Por vezes, parece que os meus pares são obcecados com a pureza. Não necessariamente com qualquer ramificação material da palavra, só mesmo com o conceito, com o significado. 

Penso que a maior parte das pessoas reconhece que não é “pura”, bem como o seu meio envolvente. Afirmo isto no sentido em que há aspetos da sua vida com os quais não compactuam e ao reconhecimento de que o seu corpo está, literalmente, a deteriorar-se. Daí, a “pureza” é algo que conhecem bem, por ser o antónimo daquilo que são agora, mas, apesar disso, é algo que nunca experienciaram. Por isso, o desejo de pureza é o desejo de transitar para o puro. 

Penso que há uma manifestação visível deste pensamento na relação que muitas pessoas têm com o corpo. Várias vezes ouvi conhecidos e amigos exclamarem “Se eu parar de fumar agora os meus pulmões vão ficar como se eu nunca tivesse fumado”. Há uma componente da busca de irreversibilidade neste pensamento.  Contudo, penso que existe também uma vontade mais profunda de “cortar o mal pela raiz”, e começar de novo, como a ressurreição de Cristo nos incutiu. 

Manuel Pinto Coelho, famoso nas redes sociais por viver a vida dupla difícil de médico e negacionista, defendeu recentemente num artigo que “o jejum é como uma cirurgia sem bisturi”. A “medicina não tradicional” procura dar respostas simples em moldes que não licenciados em medicina consigam chegar pela “intuição”, traduzindo assim uma vertente do método socrático popularizada pelo, também negacionista e amigo de Pinto Coelho, Gustavo Santos. Acho que, com esta frase, Pinto Coelho mostra que subscreve a ideia de que as pessoas têm uma vontade inata de procurar a pureza, a desintoxicação. O facto de ter público, leva-me a crer que pode ser mesmo verdade. 

Passando agora para coisas que não interessam a ninguém: política. Costuma convencionar-se que as filosofias políticas acabam por cair em dois campos, as teorias do homem-velho e as do homem-novo. Teorias do homem-velho, moralistas da estrutura vigorante, que defendem as suas falhas como inevitáveis e como o mal menor. E, as teorias do homem-novo, que defendem o conceito há pouco abordado denominado por “cortar o mal pela raiz”. Os fundadores da estrutura eram pessoas incuravelmente corruptas, impuras. Nós, os homens-novos, vimos para romper com os poderes em vigor. Nós, que somos incansavelmente mais capazes e sobretudo morais. É de extrema importância para o homem-novo que a nova estrutura não seja um projeto político que se identifique com os valores societários da estrutura atual, visto que incorreriam em  sinal de impureza. Para o homem-novo não chega remediar, é necessário “cortar o mal pela raiz”. Não chega uma dieta, é necessário o jejum. Desde o leninismo ao partido nazi, do Chega à Nova Frente Popular, todos os radicalismos acreditavam não só numa diferença gritante entre si e o sistema, mas que ele não tinha cura, e que a sua pureza era apenas alcançável recomeçando do zero. Talvez as pessoas gravitem em particular para esse tipo de ideologia, não só por descontentamento, mas por hipocondria política. Aquilo que ignoram, é que, aqueles a quem agora chamam de sistema, outrora desempenharam o papel de homem-novo. 

Nem todas as revoluções acabam como a nossa, numa centralização dos valores, e, por desleixo, na criação de uma classe política estranha ao fogo que movia os revolucionários, e que, hoje em dia funcionam quase como acionistas do sistema. Isto, pelo simples facto de que nem todas as revoluções foram pacíficas, e, mais importante do que isso, nem todas as revoluções acabam em democracias. Nós temos um ponto de comparação, pois vivemos as duas. 

Os sistemas políticos padecem de um ciclo de vida relativamente curto, e é visível quando começam a tornar-se senis. As democracias atingem a idade sénior quando vemos cada vez mais um não reformismo dos líderes, uma atitude bonacheirona, satisfeita com o sistema, porque o sistema é o cargo. O problema que se afigura depois é o de o manter. Dado que o cargo lhes é concedido pelo povo, devem continuar a convencê-lo de que estão ao nível da tarefa. No entanto, quando a classe média vive mal e os líderes de centro são antirreformistas, começam a ter de vender às pessoas aquilo que todos os democratas acabam fatalmente por ter de vender, aquilo em que não acreditam. O povo, para além de soberano, também não é estúpido. Sabe olhar para trás, perceber o que falhou, e sabe unir os pontos. O que acontece quando estamos numa transição perpétua entre líderes não reformistas de dois partidos de centro onde os quadros ascendem pelas juventudes partidárias, é a criação da casta “eles são todos iguais”. No meio disto, a ideia de “cortar o mal pela raiz” torna-se ainda mais aliciante. Os dados estão lançados e a ascensão dos extremistas torna-se inevitável. 

Já as ditaduras, não é que tenham um ciclo de vida muito maior, é só que tendem a estender os seus últimos anos. O autoritarismo é como os cuidados paliativos. Mesmo quando um regime já não tem apoio popular, o autoritarismo irá mantê-lo de pé, ainda que sem qualidade de vida.

Por fim, só resta dizer que gostava que o nosso sistema de educação sensibilizasse as pessoas para algo que em ciência política é tão verdade como dois mais dois ser quatro. Não me cabe na cabeça como algo que é tão factual, e que, poderia ser evitado caso os eleitores fossem conscientes disso, não tenha mais peso no nosso sistema educativo. Gostava também que as pessoas não desviassem tanto o olhar da gradual falência do seu corpo e que fossem mais conscientes de que é impossível reverter até à concessão, numa bonita, ainda que assustadora, assunção de mortalidade. Tudo o que fazemos deixa impacto e não pode ser revertido. Mas, isso não tem de ser necessariamente uma coisa má. Citando Friedrich Nietzsche, “O que não me mata só me faz mais forte” .