Desde a Grécia Antiga que a sátira tem um papel essencial na literatura, na cultura e, portanto, nas nossas vidas. É um recurso literário que critica uma realidade através do exagero, da ridicularização, do humor e da ironia, revelando a verdadeira mensagem do texto. Apesar da presença destes elementos, nem sempre é evidente para quem lê, vê ou ouve.

Por vezes, a utilização da sátira é óbvia graças ao grau de exagero ou ridicularização de uma determinada obra. Por exemplo, em 1729, o autor inglês Jonathan Swift publicou o seu ensaio intitulado “Uma Proposta Modesta”, onde sugere que a melhor solução para a fome sentida pelo povo irlandês seria que as pessoas se alimentassem de crianças, apresentando até várias possíveis receitas para sustentar a sua sugestão, mantendo durante toda a obra um tom de seriedade. Neste caso, tendo Swift exagerado bastante na sua proposta, uma grande maioria dos leitores identificaram o seu tom irónico, mas, mesmo assim, nem todos entenderam que, na realidade, o autor pretendia criticar o modo como o povo irlandês era tratado na época pela aristocracia inglesa, a injustiça social e a desumanização dos mais pobres.

Contudo, nem sempre é este o caso. A sátira não vem acompanhada de um aviso e, portanto, cabe a quem interpreta entender a verdadeira mensagem ou crítica presente em tudo com que contacta, quer seja uma obra literária, um filme, ou até mesmo as estratégias utilizadas por uma campanha de marketing, por exemplo. No fundo, a sátira obriga-nos a pensar, questionar e, acima de tudo, interpretar. “O público nem sempre vence esta batalha e, por vezes, uma crítica pode ser vista como o oposto.”

Assim, para os apreciadores de cinema, vem à cabeça o exemplo de “Fight Club”, ou “Clube de Combate”, de David Fincher. Neste filme, inspirado pela obra literária de Chuck Palahniuk, o narrador e protagonista, interpretado por Edward Norton, sente-se alienado da sua realidade, devido à monotonia do seu quotidiano, enquanto que Tyler Durden, interpretado por Brad Pitt, rejeita normas sociais e o mundo onde o narrador se insere. A dupla cria um clube que serve apenas para homens se reunirem e lutarem entre si. Apesar de Tyler Durden ser uma personagem marcada pela ridicularização de uma masculinidade agressiva, com o objetivo de criticar a violência e a rebelião sem qualquer causa, o público masculino muitas vezes encara a personagem como um herói ou mesmo um exemplo a seguir. Com isto, o filme, para muitos transformou-se num guia ou manual para a própria ideologia que pretende criticar.

Para além disso, é possível considerar o exemplo de “A História Secreta” de Donna Tartt. Publicada em 1992, esta obra relata a vida de um grupo de estudantes excêntricos sob a influência de um professor de literatura clássica carismático, que os isola do resto da faculdade, enquanto descobrem uma nova forma de pensar e viver, ultrapassando limites que acabam por transformar a ideia de matar um colega na única opção para resolver os seus problemas. Muitos criticam o discurso do narrador, Richard Papen, caracterizando-o como presunçoso ou simplesmente demasiado longo, sem perceber que é precisamente esse o objetivo da autora.

Assim, o livro ridiculariza e exagera o estilo de vida das personagens principais e a perspetiva do narrador, com o objetivo de criticar a arrogância, muitas vezes presente em ambientes académicos, de achar que sabemos sempre tudo e muito mais que os outros, bem como a importância que estas personagens dão à estética. Exemplos disso são situações como quando Henry Winter, um intelectual, que dá tanta importância ao estudo dos clássicos e tão pouca ao mundo que o rodeia que, em plenos anos 80, não sabe que o homem já foi à lua; ou então o momento em que a primeira preocupação de Richard, após levar um tiro, é o buraco da bala na sua camisa preferida. No final das contas, uma grande parte dos leitores acaba por idealizar a estética do livro e glorificar as personagens, sem entender que a obra tem como objetivo avisar sobre os perigos da procura da beleza e do aesthetic a todo o custo.

Na verdade, a sátira nem sempre utiliza o humor e a sua ausência pode confundir o público. Mesmo assim, parece improvável que tantos leitores ou espectadores tenham visto um filme ou lido um livro sem o perceber, mas é possível apontar algumas razões que explicam esta situação. Apesar do primeiro instinto ser culpar o autor, ou por usar estratégias literárias muito subtis, ou por não tornar a sua intenção crítica suficientemente clara, “na realidade, a responsabilidade é mesmo de quem lê ou vê.” Assim, somos obrigados a considerar os suspeitos do costume, como a internet, os telemóveis ou o facto de a população geral ler cada vez menos. 

De facto, hoje em dia estamos constantemente expostos a conteúdos digitais e preocupamo-nos cada vez menos com a sua qualidade. Os clássicos da literatura são substituídos por livros com histórias e personagens superficiais, graças ao fenómeno do Booktok. A popularidade de reality shows continua a crescer.  Cada vez mais jovens sacrificam a sua capacidade de concentração para passar horas a fio no TikTok. Estas situações, entre muitas outras, acabam por diminuir a capacidade de interpretação  das pessoas, já que, infelizmente, uma grande parte dos conteúdos atuais que fazem algum sucesso acabam por ser bastante ocos, desabituando o público de questionar e pensar criticamente sobre o que vê ou lê.

Mas, claro que nada disso afetava o público de Fincher em ‘99. Por vezes, a crítica pode ser mal-entendida graças ao seu próprio conteúdo: se o público não estiver pronto para a ouvir, não estará pronto para a identificar, principalmente se se sentir de alguma forma atraído ou seduzido pela situação exagerada apresentada.

Por fim, a única forma de não cometer este erro é a exposição a conteúdos, quer seja um livro, um filme ou até mesmo música, com alguma profundidade ou mensagem, evitando conteúdos mais superficiais e, como é claro, questionar e interpretar o mundo à nossa volta.