Opinião de Maria Carvalho
Também incluído no FEPIANO 63, publicado em Janeiro de 2026
O ato de viajar sempre teve como alicerces a vontade de conhecer aquilo que até então era desconhecido e o enriquecimento cultural e pessoal. No entanto, em tempos marcados por uma nova cultura global – a cultura digital – viajar tornou-se também sinónimo de validação social. Este fenómeno é profundamente moldado pela influência das redes sociais.
“viajar tornou-se também sinónimo de validação social”
A exposição contínua converteu a viagem num ato de carácter quase performativo. Viaja-se, muitas vezes, não apenas para estar, mas para provar que se esteve, como se a experiência só ganhasse consistência quando validada pelo olhar alheio. Ao invés de se estar imerso por inteiro nos costumes e rotinas do país estrangeiro durante o pouco tempo de viagem, parece ser mais relevante captar a imagem que dia sim dia não aparece no perfil de x ou de y criador de conteúdo para mostrar ao mundo que também nós já pegamos no nosso telemóvel e tiramos uma fotografia, quase cópia daquelas que circulam a toda a hora.
A verdade é que, hoje, é possível “sair” de um lugar permanecendo fisicamente no mesmo espaço, através dos vídeos e fotografias que nos chegam, o que constitui, por si só, uma forma de experiência cultural acessível a todos, ainda que inevitavelmente limitada. No entanto, quando surge a oportunidade de nos afastarmos da nossa cidade e, mesmo assim, optamos por permanecer presos aos hábitos de sempre — agora não apenas como espectadores, mas como criadores desse produto visual — levanta-se a questão de até que ponto estamos, de facto, disponíveis para viver a experiência de forma plena.
Atualmente, existe também uma certa urgência em visitar determinados destinos, derivada de uma pressão subtil pelo que vemos através dos ecrãs. Ao observar amigos, influencers ou figuras públicas em certos locais do mundo, surge a sensação de que a própria experiência de vida é insuficiente, ou que a viagem que se fez ou que se quer fazer não tem a mesma importância da viagem w ou z que certa pessoa fez. Psicologicamente, é possível fazer uma breve interpretação deste comportamento humano. Esta ânsia está ligada à necessidade de pertença, aceitação e reconhecimento social: queremos sentir que fazemos parte de algo maior, mesmo que isso signifique seguir tendências globais e priorizar popularidade sobre interesse pessoal. No entanto, esta forma de pensar e agir, entra em conflito com uma característica basilar do ser humano: a singularidade. Cada indivíduo constrói o seu próprio percurso de vida através de experiências distintas, mais ou menos positivas, moldadas por curiosidades, vontades e contextos sociais e económicos próprios.
Quando as escolhas feitas são guiadas pela comparação constante, por “achismos” sobre o que o outro vai ou não pensar de nós, corre-se o risco de fazer do ato de viajar uma mera check-list, esquecendo que o verdadeiro valor da experiência reside menos no destino escolhido e mais na forma como o mesmo é integrado na identidade de quem viaja, de como os costumes de quem lá habita nos fazem olhar para dentro e destacar modos de ver o mundo diferentes do nosso.

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