento”
Mesmo quando discutimos política local em concreto fazêmo-lo com algum desfasamento. Muitas vezes discutimos a vida de pessoas como objeto de estudo, sem vontade alguma de saber o que é que essas pessoas pensam sobre isso. Cada vez mais jovens interessados em política julgam que sabem qual é a solução ideal para determinadas localidades do país sem nunca terem lá estado. Por vezes, julgam até que a sua vontade de expor a sua opinião se sobrepõe à vontade que certas pessoas têm de não querer compactuar com ela.
Recentemente, Miguel Milhão, fundador da Prozis, passou na TVI um anúncio desonesto pensado, não para dar uma chance aos cidadãos de refletir sobre o assunto, mas para criar intrigas. Esta pessoa julga a sua vontade de tal forma superior à das mulheres, que comprou espaço televisivo para as destituir de direitos que detêm hoje. E, mais uma vez, é muito debatível se isto se trata sequer verdadeiramente de discurso político. Por mais que eu não concorde com essas ideias, reconheço que a discriminação por género, raça ou orientação sexual que ocorra por intermédio das instituições controladas pelo governo corresponde a uma ideologia política, ainda que ridícula.
No entanto, atualmente, a descrença nas instituições é tal, que as pessoas não votam nestas correntes políticas por acharem mesmo que essa discriminação vai ser legislada, mas porque sabem que essa discriminação existe nos deputados em que votam. As pessoas já nem sequer votam por homofobia na esperança de que seja legislado que casais homossexuais não possam adotar, ou que voltem a não poder doar sangue. Votam porque sabem que os deputados em quem votaram partilham desses preconceitos. Este anúncio não passa com a expectativa de que a lei do aborto seja efetivamente revertida, passa com o objetivo de ofender e de inquietar. Estamos frequentemente expostos a isto nos dias que correm. Dignificamos o abjeto como discurso político. O critério mínimo para considerarmos algo um posicionamento político já não é que provoque reflexões, agora é só mesmo provoque.
Parecendo que não, sempre houve este apreço pela falta de seriedade dentro da política, ele apenas saiu do parlamento. Aquando da votação referente ao programa do governo, o PCP apresenta sempre uma moção de rejeição. Já o partido Chega, vai para as redes sociais chamar corrupto ao Primeiro-Ministro, protesto que é obviamente muito menos assertivo, mas que muita gente que não vê significância nas funções dos partidos, se identifica mais. Revêem-se também na natureza provocadora desse protesto. Antigamente, a direita vestia-se a rigor e defendia o “respeitinho”, estando sujeita às críticas da esquerda rebelde. Nos dias que correm é a esquerda que tenta policiar a linguagem, estando a direita à margem do “politicamente correto”. A virtude política está em quem conseguir conotar os outros como o “poder” e a si próprio como o “anti-sistema”.
Numa sociedade moderna e democrática é preciso puxar pela imaginação para criar esta ideia de opressão sistémica. É aí que entra o “politicamente correto”. Trata-se de um conceito que apesar de não imperativo, a generalidade das pessoas vê como vinculativo, provavelmente por nunca terem sentido nenhuma opressão real. Aparecem depois as correntes políticas, que se apresentam como defensoras do povo, por fazerem frente a estes poderes fictícios. Mais uma vez, puxam para o centro do discurso político não assuntos e cativam o povo com não soluções. Nunca deixando se tentarem identificar com ele através da sua falta de classe, o que revela muito sobre o que verdadeiramente acham do povo.
A austeridade não teria de ser algo necessariamente alienante nos políticos, caso as pessoas lhes reconhecessem competência. Como não reconhecem, gostam daqueles com capacidade de enervar os que enveredam pela austeridade. No entanto, capacidade de ofender num político, não substitui essa competência. As pessoas neste país, que têm dificuldades para pagar a renda, precisam de políticos competentes. Já os privilegiados que discutem política de forma inconsequente continuam a tratar a competência e a falta de seriedade como se fossem intercambiáveis e a achar que as suas conversas de café se equiparam à realidade de certas pessoas.

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