Opinião de Isabel Valério
Também incluído no FEPIANO 65, publicado em Março de 2026
Podem argumentar que o ser humano pode ser dividido em dois: a alma e o corpo. O primeiro é associado a tecer a nossa verdadeira identidade, invisível ao espetro de luz. O segundo protege-nos e é onde um coração bom pode, ou não, pousar. Ambos suscetíveis a críticas: Insinuam-se no tremor das pálpebras de quem as ouve, e na pretensão de quem as faz, como se a venda que cega e encarna o discernimento lhes pertencesse.
Esta divisão é antiga e surge no mito da mortal Psique e do Deus Eros. Este último pela sua aparência divina era sempre incluído com leveza e encanto. Desta vez, queria que o vissem pela sua autenticidade. Proibiu Psique de o ver, deixando que só nas conversas às escuras, a essência se revelasse, tão etérea e hipnótica. Excluir alguém com base nas primeiras impressões é absurdo: é a frase feita que já todos ouvimos e talvez por isso tenha perdido significado. A mitologia condenava a superficialidade: Narciso ficou tão obcecado com o seu reflexo espelhado pela água, tal que definhou a olhar para si até se transformar na própria flor que lhe deu o nome. Então, até que ponto deve a nossa aparência ditar as nossas ações?
A aparência tem de se inserir numa norma fabricada e homogeneizada. Para evitar exclusão social muitos vêem-se obrigados a fazer de tudo para satisfazer tais requisitos impostos pela sociedade, pois quem não está conforme é suscetível a ser ostracizado: “Aquele que não consegue viver em sociedade, […], ou é uma Besta ou um Deus”. Apesar de moralmente atroz, é omnipresente: o Jornal Público constatou em 2018 que “Hospitalizações por anorexia nervosa duplicaram em 15 anos.”
Esta tensão da aparência revela-se nos desfiles da Victoria’s Secret que voltaram recentemente. Desta vez, a diversidade entrou em palco, em detrimento dos anjos padronizados. Torna-se relevante decidir qual é o verdadeiro trabalho de um modelo: se não existirem imposições de peso, altura ou quaisquer outras, implica que qualquer um pode ser modelo? Talvez, mas isso não retira o propósito da profissão. O que faz o modelo é a sua capacidade de mostrar. A tradicional definição ignora o efeito que a falta de representatividade provoca no público. Há quem contrarie e garanta que quem tem excesso de peso não deveria ser modelo, por estar a promover um estilo de vida não saudável. Mas o mesmo se aplicaria a quem tem anorexia, o que é contraditório.
Salientar diferenças, através de rótulos, cria um afastamento maior. É necessário que percebamos que a diversidade pode estar associada a necessidades diferentes, mas nomear é uma inclusão disfarçada e impede uma normalização. O termo plus size existe para quê? Porque é que só este precisa de vir acompanhado de descrição, acessório e de bandeira fluorescente, a não ser para impedir, de certa forma, que a sociedade associe uma modelo plus size à palavra modelo por si só?
As palavras são, e serão sempre, a obsidiana mais aguçada, primordial e desindustrializada que o ser humano pode recorrer para amargar. Devemos usá-las com peso na língua. A inclusão exige que
” o carácter
se sobreponha a julgamentos da aparência, que tal como o de Eros,
é a única coisa que ainda pode ser sentida no bréu. “

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