Qual é o teu Império Romano? Aquele tema para o qual a tua mente deriva sem te aperceberes e que te prende durante horas? O meu são as mulheres cujos nomes se perderam na História. Sempre que penso nos cientistas, artistas, inventores e líderes que aprendi a admirar, surge-me a mesma questão: quem ficou de fora da narrativa?

Crescemos a tratar a História como um conjunto de factos objetivos. Mas a História não é o passado, é uma narrativa sobre este. O passado aconteceu. A História é a forma como se decide contá-lo. Não é possível relatar tudo ou recordar toda a gente. Por isso, escolhem-se protagonistas que merecem livros, documentários e prémios dedicados, enquanto outros permanecem à margem da memória coletiva. Mas quem é que toma este tipo de decisões?

O artigo Why Have There Been No Great Women Artists?, de Linda Nochlin, explora a razão para a escassez de “grandes artistas” femininas na história da arte, refutando as respostas mais comuns: que as mulheres fossem menos talentosas ou que basta constatar que foram esquecidas. A autora propõe uma outra perspetiva, a de que os critérios que definem a “grande arte” foram construídos num contexto masculino e, por isso, muitas mulheres ficaram excluídas dos sistemas de reconhecimento. Assim, quando um grupo social não aparece nos livros de história, talvez não se deva concluir que o motivo é a ausência de feitos memoráveis, mas sim questionar as estruturas que impediram que este fosse visto, reconhecido e recordado.

Esta invisibilidade não é um acaso: consiste num fenómeno social conhecido como Efeito Matilda. O conceito descreve precisamente a tendência para minimizar ou atribuir contribuições científicas realizadas por mulheres a homens. Mas este fenómeno vai muito além da ciência: encontramo-lo na literatura, na arte, nos negócios e na cultura popular. Não são casos isolados ou coincidências, é um padrão repetido meticulosamente ao longo de séculos. “É assim que se joga o jogo”, como tão simplesmente disse o orientador de Candace Pert quando confrontado pela aluna sobre o  roubo dos seus contributos na descoberta dos recetores opioides no cérebro.

“A História ensina-nos tanto através daquilo que conta como através daquilo que omite”

Contudo, este problema não pertence apenas ao passado. As histórias que ouvimos e os exemplos que conhecemos moldam aquilo que acreditamos ser possível. Quando os exemplos de genialidade, talento, liderança e inovação apresentados são sistematicamente masculinos, acabamos por associar essas características apenas a homens, mesmo que inconscientemente. Não que nos seja deliberadamente incutido, é tão simples como chamar a uma mulher que cozinha cozinheira, mas a um homem chef;  ou a uma mulher que lidera um projeto organizada, enquanto a um homem gestor. Perante uma mesma característica, um reconhecimento absolutamente distinto.

Talvez recuperar estas histórias seja mais do que um exercício de justiça histórica. Afinal, a História ensina-nos tanto através daquilo que conta como através daquilo que omite. E embora seja impossível recuperar todos os nomes que ficaram pelo caminho, podemos garantir que menos nomes se percam no futuro. Porque a grandeza nunca pertenceu a um único grupo, apenas nem sempre teve a mesma oportunidade de ser reconhecida.