Opinião de Matilde Topa
Artigo exclusivo do site, publicado em Fevereiro de 2026
Como dizia a nossa querida Blair Waldorf: “A moda é a arte mais poderosa que existe. É movimento, design e arquitetura num só”. Numa dimensão mais mundana, o seu objetivo é a expressão da nossa identidade, mas vemos cada vez mais micro trends, que duram cada vez menos, e a noção de um estilo pessoal está a começar a desaparecer.
Primeiramente, é importante entender que gostar de moda não é gostar de consumir e que ter dinheiro para gastar, centenas ou até milhares, não se traduz em estilo e, muito menos, em bom gosto. Hoje em dia, em vez de consumir e escolher intencionalmente, os hábitos de compra são marcados pelo consumismo excessivo e praticamente nenhuma preocupação com qualidade. Graças ao fenómeno chronically online, observamos o sentimento crescente de que precisamos daquela peça para incorporar a última trend no nosso guarda roupa ou ficamos para trás. Isto contribui para a noção de que todos andam com um uniforme bizarro que nem sempre se traduz para o dia a dia, por exemplo, todos nos lembramos de quando os Labubus invadiram carteiras e mochilas por todo o mundo. Com isto, as redes sociais claramente contribuem para esta triste realidade e para a popularização de fast fashion e micro trends, das quais nos cansamos rápido, levando ao sentimento de “Uhh, não tenho o que vestir”, o que nos leva a repetir o processo vezes e vezes sem conta.
Assim, é deste modo que o estilo pessoal desaparece. Este é suposto ser a reflexão da nossa personalidade: mais clássico e elegante para uns, mais excêntrico ou informal para outros, mas sempre um escape criativo para muitos. No fundo, o verdadeiro estilo vai sempre depender de identidade e de gosto, nunca de obediência.
“No fundo, o verdadeiro estilo vai sempre depender de identidade e de gosto, nunca de obediência.”
Para além do custo pessoal para a nossa identidade e criatividade, também há um custo social acrescido. Em primeiro lugar, como já sabemos, a fast fashion é das piores indústrias para o meio ambiente. A maior parte destes produtos são de baixa qualidade, descartados rapidamente e produzidos em massa, o que resulta em desperdício que pode demorar até 200 anos a desaparecer, no caso das peças de poliéster, e em gastos excessivos de energia e água, sendo esta indústria responsável por aproximadamente 10% das emissões de carbono atualmente e 79 a 93 mil milhões de metros cúbicos de água por ano. Além disso, a fast fashion está associada a condições de trabalho precárias, sem segurança e a baixos salários, o que mostra que não é só o planeta que sofre com esta realidade. Tudo isto para peças de roupa que praticamente não serão usadas e que, quase de certeza, acabarão no lixo.
Em segundo lugar, a expressão da nossa individualidade é importante para sociedade como um todo. A afirmação pessoal e a criatividade que estimula, não só são essenciais para a nossa saúde mental e para a forma como nos relacionamos uns com os outros, como também impulsionam o desenvolvimento e a inovação. Ajuda-nos a entender quem somos e qual o nosso papel dentro da nossa comunidade. Além disso, uma sociedade sem identidade é uma sociedade manipulável, tal como podemos observar, em pequena escala, através da popularização das micro trends nas redes sociais, que levam as pessoas a comprar peças que claramente vão perder o interesse numa questão de semanas, ou até menos.
Apesar de tudo, o propósito não é deixarmos de comprar roupa de que gostamos ou passar a consumir 100% conscientemente, até porque, atualmente, este consumo é um luxo com um preço muito alto, longe de ser acessível para todos. O objetivo é, na verdade, entendermos o que funciona para cada um de nós: o que gostamos, os materiais e a durabilidade do que compramos. Por exemplo, uns sapatos de pele podem ser caros, mas com o devido cuidado podem durar praticamente a vida toda, enquanto que uns sapatos de polipele, que muitas vezes acabam por custar um terço, ou menos, dos outros sapatos, terminam o ano completamente destruídos.
Não seguir todas as trends. Escolher com uma intenção por trás de cada peça. Gostar o suficiente da nossa roupa para a repetir. Não querer ser igual aos outros. Enfim, saber quem somos e seguir a nossa própria identidade, usando a moda para a ilustrar. Isto é o que traduz verdadeiramente o que é ter um estilo pessoal e usar a moda nas nossas vidas. Afinal, a citação inicial termina com: “A moda mostra ao mundo quem somos e quem queremos ser”.
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