Opinião de Tomás Figueiredo
Artigo exclusivo do site, publicado em Abril de 2026
A corrida aos Oscars é frequentemente descrita como uma maratona de prestígio, mas, nos bastidores da indústria, assemelha-se mais a uma campanha presidencial, onde a subtileza é muitas vezes sacrificada em prol da narrativa de vitória.
Para compreender como a Academia funciona, é preciso compreender que o mérito artístico é apenas o bilhete de entrada: o que decide quem leva a estatueta para casa é, na maioria das vezes, a capacidade de um estúdio manipular a perceção dos cerca de 10 000 votantes. Esta manipulação ocorre através de um ciclo vicioso de jantares de gala, exibições privadas e, crucialmente, a criação das ditas narrativas de compensação.
A (in)justiça retroativa
Um dos exemplos mais gritantes desta dinâmica é a forma como a Academia tenta corrigir erros passados premiando artistas por filmes de qualidade inferior. Martin Scorsese, amplamente considerado um dos maiores realizadores vivos, viu obras-primas suas como “Taxi Driver-Motorista de Táxi” e “O Touro Enraivecido” serem ignoradas. Só para mais tarde vir a ser finalmente recompensado com uma estatueta por “The Departed-Entre Inimigos”, um excelente filme, mas que muitos críticos consideram um prémio de consolação pela sua carreira, e não necessariamente o melhor trabalho daquele ano específico.
Esta necessidade de justiça retroativa cria um efeito dominó de injustiças. Al Pacino venceu por “Perfume de Mulher” em 1993, não porque aquela fosse a sua melhor performance, mas porque a Academia sentia uma culpa coletiva por não o ter premiado por “O Padrinho” ou “O Padrinho: Parte II” (ou até mesmo por outros projetos). Ao fazê-lo, acabaram por ignorar interpretações monumentais de Denzel Washington em “Malcolm X” ou Robert Downey Jr. em “Chaplin”, perpetuando um ciclo onde o Oscar raramente é atribuído no momento certo.
Historicamente, a Academia demonstra uma tendência recorrente em conceder prémios como forma de compensação, após um ator acumular perdas significativas em anos muito próximos, criando uma espécie de dívida de honra que culmina em vitórias menos justas. O caso de Renée Zellweger por “Montanha Gelada” em 2003 ilustra perfeitamente esse fenómeno: após indicações consecutivas e derrotas por papéis culturalmente marcantes em “O Diário de Bridget Jones” (2001) e “Chicago” (2002), a atriz chegou à cerimónia como a favorita absoluta apenas por estar “na fila”. O Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante acabou por servir menos como um reconhecimento à sua performance no drama de guerra (que não é necessariamente o seu melhor trabalho) e mais como um acerto de contas histórico, provando que, muitas vezes, o troféu celebra a trajetória e a persistência do artista em vez do mérito isolado do trabalho premiado.
A influência de Harvey Weinstein
No entanto, o lado mais negro desta corrida não é a nostalgia, mas a sabotagem ativa. Durante os anos 1990 e 2000, o infame Harvey Weinstein aperfeiçoou a chamada “campanha de sussurros”. Em 2001, para garantir que “Uma Mente Brilhante”, um filme da concorrência, perdesse força, espalharam-se rumores maliciosos entre os votantes sobre a vida pessoal de John Nash, o matemático que inspirou o filme, sugerindo antissemitismo para alienar o bloco de votantes judeus de Hollywood. A tática de atacar o caráter do material de origem ou dos envolvidos tornou-se, desde então, uma ferramenta padrão na corrida ao Oscar.
O desprezo pelo terror e pela ficção científica
Outra face da injustiça reside na resistência histórica da Academia a géneros cinematográficos considerados menores e menos dignos. O terror e a ficção científica (quando são nomeados) são sistematicamente relegados a categorias técnicas, independentemente da sua profundidade temática. O caso de “O Silêncio dos Inocentes” em 1992 foi uma anomalia rara, tendo ganho prémios em todas as cinco categorias principais. Normalmente, performances geracionais como a de Toni Collette no filme de terror “Hereditário” ou a visão revolucionária de Stanley Kubrick em “2001: Odisseia no Espaço” (uma ficção científica, muitas vezes considerada como à frente do seu tempo) são deixadas de fora. Isto deve-se ao facto de os votantes, historicamente mais velhos e conservadores nas suas escolhas, tenderem a favorecer dramas de época ou cinebiografias tradicionais.
O caso “Green Book” e o que ele representa
Esta preferência pelo seguro e pelo convencional levou a uma das maiores controvérsias modernas: a vitória do prémio de Melhor Filme por “Green Book-Um Guia Para a Vida” contra “Roma”, “A Favorita” e “Nasce Uma Estrela” na cerimónia de 2019.
Essa resistência fica ainda mais evidente se considerarmos que o filme também competia contra “BlacKkKlansman: O Infiltrado”, de Spike Lee. Ao contrário da narrativa conciliadora de “Green Book”, a obra de Lee utilizava uma sátira feroz e uma montagem visceral para conectar o racismo histórico dos anos 70 diretamente à violência contemporânea da extrema-direita. Ao ignorar um filme que exigia uma postura política ativa do espectador em favor de uma fábula de amizade linear, a premiação reforçou que, naquele ano, o Oscar não estava pronto para o cinema de confronto, preferindo a celebração de uma harmonia racial que raramente se reflete na nossa realidade.
O Preço do Oscar
Além disso, o custo financeiro para entrar no círculo de vencedores cria uma barreira de classe para o cinema independente e estrangeiro. Um estúdio pequeno pode ter o melhor filme do ano, mas se não tiver 20 milhões de dólares para saturar os ecrãs dos votantes com anúncios e organizar eventos onde os atores podem apertar as mãos certas, as suas hipóteses são nulas. O fenómeno de “Parasitas”, em 2020, foi histórico precisamente por quebrar esta barreira, mas continua a ser uma exceção que confirma a regra. Na maioria dos anos, o Oscar é um reflexo de quem conseguiu manter o fôlego financeiro por mais tempo, deixando para trás filmes mais audazes que não tiveram o suporte de uma máquina de marketing implacável.
No fim das contas, a estatueta dourada é tanto um troféu de cinema quanto um certificado de eficiência política, onde a injustiça não é uma falha do sistema, mas muitas vezes uma peça essencial da sua engrenagem.
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