Opinião de Carolina Góis
Também incluído no FEPIANO 63, publicado em Janeiro de 2026
A internacionalização é cada vez mais notória em Portugal, tanto no mercado de trabalho como no quotidiano. Este crescimento regista-se, igualmente, no ambiente académico. Todos os anos presenciamos a chegada de mais estudantes internacionais, contudo, importa questionar: como se processa a integração destes estudantes no meio académico e social?
Qualquer pessoa que emigre enfrenta desafios como choques culturais, burocracia, dificuldades financeiras e a complexidade de estabelecer relações interpessoais. Estes jovens não são exceção e, como tal, os estabelecimentos de ensino superior têm um papel de extrema importância nesta transição.
No caso da Faculdade de Economia do Porto, observamos o apoio a programas de mentoria e a organização de algumas atividades, o que representa um esforço recente para a integração destes estudantes. Todavia, persistem várias limitações: a falta de divulgação dos projetos existentes, a inexistência de uma recolha sistemática de feedback sobre a experiência de integração e a escassez de atividades que, em quantidade e qualidade, respondam às necessidades reais.
A verdade é que Portugal procura atrair talento mas, se os próprios jovens portugueses deslocados enfrentam dificuldades e falta de apoios, os estudantes imigrantes deparam-se com desafios ainda maiores. Não basta atrair, é necessário reter, o que claramente não está a acontecer.
Aproximadamente 30% dos portugueses entre os 15 e os 39 anos vivem fora do país. Ou seja, quase um em cada três jovens emigrou em algum momento e reside no estrangeiro. Estes números elevados têm os seus motivos: o aumento do preço da habitação (que durante 2025 atingiu os 19%), os salários baixos e a lentidão extrema nos serviços públicos, como a saúde.
Jovens qualificados que não encontram apoio ou progressão na carreira terão tendência a sair de Portugal, sejam eles nacionais ou imigrantes. E, ironia do destino ou não, como devemos interpretar a “mentalidade de Cristiano Ronaldo”, apregoada como símbolo de resiliência que salvará a economia, se até o próprio Ronaldo optou por construir a sua carreira fora de Portugal? Uma economia não se sustenta apenas com símbolos individuais, mas sim com a retenção de capital humano qualificado.
Os estudantes internacionais investem recursos consideráveis e vários anos na sua educação. Contudo, se não lhes é dada a possibilidade de se integrarem social e economicamente, por que haveriam de escolher ficar? Portugal não deve continuar a ser apenas um corredor de passagem para o talento. Atrair é fácil. O essencial passa por integrar e reter. Sem isto, a internacionalização será apenas uma estatística vazia num relatório anual.
“Portugal não deve continuar a ser apenas um corredor de passagem para o talento”

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