Opinião de Guilherme Sampaio
Também incluído no FEPIANO 63, publicado em Janeiro de 2026
Falar da internacionalização das startups portuguesas é, hoje, falar de ambição, mas também de realismo. Num país de pequena dimensão, restringir o crescimento empresarial às fronteiras nacionais é limitar, à partida, o potencial de quem cria, inova e arrisca. As startups portuguesas têm demonstrado talento, capacidade técnica e visão estratégica, mas o verdadeiro teste começa quando olham para fora e decidem competir no mercado global.
A internacionalização não deve ser vista como um luxo reservado a poucas empresas bem financiadas, mas como um caminho natural para quem quer crescer de forma sustentável. Num mercado interno reduzido, a internacionalização permite às startups portuguesas ganhar escala e aumentar a sua competitividade num mercado global cada vez mais exigente. Ao expandirem-se para outros países, estas empresas conseguem aceder a um maior número de clientes, captar investimento estrangeiro e estabelecer parcerias estratégicas que potenciam o seu crescimento.
“A internacionalização permite às startups portuguesas ganhar escala e aumentar a sua competitividade”
Muitas startups nacionais compreenderam isso desde cedo e adotaram uma lógica global à nascença, desenvolvendo soluções digitais e tecnológicas capazes de responder a problemas comuns em diferentes países e contextos económicos. São exemplos os“unicórnios” portugueses como a Sword Health, da área da saúde que tem uma forte presença nos Estados Unidos, e a Feedzai, que foi escolhida recentemente pelo Banco Central Europeu para liderar o principal mecanismo de deteção de fraude no euro digital.
Ainda assim, o debate em torno da internacionalização tende, por vezes, a centrar-se excessivamente nas dificuldades e insuficientemente nas oportunidades. Os desafios fazem parte do próprio processo de crescimento e funcionam, muitas vezes, como um filtro natural que separa as ideias promissoras daquelas que dão origem a modelos de negócio verdadeiramente robustos. A exposição à concorrência internacional obriga as startups a serem mais eficientes, mais inovadoras e mais focadas no valor real que oferecem ao mercado.
O ecossistema português tem evoluído de forma positiva, com maior acesso a investimento, mais programas de aceleração e uma ligação crescente a redes internacionais. Ainda assim, é importante refletir sobre o papel das instituições públicas neste processo. Mais do que substituir o risco empresarial ou criar dependência de apoios, o essencial é garantir um ambiente simples, previsível e competitivo, onde empreender e crescer não seja dificultado por entraves burocráticos ou regras excessivamente rígidas. Criar condições é diferente de controlar resultados, e essa distinção é fundamental para um ecossistema saudável e dinâmico.
O futuro das startups portuguesas passará, inevitavelmente, pela sua capacidade de se afirmarem fora de portas. Num mundo cada vez mais global e interligado, o sucesso destas dependerá da liberdade para inovar, testar, falhar e crescer em ambientes exigentes. Apostar na internacionalização é, no fundo, confiar que o talento português não precisa de muletas para se destacar, apenas de espaço para agir e competir em pé de igualdade.

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