Opinião de Carolina Góis
Artigo exclusivo do site, publicado em Maio de 2026
“Deveis estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.”
“Embriagai-vos”, não apenas de álcool, tabaco, drogas, sexo, violência e pensamentos, mas também da natureza, da pintura, da poesia, de amor e de emoção. No final das contas, viver não tem graça se não for pela “intensidade”, certo?
Este poema de Charles Baudelaire, reconhece que viver de forma intensa e desconectada da realidade, seja por que motivo for, é a única forma de fugirmos do Tempo, que representa aqui a mortalidade, rotina e sofrimento.
Apesar desta obra ser do século XIX, como muitas outras, conseguimos adequá-la à modernidade. Camões dizia que “Todo o mundo é composto de mudança”, mas será? Na verdade, a maior mudança talvez seja a forma como escolhemos nos embriagar. Pode ser trabalhar, estudar, amar: algo que ocupe as nossas cabeças. Desligar-nos da realidade que está mais próxima da distopia do que da utopia, enquanto usamos a obsessão como mera justificação de propósito de vida, afirmando que não faz sentido viver sem um.
De facto o mundo muda, mas num fluxo natural, e nós decidimos acelerar esse fluxo artificialmente. Procuramos propósitos desesperadamente, não para sentir o mundo, mas para construir um escudo contra o tédio e a insignificância. Queremos ignorar o tédio, a inutilidade ou até o medo da morte. Tentamos fingir que o vazio não está lá. O que não espanta, já que o escapismo sempre foi uma característica humana: o nosso maior mecanismo de defesa.
“Tentamos fingir que o vazio não está lá”
Talvez o erro da modernidade tenha sido confundir a “intensidade” de Baudelaire com a “obsessão”. A embriaguez poética é fluida, nasce da sensibilidade perante o mundo. A obsessão, por outro lado, é rígida, crescendo da necessidade de controlo e de validação. No entanto, ao trocarmos esta entrega poética pela rigidez dos nossos vícios diários, transformámos o refúgio numa nova prisão.
Pessoalmente, não concordo: porquê evitar a apatia? É provável que a verdadeira resposta seja aceitar o tédio, o silêncio, a nossa própria insignificância e perceber que a vida não precisa de ser uma busca incessante por utilidade ou significado. Em vez de ignorarmos o buraco e cairmos nele, o mais prudente é ser consciente dele e tentar preenchê-lo aos poucos.
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