Eu não era nascido a 25 de abril de 1974. Há, entre os leitores, quem vá desacreditar completamente tudo o que diga nas próximas linhas com o velho argumento: “Comentar é bonito, mas não estiveste lá, não sabes como foi”. A estes apresento, humildemente, a porta de saída metafórica. 

Eu realmente não existia, mas tive a enorme sorte de ter figuras próximas que nunca me esconderam as várias faces desse dia histórico, que me contaram o antes, o durante e o após de um dos dias mais importantes da história portuguesa.Creio que um dos mais fascinantes relatos que nunca esqueci é simples, mas  impactou-me de uma forma peculiar: “Começou como um dia normal, poucos sabiam o que estava a acontecer. Desconfiava de que algo se passava, mas fiz a minha vida normal até ver os militares em Lisboa”. 

Um dos dias mais decisivos para Portugal começou como um dia normal para muitos- Levantaram-se como todos os dias, fizeram as rotinas de acompanhar uma namorada ao trabalho ou apanhar o comboio. Claro que a perspetiva histórica é o fator que causa o choque; é impactante porque sabemos hoje o que aquele dia ia ser.

Ao longo da minha vida ouvi histórias dos dois “lados” da revolução. Por “lados” entenda-se pessoas que foram afetadas pela revolução de duas maneiras opostas, e não necessariamente agentes envolvidos seja no movimento das forças armadas ou na PIDE, a título de exemplo. Sendo alentejano, estive, desde pequeno, ciente do que a revolução trouxe. Soube das histórias de familiares que defenderam a terra que lhes restava com uma caçadeira e pouco mais, e dos que fugiram de casa com medo daquilo que estava por vir. 

Soube também o que é que o Alentejo foi. Sei o que se sofreu nos campos que hoje vejo dourados, sei das famílias que, de barriga vazia, alimentaram a nação Sei do que se sofreu e que, a dia 26 de abril de 1974, os portugueses viram um amanhecer diferente. Mas sabemos hoje o que foi aquele tempo porque olhamos para uma pintura de vários autores que a preparam com todo o cuidado, pintores que se sentam connosco à mesa do jantar e, com cada pincelada, contam mais um detalhe, mais uma atrocidade de um regime dito português que não respeitava o seu povo Destacam as forças que borbulhavam com a opressão e arranjavam maneiras de abanar a bafienta cadeira do regime, como floreados de tinta para o nosso quadro.

Tal como o peixe que não sabe a dimensão do seu aquário, muitos não sabiam como o regime os segurava com pequenas cordas, fabricando um triste espetáculo de marionetas. Uma Mocidade Portuguesa, para os pequenos amarem a nação desde cedo; uma polícia de defesa do estado para acertar o passo aos que pensam demasiado; um lápis azul para fazer meras correções de gramática a textos que iriam certamente incomodar os portugueses; uma guerra para segurar o império português e marcar a nossa magnificência como a maior e mais bela nação do mundo. Com todas estas engrenagens e tantas outras, funcionava a fascinante máquina do Estado Novo, sendo inegável a sua eficiência como instrumento para estes fins. 

Nunca vou esquecer quando ouvi pela primeira vez a história do irmão da minha avó que quis fazer a primeira comunhão na farda da mocidade. Ou quando a minha avó foi despedir-se do irmão mais velho que ia para guerra e ele, para não dar desgosto à família, fugiu entre a multidão para não ter que se despedir, só lhes acenou quando já estava no barco. Em conversas com Maria Tibéria, minha rica avó que sempre me contou as coisas como eram (e a quem dirijo tanto do que escrevo), ouvi “Nós nem nos apercebíamos, não se falava. Sou filha de um homem analfabeto, mas era o melhor pai do mundo. Queria era ganhar para poder dar aos filhos, trabalhava de dia e noite. O patrão confiava tanto no meu pai que só o via de mês a mês”. O meu bisavô Joaquim, que levava a filha para o campo para trabalhar com ele, nunca soube ler nem escrever porque o regime o preferia assim, mas, não obstante, foi um grande homem.

Carregando a história da minha família como se bagagem fosse e os tantos outros quadros que vi pintados do regime, vou ouvindo o que se diz hoje. Há uma pequena vara que vai praguejando na assembleia da república que me arrepia; mas não são só esses pequenos vermes, são todas as outras moscas e insetos que os rodeiam. Não pensei chegar ao dia de ver, na casa da nossa república, “políticos” (que de políticos não têm nada que se assemelhe ao termo; sugiro a substituição por taberneiros) que anseiam regressar à glória portuguesa antiga, que querem um país só de portugueses para portugueses, que desejam a família tradicional e pacata. O ódio fervoroso com que são ditas as maiores barbaridades e atrocidades por estes que vêm representar os portugueses “de bem” enoja-me. As facas que enterram nas costas da história portuguesa querendo o regresso, no que suponho que seja um dia nevoeiro e a cavalo, do seu messias a triplicar, porque só assim se pode salvar Portugal. Esta nova vara não é nova, mas agora anda mais corajosa, sai mais à rua e grita mais alto. Já vieram os mais astutos que tiraram pensões a quem tentou libertar os portugueses ou que calaram um dos maiores autores nacionais e censuraram a sua obra.

A quem ainda não sofreu um infeliz ataque de azia ou outro qualquer problema intestinal fruto de ler o que lhe desagrada e teve que abandonar este texto a meio, deixo um apelo. Não deixemos a memória morrer, sinto que este é o maior problema que Portugal enfrenta. Esquecemos mesmo tudo aquilo que os portugueses sofreram? Esquecemos tudo aquilo que o regime nos tirou? Esquecemos as mortes e os presos do Aljube? Esquecemos que temos a sorte de ser hoje livres? Lembrar o 25 de abril de 1974 não é um ato de esquerda nem de direita, é uma celebração portuguesa do dia em que um país inteiro respirou fundo pela primeira vez em 40 anos. Não deixe, caro leitor, cair no esquecimento aquilo pelo que se lutou tanto, faça questão de relembrar a quem o rodeia (evitando, se possível, discussões fervorosas). Hegel, filósofo alemão, observou que todos os grandes eventos históricos e as suas personagens principais aparecem duas vezes, mas Marx acrescenta que estas duas aparições seguem um padrão: a primeira é a tragédia, a segunda a farsa. Há muita farsa por aí que aparece de fato e gravata e promete o mundo aos portugueses, mas o hálito desta conversa bafienta ainda não foi esquecido. Eu nunca irei esquecer o meu bisavô Joaquim, que nunca conheci, mas que, mesmo no meio do regime, deu tudo pelos seus.