Sofia Condez Alves
Artigo exclusivo do site, publicado em Janeiro de 2026
Desde que a Netflix, o serviço de streaming, surgiu, esta esteve sempre na dianteira do seu setor. No entanto, num piscar de olhos e com a viragem da década, encontramo-nos agora perante um verdadeiro gigante da indústria do entretenimento. Um King Kong ou uma Audrey II que navega Hollywood e absorve tudo o que encontra pelo caminho. Quando começaram a sair notícias de que a Netflix estaria em negociações para adquirir a Warner Bros., a reação dos amantes do cinema foi imediata e polarizada. Para alguns, o negócio parecia o passo certo e natural numa indústria que foi profundamente transformada pelo streaming ao longo das últimas duas décadas. Para outros, soou mais como a sirene de uma ambulância, ou, neste caso, o exato contrário disso – mais um capítulo na lenta degradação daquilo que o cinema alguma vez foi.
Independentemente de o acordo se concretizar ou não, da forma que tem sido reportada, a conversa que desencadeou merece ser analisada, pois vai muito além da Netflix e da Warner Bros. Trata-se de uma questão de poder, visibilidade, propriedade intelectual, e da forma como experienciamos e preservamos o cinema.
Para mim, as duas empresas ocupam lugares radicalmente distintos no imaginário coletivo. A ascensão da Netflix é uma das histórias de sucesso mais dramáticas e, francamente, preocupantes da história recente dos média. Quando começou, em 1997, como um serviço de aluguer de DVDs por correio que pretendia competir com as lojas da franquia Blockbuster, era difícil prever até onde chegaria. Ainda assim, quando tudo se resume ao essencial, conseguimos perceber que a “conveniência” foi sempre o seu fator distintivo. Em 2007, a Netflix lançou o seu serviço de streaming, passando a vender às pessoas um catálogo de filmes sem anúncios intermédios ou intervalos, “sem sair do sofá”. Nos primeiros cinco anos, ultrapassou os 20 milhões de subscritores, número que continuou a crescer ao longo do tempo. Eventualmente, começou a produzir conteúdos próprios, como House of Cards, cujo segmento de introdução deu origem ao famoso som que se ouve ao abrir a plataforma. Hoje em dia, a Netflix conta com mais de 300 milhões de subscritores em mais de 190 países e estima-se que valha perto de 400 mil milhões de dólares americanos. Regida pela lógica da conveniência, esta empresa de aluguer de filmes evoluiu para uma plataforma de streaming dominante no seu meio, acabando por redefinir a forma como o público consome cinema e televisão.
A Warner Bros., por contraste, representa a memória institucional de Hollywood, sendo um dos estúdios mais antigos e conceituados do circuito mainstream. Fundada no início do século XX por quatro irmãos que começaram por exibir “imagens em movimento” em espetáculos itinerantes, o estúdio esteve na linha da frente de inovações como filmes com som sincronizado com The Jazz Singer, em 1927. Ao longo das décadas, construiu uma das bibliotecas mais prestigiadas de Hollywood, desde os clássicos da Era Dourada até fenómenos globais contemporâneos como Harry Potter, o universo da DC, e Guerra dos Tronos. Estes filmes e franquias são referências partilhadas por gerações e têm um papel central na nossa cultura. Não se trata de dizer que a Warner é irrepreensível, já que tem, como qualquer outra empresa, inúmeras falhas, mas a perceção pública associa-a à longevidade, ao legado, e à permanência.
Depois de contextualizar os nomes em causa, estas negociações ainda não podem ser discutidas, faltando olhar para o próprio panorama da indústria do entretenimento. O domínio inicial da Netflix empurrou os estúdios tradicionais para posições defensivas. A indústria do DVD já estava em declínio, mas foi a empresa que lhe deu o golpe final. Foi também o sucesso de Stranger Things, uma série original da plataforma, que consolidou o novo formato de temporadas de oito episódios, temporalmente irregulares, bem como produções mais caras e ambiciosas. A morte do episódio de filler e o conceito de binge-watching, impulsionado pela prática do serviço de streaming de lançar temporadas completas no mesmo dia, também devem ser mencionados. Ainda assim, mesmo como gatilho de todas estas “revoluções”, as notícias de que a Netflix se estava a tornar “séria” foram sempre recebidas com alguma desconfiança, até ao momento em que os seus filmes originais começaram a ser feitos por “verdadeiros” realizadores, com estrelas consagradas, e até a ganhar Óscares.
Como resposta, empresas como a Disney, a Warner, a Paramount, e a Apple começaram a retirar os seus conteúdos da Netflix para criar as suas próprias plataformas (Disney Plus, HBO, Amazon Prime, entre outras). O resultado foi uma oferta esmagadora de serviços de streaming, filmes a saltarem de plataforma em plataforma, séries que as pessoas querem acompanhar espalhadas por todo o lado, e um aumento constante dos preços das subscrições. O apelo da conveniência juntou-se à recessão crescente, ao custo cada vez mais elevado de ir ao cinema, e ao facto de o público já não sentir a necessidade de ver coisas novas, preferindo consumir conteúdos familiares de que sabe que irá gostar. A indústria cinematográfica encontra-se em crise há algum tempo e tem falhado em recuperar, enquanto os líderes destas empresas, cegos pelo lucro, seguem os desejos imediatos do público. Por tudo isto, a Netflix tornou-se a vilã na opinião de muitos cinéfilos – o verdadeiro Jogador 001 dos nossos tempos.
Assim, quando, no final de 2025, surgiu a notícia de que a Netflix teria feito uma proposta para adquirir a Warner Bros. Discovery por cerca de 83 mil milhões de dólares americanos, instalou-se o caos. Juntar o gigante global do streaming a um dos arquivos mais ricos da história do cinema parece o fechar de um círculo. À primeira vista, isto pode apenas significar a absorção da HBO pela plataforma da Netflix, eliminando mais um serviço de streaming, e um crescimento exponencial do seu catálogo. No entanto, o público teme que o acordo envolva muito mais do que isso.
Antes de avançar para hipóteses e reações, importa esclarecer alguns detalhes sobre o negócio em si. Esta não seria a primeira vez que a Warner é comprada, tendo mudado de mãos três vezes, sempre com resultados pouco felizes. No entanto, é a primeira vez que a sua venda, devido à perceção pública da Netflix, ganha destaque nas notícias mais gerais. Além disso, após a proposta da Netflix se ter tornado pública, a Paramount também demonstrou interesse, chegando mesmo a apresentar uma oferta mais elevada pela Warner Bros. na totalidade (e não apenas pela Discovery, que não inclui os canais a cabo), proposta essa que acabou rejeitada. O concelho de administração da Warner classificou essa oferta como uma aquisição altamente alavancada e arriscada defendendo que a proposta da Netflix oferecia mais segurança. David Ellison, que lidera a Paramount Skydance, está agora a processar a WBD, exigindo mais transparência sobre a forma como as propostas concorrentes foram avaliadas, e como o acordo com a Netflix foi discutido. Embora os contratos finais ainda não tenham sido assinados, tornou-se claro que direção a Warner Bros. pretende seguir.
Mesmo que esta fusão acabe por não acontecer, a simples ameaça já desencadeou debates relevantes sobre o futuro da indústria do entretenimento. Críticos da notícia, incluindo figuras políticas e profissionais do setor, levantaram preocupações com a natureza antitrust dos movimentos da Netflix. Christopher Nolan, conceituado realizador, e atual presidente do Sindicato dos Realizadores da América (DGA), tem manifestado repetidamente a sua aversão à Netflix e expressou a sua preocupação através de um comunicado oficial. De forma semelhante, o Sindicato dos Argumentistas da América (WGA), que já entrou em conflito direto com a empresa em várias ocasiões, mostrou-se descontente com o possível acordo, chegando a enumerar os seus impactos negativos: o desaparecimento de postos de trabalho, a redução de salários, piores condições laborais, e um menor volume e diversidade de conteúdos para o público. No entanto, o sindicato mais influente, o dos atores, a SAG-AFTRA, adotou uma posição mais moderada, emitindo uma declaração vaga e pouco clara, afirmando apenas que a sua principal preocupação é que a fusão resulte em “mais criação e mais produção, não menos.” Esta postura era expectável, tendo em conta as ligações anteriores do seu atual presidente, Sean Astin, à Netflix, bem como o rumo das suas decisões desde que foi eleito. Em resposta à reação geral, o co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, defendeu o acordo, classificando-o como favorável ao consumidor e à inovação. O problema é que esta visão parece não reconhecer os consumidores como indivíduos reais, e considerar as suas horas intermináveis de media como meros produtos.
Parte do desconforto com o acordo resulta da influência sem precedentes da Netflix no mundo da distribuição. A empresa apresenta-se frequentemente como uma vasta biblioteca com milhares de filmes à distância de um clique. No entanto, a sua interface é altamente curada. A disposição na página inicial, as previews em autoplay, as thumbnails, e o algoritmo determinam o que ganha destaque e o que desaparece silenciosamente. Houve inúmeras vezes em que encontrei verdadeiras pérolas escondidas no serviço de streaming que nunca me foram promovidas na página principal e que, por isso nunca tiveram hipóteses de suceder. Tendo em conta o papel central que a arte e os conteúdos que consumimos desempenham na forma como pensamos e sentimos, não consigo deixar de me preocupar com a forma como esta plataforma (e outras semelhantes) moldam a nossa perceção da realidade.
O modelo da Netflix assenta na encomenda simultânea de muitos projetos, na análise precoce dos dados de desempenho e no cancelamento de tudo o que não cumpre determinados critérios internos. Trata-se de um motor de experimentação rápida, em que se atiram ideias à parede para ver o que cola, que resulta no cancelamento de muitas séries após apenas uma temporada, não por falta de qualidade mas por não atingirem métricas específicas de envolvimento. Embora isto possa ser apresentado como culpa do consumidor, já que somos nós que “escolhemos” o que ver, a própria Netflix não dá aos conteúdos uma oportunidade justa. Naturalmente, isto priva atores, realizadores, e equipas técnicas de trabalho e de oportunidades.
Uma das maiores preocupações com a absorção do catálogo vasto da WBD prende-se com as mãos em que irão parar algumas das Propriedades Intelectuais (IPs) mais queridas do público. Tendo em conta as prioridades aparentes da empresa nos seus projetos atuais – conteúdos fáceis de consumir compulsivamente, sobreprodução, e cenas pensadas para a verticalidade das redes sociais –, é difícil não sentir apreensão perante a possibilidade de a Netflix controlar Harry Potter e o Wizarding World, o universo cinematográfico da DC, Dune, ou o Monsterverse. Ainda traumatizada pelo caminho que a Disney seguiu com as sequelas de Star Wars, temo o que a Netflix poderá fazer com o legado de Tolkien e de Peter Jackson. As métricas sempre influenciaram decisões criativas, mas nunca ao nível a que a Netflix as elevou.
Há ainda os títulos mais antigos da Warner, que já não são tão procurados ou vistos, mas que representam a história e a evolução da arte cinematográfica. Embora a Netflix se apresente como acessível, a verdade é que detém todo o poder para adicionar ou remover conteúdos conforme lhe convém. Com a morte do suporte físico e a dependência crescente no streaming, corremos o risco de perder acesso a décadas de valor artístico. A medo de me repetir, estas grandes plataformas de streaming têm controlo total sobre aquilo que vemos e sobre aquilo que podemos ver, podendo censurar títulos que considerem pouco lucrativos, inconvenientes, ou irrelevantes.
Passando do que a Netflix passaria a possuir para aquilo que pretende criar no futuro, foi referido que a empresa planeia reduzir significativamente os lançamentos teatrais da WBD. A sua lógica é que as salas de cinema se tornaram obsoletas, já que podemos ver tudo a partir do conforto das nossas casas. Esta visão ignora, contudo, que as pessoas não vão ao cinema por conveniência, mas pela experiência. Desde a sua origem, o cinema foi construído à volta da coletividade: desconhecidos sentados juntos no escuro a partilhar silêncio, riso, desconforto, deslumbro. A sala do cinema exige que o espectador abdique de pausas, de scroll, e continua a ser um dos poucos lugares onde as histórias se podem desenrolar no ritmo pretendido, sem interrupções ou distrações.
Plataformas de streaming como a Netflix alteram fundamentalmente esta relação. Quando os filmes são pensados sobretudo para visionamento doméstico, tendem a ser montados, ritmados, e estruturados tendo em mente o facto de que podem perder a atenção do cliente muito facilmente. Assim, brincam com cenas mais curtas, inícios que chegam mais rapidamente ao ponto, conflitos mais óbvios, menos momentos de silêncio. Isto, por si só, não os torna piores, mas muda o tipo de histórias que são privilegiadas. Filmes subtis, obras visualmente exigentes, ou narrativas mais experimentais têm alguma dificuldade a sobreviver na luta contra a atenção. Se os lançamentos em sala forem progressivamente substituídos por estratégias à volta do streaming, o perigo não é apenas haver menos filmes nos cinemas, mas haver cada vez menos filmes feitos para o cinema.
“o perigo não é apenas haver menos filmes nos cinemas, mas haver cada vez menos filmes feitos para o cinema“
As negociações entre a Netflix e a Warner Bros., independentemente de culminarem ou não numa aquisição, revelam as fraturas do consumo mediático contemporâneo. Convidam-nos a refletir sobre o que esperamos das nossas plataformas culturais: queremos mesmo entretenimento como uma serendipidade curada, otimizada por dados para gratificação instantânea? Algumas destas ansiedades podem parecer abstratas, mas assentam em mudanças muito reais na forma como concebemos o papel do cinema na sociedade. A questão não é propriamente se a Netflix faz bons ou maus filmes, ou se é boa ou má para o cinema, mas sim se uma única plataforma deveria ter tanto poder sobre as nossas histórias.
Pode parecer quase fútil insistir nestas questões quando coisas mais estranhas estão a acontecer no mundo, mas as massas sempre recorreram à arte e aos media em momentos de desespero. É importante que essa arte seja mais do que um cheque.
“When the lights go down, that’s magic. Cinema should be seen in cinemas.” – Stellan Skarsgård, 2026
Comentários