Opinião de Isabel Valério
Também incluído no FEPIANO 69, publicado em Setembro de 2026
Numa tarde febril e seca de verão, antes de as aulas começarem, depois de ter recebido um e-mail muito esperado, entrei numa FEP vazia, com corredores que pareciam um aeroporto: promissora, sonhadora, sem conhecer ninguém e sem certezas de que muitos como eu, vindos de Ciências, iriam gostar de estudar Economia ou Gestão. A minha irmã, às vezes, brincava: “As tuas cadeiras vão ser Dinheiro I, Notas II, Como Ser Rico III.” Mas, obviamente, não foi nada assim.
Ao longe, vemos o imponente obelisco, estranho e, ao mesmo tempo, exatamente no sítio certo. O espelho de água, que absolutamente ninguém passa as tardes a contemplar, enquanto pensa em como criar um negócio multimilionário. Num minuto estamos a aprender sobre o crash da bolsa, no outro, passamos o tempo a desenhar gráficos intelectuais, matrizes tortas, e, se forem como eu, por vezes, umas lágrimas, não de cálculo financeiro, mas do pólen que viaja pelo parque de estacionamento da FEP. Desde o primeiro dia, para aqueles que chegam desprevenidos, basta piscar os olhos para já não nos lembrarmos de como fomos parar a uma formação de praxe ou de como acabámos por conhecer tanta gente. Quando damos por nós estamos inscritos em vários recrutamentos, ou a fazer audições de canto, ou até a calçar botas de aço para conhecer uma empresa. A certa altura, alguém de certeza vai conseguir manipular-vos para instalarem o LinkedIn, mas espero que com isto não fiquem com a ideia de que as pessoas nos corredores da FEP passam o dia a conversar sobre ETFs e taxas de juro. Não vou mentir, podem eventualmente ser apanhados numa dessas conversas ou a discutir partidos políticos mas, a FEP é também, sobretudo, um sítio de construção de amizades. E, apesar de parecer um bloco de cimento por fora, é, tal como se dizia no melhor filme da Barbie, A Princesa e a Aldeã:
“Para mim, tu és assim.”
“Uma pedra?”
“Simples por fora, mas um tesouro no interior!”
Desde o secundário, tive algum receio da fama dos “professores universitários”, mas, na FEP, não senti isso. Existe liberdade para falar com eles, na minha opinião enquanto estudante, existe um ensino de muita qualidade. Ainda assim, a FEP vive-se para além do horário das aulas, tal como numa certa escola de magia britânica, existe alguma magia nas pessoas que se trajam, mas não só: existe na energia dos estudantes e nas tradições universitárias.
“existe na energia dos estudantes e nas tradições universitárias”
Falando da experiência numa organização, da FINK e, especialmente Editorial, há qualquer coisa de precioso em escrever para o jornal desta Instituição. Estar em Editorial faz-me lembrar algumas das personagens que sempre admirei, pela relação que tinham quase obsessiva com histórias, palavras e jornais. Penso na Rory Gilmore a escrever para o Yale Daily News, ou na Anne Shirley com o seu fascínio peculiar por narrativas e palavras difíceis. Existe aqui essa mesma energia inquieta e imaginativa, de quem está sempre à procura de mais. Como se fosse escasso. Como se escrever ou ler fossem escassos. Talvez seja aqui que a Economia se cruza com tudo isto. Lionel Robbins definia Economia como o estudo do comportamento humano perante fins e meios escassos com utilizações alternativas. A FEP dá lugar a tudo isto, a uma experiência completa.

Sê o primeiro a comentar