“O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos/ Sim/ a ratos” – Alexandre O’Neill, “O Poema Pouco Original do Medo”

O lugar escolhido parecia uma biblioteca. Não no sentido prático, não havia um sistema, um catálogo, nem qualquer ordenação visível, mas na forma como segurava o silêncio. As prateleiras estendiam-se ao comprimento da sala, a abarrotar de todo o tipo de livros, tendo estes sido trazidos em quantidade e armazenados ao calhas. Sinceramente, estas coleções de páginas e páginas emanavam mais a memória do propósito, sem insistirem muito em serem abertos.

Um velho d’aspeito falava num canto para quem o quisesse ouvir. Não me aproximei dele da primeira vez que lá fui, estando o sítio apinhado com muitos reunidos à sua volta, mas posicionei-me de forma a conseguir apanhar o que ele dizia. Meneava a cabeça descontente enquanto discursava sobre o “bicho”. Com a “voz pesada, um pouco alevantando”, falou de muita coisa que já todos tínhamos pensado ou lido: os milhares de litros de água a serem gastos, as emissões de carbono recorrentes, o uso intensivo e excessivo de recursos de produção e de eletricidade, a tamanha ameaça à cibersegurança, os problemas causados à privacidade e à proteção dos dados individuais, a destruição de postos de trabalho, a desinformação. Quando de lá saí, ainda não tinha acabado de falar e, das vezes seguintes que tornei a aparecer, continuava.

De cada vez que lá ia, estava menos gente. Iam desaparecendo, e sabíamos que tinham apanhado a doença, ou que já não se importavam de a apanhar. O discurso já era cansativo e nada de novo, todos sabíamos as implicações da coisa e não tínhamos mais nada a acrescentar porque não sabíamos como resolver o problema. O bicho tornou-se tão normal à nossa volta que as suas maldades começaram a enevoar-se nos cérebros de alguns. Eventualmente, a casualidade deixou de funcionar para os que restamos e, pouco a pouco, começamos a trazer as coisas necessárias para ficarmos permanentemente e sobrevivermos. Foi na minha primeira noite lá que finalmente ganhei a coragem para falar com ele. Ele estava de pé a observar a nossa única janela para o mundo lá fora, já se tinha fartado de falar e agora mantinha um silêncio estranho. Aproximei-me lentamente e pude-o ver melhor: a sua testa ocupava já metade da cabeça, tinha uns olhos arregalados e um bocado separados, um nariz enorme carrancudo, e uma barba digna. Tinha aspeto de pensador. Por questões da sua privacidade, chamar-lhe-ei “Sócrates”.

Perguntei-lhe logo de início se sentia falta do mundo lá fora, se pensava em voltar. O meu Sócrates respondeu-me que sim, mas que não. Tinha saudades do que achava o mundo ser, mas que lhe era inadmissível retornar. Nenhum de nós, já cansados do assunto, quis falar do bicho. Abordámos, em vez disso, o tema da linguagem, o grande médium através do qual o ser humano pensa, se expressa, e compreende o mundo. Como tal, todas as mudanças que sofre carregam consequências, que podem ser subtis, difusas, e quase sempre difíceis de medir – mas sempre reais.

Desde os primórdios do tempo, a linguagem nunca teve uma estrutura fixa, mas um sistema vivo, elástico, adaptável, indissociável das condições em que é utilizada. Durante uma parte da nossa história, estas influências foram limitadas pela proximidade. Até hoje, falamos com sotaques como os nossos vizinhos, como os das regiões em que crescemos. No entanto, sendo “maldito o primeiro que, no mundo,/ Nas ondas vela pôs em seco lenho” (Os Lusíadas, Camões), o mundo envolveu-se num eterno processo de globalização, e a linguagem passou a mover-se a uma velocidade diferente. Já não se vê, de todo, limitada pela geografia, nem sequer pela autoridade no sentido tradicional. Conseguimos falar com pessoas do outro lado do mundo, vemos filmes estrangeiros, traduzimos textos. É desta forma que adotamos, mais e mais, estrangeirismos como “design”, “buffet”, ou “graffiti”. Partilhamos palavras, herdamos expressões, e vamos ficando mais uniformes com o passar do tempo.

Um dos grandes elementos que acompanha e afeta a linguagem é, indubitavelmente, a tecnologia. Lápis e papel, máquinas de escrever, computadores, smartphones – todos tiveram o seu papel na evolução de como falamos com o próximo. E agora veio o bicho. Apelidei o meu Sócrates com este nome precisamente pelas suas parecenças neste assunto (para além da semelhança física completamente anormal), já que o seu antecessor uma vez afirmou que “esta invenção produzirá esquecimento daqueles que aprenderem a usá-la, porque não praticarão a memória.” É esta a grande preocupação que assombra a nossa conversa: será esta peste muito mais prejudicial do que o que já acertamos?

Para a infelicidade deste texto, e a razão principal de me subjugar à escrita criativa, ainda é demasiado cedo para compreendermos completamente o que está a acontecer. Não há, até ao momento, nenhum conjunto definitivo de investigação revista por pares que comprove que o ser humano esteja a ficar mais burro, nem existem provas conclusivas de que a cognição humana se esteja a degradar a níveis fundamentais por esta causa e não por qualquer outra das escolhas que fazemos. Já existem teses e papéis a serem publicados, mas os estudos são muito limitados e é, para já, impossível acessar esta peste a longo termo. Ainda assim, eu vejo-o à minha volta, noto-o em alguns artigos e notícias que leio, na forma como os meus colegas e família agem. As transformações linguísticas, por serem algo constante, raramente se anunciam com clareza estatística desde o início.

Os Grandes Modelos de Linguagem, treinados em vastos corpora de textos produzidos por humanos, não só reproduzem a linguagem, como a padronizam. Como são usados em grande escala, começou a ser possível observar uma espécie de “dialecto”, caracterizado por preferências lexicais específicas (palavras como “delve”, “intricate”, ou “underscore”, não havendo ainda estudos focados no português), por uma regularidade sintática nas frases (uso abnormal de “não é x, mas y”, por exemplo), e por um tom excessivamente polido e positivo. Os textos infetados são, de facto, bem otimizados para a clareza, coerência, e facilidade de leitura, mas não necessariamente para a autenticidade. Há, até, um sentimento de “uncanny valley” que permite àqueles com os olhos mais abertos para o reconhecer: o texto parece e soa humano, aproxima-se muito, mas pequenas imperfeições e discrepâncias (ou, na realidade, demasiadas perfeições), afastam-no ultimamente. A verdade é que, como humanos, não somos perfeitos e não somos capazes de uma fluência perfeita e de um tom consistente incessantemente.

É, então, assustadora a forma como os humanos estão a assimilar estes padrões de fala e de escrita. Nós sempre absorvemos o vocabulário, tom, e estrutura daqueles que nos rodeiam, das conversas que temos, dos livros que lemos, dos média que consumimos. “Agora, o bicho também entrou neste jogo”, diz Sócrates à minha cara terrivelmente assustada. Mesmo não tendo a doença, estamos todos expostos à sua existência através daqueles que a têm. A coisa funciona como o tabaco – amigos de um fumador também fumam por tabela. Questiono-o sobre a possibilidade de lutarmos de volta: se sabemos o que se está a passar, podemos inventar uma espécie de dialeto anti-bicho, qualquer coisa que nos faça esquecer a sua influência. O problema é que não sabemos ao certo toda a sua abrangência. Sim, já somos capazes de sublinhar certas palavras ou expressões, mas há muitas outras a passarem despercebidas. Investigações preliminares sugerem que certas palavras e padrões estilísticos associados à peste estão, de facto, a tornar-se mais frequentes na comunicação humana, particularmente em contextos escritos. Embora o efeito pareça mais moderado na linguagem falada, a sua trajetória é suficientemente clara para suscitar questões. E num pensamento ainda mais aterrorizante, se esta doença foi criação humana e é moldada pelo seu Deus, ao se realimentar de volta nos humanos, caímos num ciclo recursivo, no qual o ser humano e o bicho começam a convergir.

É aqui, então, que o meu Sócrates para para respirar. Aproveito, finalmente, para chamar a sua atenção para o resto da deposição do seu anterior: “a confiança que depositarem na escrita, produzida por caracteres externos que não fazem parte deles mesmos, desencorajará o uso da própria memória. Vocês inventaram um elixir não para a memória, mas para a lembrança; e oferecem aos vossos alunos a aparência de sabedoria, não a verdadeira sabedoria, pois lerão muitas coisas sem instrução e, portanto, parecerão saber muitas coisas, quando na maior parte são ignorantes e difíceis de lidar, já que não são sábios, mas apenas aparentam sê-lo.” O Sócrates original não viveu o suficiente para conhecer o bicho, mas encontrou a sua primeira forma, e, tal como nós, temeu-a e rogou-lhe pragas. A verdade é que é importante resistir inicialmente à tentação do fatalismo tecnológico. Olhando para trás, a história dá-nos muitos exemplos disso. O verdadeiro Sócrates receava que a escrita corroesse a memória, e agora é uma das coisas mais importantes que temos. As calculadoras levaram a anos de preocupação com a erosão das habilidades matemáticas, tendo sido isto refutado recentemente. Foram muitas as pessoas que temeram que o advento da Internet e do Google afetasse a nossa capacidade de reter informação quando temos demasiada ao nosso dispor. Claro que podemos questionar o que seríamos sem estas ferramentas – talvez algum tipo de supermentes superdesenvolvidas, mas os seus benefícios são inegáveis.

Da mesma forma, este bicho comprova-se capaz de aumentar a produtividade, de auxiliar na educação, de apoiar processos criativos, e de acelerar as descobertas científicas quando se afirma bem no cérebro humano. No ramo da medicina, podemos estar a olhar para diagnósticos mais rápidos. Na investigação, talvez ajude a interpretar e a identificar padrões que seriam difíceis de encontrar para meros humanos. Esta peste talvez consiga democratizar o acesso à informação e a reduzir barreiras que antes limitavam a participação no trabalho intelectual e criativo (Sócrates mirou-me, aqui, de forma assustadora, e até eu engoli perante o que pronunciei).

Ainda assim, aqui, só fui capaz de encontrar benefícios “empresariais”. A tecnologia moderna não é concebida para incentivar a contenção ou a reflexão, e dá prioridade à eficiência, conveniência, e engajamento. Como resultado, o caminho de menor resistência leva muitas vezes a uma maior dependência. As nossas tendências cognitivas reforçam isto: os humanos estão naturalmente inclinados a conservar o esforço e a escolher atalhos quando disponíveis. Se um sistema está a oferecer respostas imediatas, textos decentemente elaborados, e a conclusão de tarefas sem esforço, o incentivo para se envolver em processos mais lentos e exigentes diminui. Corremos o risco de nos tornarmos  “utilizadores da vida” passivos, definidos mais pela nossa infeção do bicho do que pelas nossas capacidades independentes. Os hábitos humanos que nos sustentam – a curiosidade, a persistência, o pensamento crítico –  ficarão cada vez mais enfraquecidos.

Pergunto, assim, a Sócrates, o que podemos fazer pelos infetados, e o que lhes acontecerá se o bicho do nada desaparecer. Ele baixa a cabeça e diz-me que já os perdemos, que o melhor a fazer é garantir que o bicho não adoece mais ninguém. Em conversas lá fora, estranhamente, tive conceitos parecidos: o bicho é inevitável, e não faz sentido recusá-lo e resistir-lhe, porque a maioria não o está a fazer. Aceitá-lo e começar a usá-lo parece necessário para que não me atrase e consiga manter o ritmo dos meus colegas.

Se a disseminação deste dialeto reflete a crescente interação com textos gerados por máquinas, então a persistência de uma expressão humana distinta e idiossincrática pode depender de um esforço deliberado. Variações, imperfeições, e até ineficiências são agora características que sinalizam a presença humana. Estudos que comparam textos gerados por humanos e por infetados mostram consistentemente que os humanos exibem uma maior diversidade na sintaxe e no vocabulário, enquanto os últimos tendem para a uniformidade. Um mundo em que a comunicação se torna mais padronizada pode também ser um mundo em que a voz individual se torna menos pronunciada. Olho, então, para o meu pobre Sócrates, para os seus olhos cansados e mãos suadas e penso que, de qualquer das formas, havemos todos de enlouquecer, lá fora ou cá dentro.

Contudo, este resultado não é inevitável. A influência tecnológica é poderosa, mas não absoluta. A linguagem continua a evoluir através de processos sociais complexos, e os humanos mantêm a capacidade de moldar a forma como as ferramentas são integradas nestes processos. A própria consciência é uma forma de resistência: há que continuar a ler, ver filmes, cantar, conversar sobre tudo e mais alguma coisa, e prestar atenção. O futuro da linguagem nunca será definido por uma simples narrativa de declínio ou progresso. Será marcado por negociações entre a facilidade e o esforço, entre a assistência e a autonomia, entre a convergência e a individualidade. A questão não é se o bicho vai mudar a forma como falamos e pensamos, já o fez, mas sim até que ponto essa mudança irá e o que estamos dispostos a preservar.

Finalmente, com os dois em silêncio, tenho a chance de olhar à volta, para todos os que nos rodeavam, a escrever ou a pintar ou a fazer qualquer outra coisa que só pode ser humana, que o bicho nunca nos conseguirá tirar. Rio-me, então, ao pensar que também eu e Sócrates podíamos estar a fazer isso em vez de perder tempo com conversas chatas já repetidas. Presto atenção à janela e oiço o coro lá fora. Compreendo finalmente que, mesmo no pico do desespero, temos uma brilhante vantagem: eles nunca encontrarão este sítio.

“Na toca que já foi dos ratos cantam/ os homens que não chiam. E cantando/ a toca enche-se de sol./ (O pouco sol que os ratos não roeram).” – Manuel Alegre, “Variações sobre O Poema Pouco Original do Medo”

Fonte: Sofia Condez Alves