Opinião de Isabel Valério
Também incluído no FEPIANO 61, publicado em Novembro de 2025
A primeira linha é inofensiva. Depois, outra. E outra ainda. Até deixarmos de estar cientes de que, na verdade, apenas estamos a olhar para palavras num papel, o ar da sala muda e o meio físico dissolve-se.
Levados para uma aldeia medieval, no corpo de um cavaleiro a atravessar o nevoeiro espesso, a armadura a tilintar, o frio a entranhar-se nos ossos. Talvez estejamos sozinhos, no turno da noite, numa bomba de gasolina mal iluminada, fechaduras partidas, o silêncio ameaçador no meio de nenhures, cúmplices de um crime ou na mente de alguém que o cometeu e continua a cumprimentar os vizinhos com uma normalidade ensaiada. Até uma assassina mais peculiar, como Lady Macbeth de Shakespeare, obcecada pela culpa, lava as mãos incessantemente tentando limpar o sangue que já lá não está, mas que continua a ver.
Algumas palavras acima provocam sensações, quase podemos ouvir a palavra “tilintar”, sentir o “frio”. Mas porquê?
“Foi essa imersão total que despertou a curiosidade da Professora Natalie M. Philips.“
Phillips e a sua equipa de investigadores da Universidade de Stanford conduziram um estudo improvável: convenceram um grupo de pessoas a ler Jane Austen dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional. Um romance de época lido num tubo metálico, entre sensores e ruídos. A máquina mapeou a atividade cerebral dos leitores, registou batimentos cardíacos, a respiração e o movimento ocular. As áreas da linguagem ativaram-se, como previsto, mas logo o inesperado e surpreendente aconteceu. A atividade neuronal expandiu-se para regiões ligadas à coordenação motora, ao córtex olfativo e a zonas somatossensoriais que processam o tato, a temperatura e a dor. Como se o cérebro confundisse o tangível e o imaginário, simulando vividamente o corpo a agir sem se mover.
Os bons livros fazem o difícil parecer simples. Há algo neles que escapa ao mensurável, que nos desencadeia emoções sem as nomear. Através deles, temos acesso exclusivo aos pensamentos das personagens, às perspetivas daqueles que divergem de nós, o que nos torna mais empáticos, e aos segredos que nunca seriam ditos em voz alta.
Com a ascensão do digital, a nossa atenção diminuiu de 2,5 minutos para 47 segundos entre 2004 e 2021, segundo Gloria Mark, Professora da Universidade da Califórnia. Mas ler pode ajudar. Ler desacelera. Não pelo compasso da narrativa, mas porque é só com esta espera que conseguimos ficar envolvidos nos detalhes que a rodeiam.
A leitura inspira. Percy Jackson e Katniss Everdeen das coleções Os Heróis do Olimpo e Jogos da Fome, respetivamente, atravessam o caos e desmoronamento do que lhes é querido. Mesmo vulneráveis e falíveis, arriscam tudo para proteger os seus, como se a coragem moldasse o que significa ser humano. Quando li sobre eles pela primeira vez, perguntei-me se existiriam pessoas assim na vida real, e se seria eu capaz de o ser. Prefiro acreditar que existem e que nos mostram quem poderíamos ser.
E se há alguém que ainda esteja a ler que diga que a leitura não é para eles: “Se não gostas de ler, é porque ainda não encontraste o livro certo”.

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