Opinião de Alícia Andrade
Também incluído no FEPIANO 61, publicado em Novembro de 2025
A literatura portuguesa é uma das mais antigas da Europa. Mais do que simples expressão artística, reflete os valores e os costumes portugueses, funcionando também como documentação histórica, mostrando a evolução da língua portuguesa e o desenvolvimento político, económico e social do país.
“Mais do que simples expressão artística, reflete os valores e os costumes portugueses”
Na Idade Média, surgem os primeiros registos da literatura portuguesa, as cantigas líricas: de amor e de amigo, e as satíricas, com foco na crítica social. Este movimento literário medieval é o Trovadorismo que remonta aos séculos XII a XIV e um dos seus representantes foi D. Dinis, o Rei Trovador. As cantigas trovadorescas aproximaram a poesia da música, escritas em galaico-português e foram de enorme relevância para a evolução da língua portuguesa.
Futuramente, surge a corrente Humanista, que promoveu o antropocentrismo e o racionalismo, na qual foram consolidados a prosa historiográfica, com Fernão Lopes, e o teatro, com Gil Vicente, considerado o “pai do teatro português”.
É durante o Renascimento que surge o Classicismo, no século XVI, inspirado pela cultura Greco-latina. Este movimento teve como marco a chegada do poeta Sá-de-Miranda a Portugal, que introduziu a técnica de composição de poemas em versos decassilábicos, atingindo o seu apogeu com Luís Vaz de Camões, considerado o maior representante do Renascimento em Portugal, que exalta a identidade nacional celebrando os Descobrimentos n’Os Lusíadas.
No século XVII surge o Barroco marcado pelo uso de figuras de linguagem, pela luta entre classes sociais e pela temática religiosa e profana, época a que aludem Os Sermões de Padre António Vieira. Como reação ao Barroco, surge o Neoclassicismo, também denominado de Arcadismo, no século XVIII, com influência greco-latina e do pensamento iluminista. Este período afasta-se do exagero do Barroco, caracterizado pela busca da simplicidade e valorização da natureza. Um dos maiores representantes do Arcadismo lusitano foi o poeta Bocage.
No século XIX surgem dois grandes movimentos literários: na primeira metade, o Romantismo e na segunda, o Realismo. O Romantismo coloca o “eu” no centro da narrativa, explora o caos interior do ser humano, é marcado por um forte sentimentalismo, pelo patriotismo, pelo desejo de resgatar o passado histórico medieval, e pelo culto à natureza e ao fantástico, como forma de escape à realidade. Combinou géneros literários, indo da poesia ao romance, destacando autores como Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco.
O Realismo, em oposição ao Romantismo, é distinguido pelo objetivismo, focando em questões do quotidiano. O Naturalismo aprofunda as características do Realismo com base em teorias científicas evolucionistas da época. Antero de Quental, Cesário Verde e Eça de Queirós foram os principais precursores destes movimentos literários, com obras como Odes Modernas, O sentimento dum Ocidental, Os Maias e O primo Basílio, que abordam temas desde a angústia existencial e a busca pela verdade à denúncia da hipocrisia social e das desigualdades presentes em Portugal na época.
No final do século XIX, o Simbolismo ganha grande relevância, surgindo oficialmente em Portugal com a publicação de Oaristos, de Eugénio de Castro. A subjetividade do Romantismo é redescoberta e há uma rutura com a mentalidade do Realismo. A idealização da infância e do campo são temas centrais, tal como a espiritualidade, o sentimento, a imaginação, a religiosidade e o misticismo. O vocabulário é rebuscado, os simbolistas procuram o apoio da música, defendem o verso livre e as sinestesias e as metáforas contribuem para a musicalidade dos versos.
O Modernismo português surge no século XX, entre guerras e grandes inovações tecnológicas, na mesma altura em que surgiu a Teoria da Relatividade de Einstein e a teoria da Psicanálise de Freud, o que impactou a mentalidade da época. O início deste movimento é marcado pela publicação da revista Orpheu em 1915, reunindo figuras como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros. Destaca-se pelo distanciamento do sentimentalismo, pelo espírito crítico e consequente oposição às normas, pela rutura com o passado, pela atitude inovadora, a originalidade, a excentricidade e pela linguagem ligada ao quotidiano.
Durante o século XX, sob o peso da ditadura e da censura, as palavras emergem num ato de liberdade. Sophia de Mello Breyner Andresen, um clássico da literatura infantil e uma das melhores poetisas portuguesas, é a primeira mulher a receber o Prémio Camões. José Saramago, prémio Nobel da Literatura, destaca-se pelo estilo narrativo único e inovador, pela escrita provocadora, com frases longas e ausência de pontuação tradicional, com críticas que atingem desde o regime à religião. São autores como estes que participam ativamente da oposição ao Estado Novo.
O 25 de abril de 1974 marca a Revolução dos Cravos, uma das datas mais marcantes da história de Portugal, da qual despontam uma série de transformações políticas, sociais e culturais. É neste contexto que surge a literatura contemporânea, que reflete a nova liberdade de expressão, explorando as memórias e a identidade portuguesa, a transição de uma ditadura para uma democracia, uma escrita sem censura que debate temas como a condição humana, as questões de género, a emigração e a globalização.
A diversidade não se revela apenas nos temas, mas também no próprio estilo de escrita dos autores contemporâneos. Uns optam por uma escrita mais tradicional e outros envergam por uma linguagem mais inovadora ou experimentam outras formas narrativas. José Luís Peixoto é um dos nomes mais proeminentes da literatura portuguesa, sendo o vencedor mais jovem do Prémio Literário José Saramago, com o livro Nenhum Olhar. Valter Hugo Mãe, poeta e romancista, foi galardoado com o mesmo prémio, com o seu segundo romance O Remorso de Baltasar Serapião. Na poesia contemporânea destacam-se figuras como Ana Luísa Amaral, que escreveu sobre diversos temas, como poemas de cariz autobiográfico, a exploração do universo feminino e até o quotidiano, revelando espontaneidade no processo de criação.
As novas vozes da literatura portuguesa, ao inovarem, mantêm a tradição viva, reavendo séculos de história e cultura portuguesa. A heterogeneidade característica da literatura contemporânea retrata as transformações da própria sociedade. Num mundo onde a tecnologia parece dominar, juntamente com a desinformação, a literatura afigura-se como um abrigo, a única fonte de credibilidade através da qual se pode fazer uso do espírito crítico. É também através desta que podemos impedir a decadência do nosso país e reviver o espírito nacional.
“A literatura afigura-se como um abrigo, a única fonte de credibilidade”

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