Rui Henrique Alves é economista e professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto desde 1991. Licenciado, Mestre e Doutorado em Economia na FEP, com tese na área da Economia / Integração Europeia, é autor e co-autor de diversos livros e artigos nas áreas da Economia Europeia, Economia Internacional, Política Económica, entre outros temas. 

É Membro do CEF.UP (Centro de Economia e Finanças da Universidade do Porto), e do OBEGEF (Observatório de Economia e Gestão de Fraude). 

Entre 2013 e 2022, foi Coordenador do Núcleo de Economia e Finanças da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER). Em 2012, foi membro da Direção da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal. Foi ainda consultor da Bolsa Portuguesa e lecionou em outras instituições de ensino superior. Foi Presidente da Assembleia Municipal de Arcos de Valdevez entre 1997 e 2013.

Quando surgiu o gosto pela economia, particularmente o estudo desta ciência social a nível internacional?  

O gosto pela economia eu diria que foi relativamente cedo e, curiosamente, não pelas melhores razões. No final da década de 70 e início da década de 80 do século passado, Portugal atravessou uma fase bastante difícil que levou o país a chamar por duas vezes o Fundo Monetário Internacional (FMI) para nos ajudar dadas as circunstâncias económicas que passávamos. Pelo caminho houve um período em que as coisas melhoraram um bocadinho, mas rapidamente voltaram a degradar-se, daí a segunda intervenção do FMI. Começaram a haver muitas notícias sobre economia, no único canal de televisão que na altura se conseguia apanhar onde eu vivia, e eu comecei a achar interesse nessas notícias. Ainda era bastante novo e comecei a achar que se calhar era aquilo que eu gostaria de estudar. Quando estava no 12ºano apareceram os primeiros computadores de uso mais pessoal (sobretudo o famoso ZX Spectrum) e fiquei na dúvida entre Economia e Informática, mas ganhou a Economia. Depois o gosto pela parte internacional surgiu de uma forma natural. Dentro dos temas que fui estudando, comecei a gostar muito das questões das relações económicas e políticas internacionais, porque cruzam Economia com Ciência Política, Direito, etc, com especial atenção para o espaço a que aderimos no ano em que eu entrei na FEP, a União Europeia: isso ajudou-me a preferir os caminhos da integração europeia.

Como é lecionar na FEP e trazer a sua experiência profissional para dentro da sala de aula?

É já um longo percurso, estou cá desde 1991. A ideia de tentar transmitir os conhecimentos dentro do possível, e mais do que transmitir conhecimentos, tentar suscitar a reflexão crítica das pessoas sobre os assuntos foi algo que sempre me atraiu e que acho que deve ser o papel de uma Universidade. Portanto, vem daí a ideia de ficar aqui a lecionar, apesar de ter passado por algumas experiências na “vida real”.

Como surgiu a oportunidade de coordenar o Núcleo de Economia e Finanças da Representação Permanente de Portugal junto da UE (REPER) ? E como foi a sua experiência nesse cargo?

Para a primeira parte da pergunta tenho uma resposta que, como costumo dizer, tem alguma piada. Estávamos em agosto de 2013 e eu estava a passar uns dias de férias no sul do país, e um dia à noite recebo um telefonema de um colega e amigo com quem tinha lecionado também aqui na FEP, que foi meu antecessor nas funções na REPER, a perguntar-me se eu dava autorização para disponibilizar o meu contacto ao gabinete do Ministério das Finanças (MF), e eu disse: ‘Como sempre, estou disponível para falar com toda a gente, portanto podes disponibilizar à vontade’. Não fazia a mínima ideia para o que era.  No dia a seguir, estava na praia, toca o telemóvel e era a chefe de gabinete da Ministra das Finanças a dizer-me para o que me estava a telefonar, e se era algo em que eu podia ter interesse e disponibilidade. Eu achei obviamente que sim e perguntaram-me se ‘Poderia vir ainda hoje a uma entrevista com a Min. das Finanças?’. Eu disse ‘é um bocadinho complicado porque estou de férias, nem roupa decente tenho para ir a uma reunião’ e a senhora perguntou-me: ‘Mas então não tem ao menos umas calças de ganga e umas sapatilhas para poder vir?’. Respondi que ‘Sim, isso sim tenho, não são só calções de praia’. E na mesma tarde, faço a viagem até Lisboa, entro no MF, há uma pessoa a receber e a perguntar para onde é que eu vou, ao que eu respondo que ‘vinha para uma reunião com a Min. das Finanças’ – a pessoa olhou-me claramente de cima a baixo e pensou: ‘Quem é este tipo que vem de calças de ganga e sapatilhas para uma reunião com a Min. das Finanças, qualquer coisa não está bem’. Mas estava, de facto havia a reunião. Na reunião conversamos um bocado sobre o que eram as funções, quando é que queriam a pessoa, a estratégia portuguesa na área das Finanças, etc. A Min. disse-me que já tinha visto o meu currículo, eu confesso, não a conhecia de lado nenhum, nem às outras pessoas, a única pessoa que eu conhecia era esse meu amigo, mas pronto. Dessa conversa resultou a possibilidade de chefiar o Núcleo de Economia e Finanças da REPER. Era para ser por 3 anos, mas passou a ser 6: percebi rapidamente que em geral a comissão de serviço de 3 anos é renovada uma vez, sendo o máximo de permanência naquelas funções de 6 anos. Acabaram por ser 9 porque entretanto surgiu a proximidade da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia em 2021. Nessa altura, várias pessoas nas mesmas circunstâncias que eu continuaram porque a experiência acumulada o justificava, e pronto, tratou-se de uma situação excecional. Esses 9 anos foram uma experiência fantástica, sobretudo para quem academicamente sempre teve grande interesse pelas questões da UE, e tem desde logo o interesse de estar realmente no sítio onde se tomam grandes e pequenas decisões que afetam a nossa vida, política e sociedade quotidiana. Para quem é professor tem depois a piada de chegar à conclusão de que algumas coisas que ensinava não correspondiam exatamente à realidade, que é de facto um bocadinho diferente, e portanto hoje estou muito mais capaz de transmitir exatamente o que se passa e como é que as coisas funcionam. Com alguma pena minha, aqui na FEP, nas nossas licenciaturas não temos unidades curriculares que se dediquem especificamente às questões europeias, e portanto o contributo que eu posso dar acaba por ser um pouco mais curto do que aquilo que seria possível. Enfim, fica a minha esperança de que com os novos planos de curso as coisas mudem algo e de que as questões da União Europeia sejam mais tratadas, até porque, para mim, faz muito pouco sentido que um estudante de Economia ou um Gestão termine a sua licenciatura sem ter muita ideia de como é que funciona a UE e quais as suas políticas, quando o seu funcionamento condiciona muito o da nossa economia e da nossa sociedade. 

Que impacto tem a experiência internacional na forma como os indivíduos tomam decisões estratégicas?

Bom, como eu estava a dizer para o caso da UE, cada vez mais aquilo que fazemos e o resultado daquilo que fazemos são condicionados por decisões e acontecimentos que ocorrem fora do nosso cantinho e, portanto, cada vez mais temos que ter em conta que, nas nossas atividades e na nossa vida há decisões que são tomadas a nível supranacional, que têm consequências e que implicam riscos e oportunidades. 

Que conselhos daria a jovens que almejam seguir uma carreira na área da Economia Internacional?

Bom, primeira coisa obviamente, que estudem o melhor possível dentro das suas licenciaturas e dos seus mestrados as questões que têm a ver com a economia internacional. Depois, há várias maneiras muito interessantes de entrar para uma carreira, chamemos-lhe internacional nesse sentido. Por exemplo, se for no caso da UE, todas as instituições europeias principais, o Conselho da UE, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu têm um conjunto de estágios que abrem periodicamente e que são muito úteis para começar. Particularmente na Comissão Europeia, julgo que duas vezes por ano abrem uns estágios, chamados Blue Book, e que têm sido a porta de entrada para muita gente, para depois ou continuar na Comissão, ou evoluir para outra instituição ou entidade da UE, ou para um conjunto enorme de entidades e empresas que, sobretudo em Bruxelas gravitam em torno das questões europeias: costumamos dizer que é o ecossistema da UE. De facto, é um verdadeiro mundo de oportunidades. 

Outra hipótese num contexto ainda mais global, é uma coisa que normalmente não é muito falada aqui na faculdade (e eu acho que não é muito falado nas faculdades de economia e de gestão, porque nós pensamos mais nisso para relações internacionais, ou ciência política) é a possibilidade de enveredar por uma carreira diplomática. Entrar na carreira diplomática implica participar num concurso que, periodicamente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros organiza, que tem uma série de provas, julgo que português, línguas, também de economia, e outras. É um concurso a que normalmente muita gente se candidata, e os lugares são, enfim, os números são um bocado como a economia, nós temos escassez e muitas necessidades, e aqui aplica-se o mesmo, mas é possível entrar preparando-se um bocadinho para isso. Pode ser uma carreira muito interessante, onde há cada vez mais necessidade de pessoas das áreas da Economia e da Gestão, porque, mais uma vez, tradicionalmente não era de onde vinham a maior parte das pessoas, e cada vez mais as questões da economia e da gestão são claramente relevantes, e são complexas para quem não é desta área, portanto, há aqui de facto um número de oportunidades. Às vezes, quando eu falo nisso, dizem-me: ‘Mas se calhar depois não se consegue atingir ou ir muito longe na carreira, porque aí estão os outros das relações internacionais’, e por aí adiante. O último chefe da REPER, com quem eu trabalhei, que hoje é chefe de gabinete do presidente do Conselho Europeu, que é o nosso ex-Primeiro-Ministro, António Costa, tem como formação de base uma licenciatura em Economia e, portanto, depois enveredou pela carreira diplomática, até já foi Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, portanto, é perfeitamente possível chegar longe a partir da economia e da gestão. 

São só duas das hipóteses, mas são duas hipóteses que, para quem esteja na vossa idade e esteja a terminar licenciaturas ou mestrados, acho que vale a pena considerar, se gostarem deste tipo de assuntos.

Quais considera serem hoje os principais desafios da Economia Europeia?

Eu diria que o principal é o problema da competitividade. Ao longo destas últimas décadas, a UE tem sido claramente ultrapassada pelos grandes concorrentes, sejam os Estados Unidos, seja a China. E como alguns relatórios recentes mostram (há um muito famoso chamado relatório Draghi), nós ficamos muito para trás em termos de evolução da competitividade.

Isso tem por trás uma evolução muito mais lenta da produtividade do trabalho, da inovação e na aposta na investigação e na ciência.  Julgo que nos aconteceu aquilo que acontece às vezes a algumas pessoas, que é, tornam-se famosas e deitam-se à “sombra da bananeira” à espera de que continuem a colher os frutos. E foi um bocadinho isso que me parece que aconteceu à UE. Conseguiu fazer coisas muito importantes, como manter a paz no continente europeu durante muitos anos, e ao mesmo tempo ter grandes concretizações económicas, como foram o mercado único e a juntar a isso a maior parte dos países ter uma moeda única, que é uma coisa que há 50 anos atrás seria verdadeiramente inconcebível, mas a certa altura estagnamos, enquanto que os outros continuaram.

As estratégias são muito diferentes, a dos Estados Unidos é muito diferente da China. Na Europa ficámos sem estratégia. Apesar de, por várias vezes, aparecerem ideias interessantes, como em 2000 a Estratégia de Lisboa, que era um conjunto de ações que a União deveria tomar para se tornar o espaço mais competitivo do mundo no período de uma década. Mas a verdade é que chegamos a 2010 e não estávamos mais à frente do que em 2000, e hoje estamos claramente mais atrás. E ou somos capazes de enfrentar esse desafio de nos tornarmos mais produtivos e mais competitivos, ou a UE, mesmo do ponto de vista económico, vai começar a retroceder em termos de poder, e as consequências obviamente não serão as melhores para quem cá vive neste cantinho do mundo. 

Na construção das estratégias económicas e de internacionalização da UE, como são considerados os interesses de países menos desenvolvidos ou com economias mais pequenas, como Portugal? Na definição da política comercial comum da UE, como se equilibram os interesses de países com estruturas económicas tão diferentes?

Essa é uma das questões mais complicadas no seio da UE, porque é constituída por um conjunto de países muito heterogéneos em quase tudo, desde o nível de rendimento até do ponto de vista populacional. E, portanto, formular políticas comuns para situações muito heterogéneas, a que se juntam todas as questões históricas e culturais que vêm de há muitos séculos, é uma questão difícil. Como é que isso se tem tentado equilibrar? Eu diria que de várias maneiras, e apesar de tudo, com algum sucesso.

Primeiro, o processo de decisão da União EE combina, de algum modo, a ideia de que os países não devem ser mais uns do que os outros, pelo simples facto de serem maiores ou mais pequenos, com a ideia que também não podemos deixar de ter em consideração que não podemos dar o mesmo poder a Malta que damos à Alemanha, quando a Alemanha tem milhões de habitantes e Malta tem milhares de habitantes, senão cairemos numa situação em que um maltês decidia mais do que milhares de alemães.  Eu julgo que desde que foi assinado o Tratado de Lisboa, o sistema de votação permitiu equilibrar um bocadinho mais a situação, porque hoje, na maioria das propostas que se colocam em cima da mesa, para elas serem aprovadas é preciso que 55% dos países votem a favor, mas é preciso que esses 55% dos países representem pelo menos 65% da população. E, portanto, estamos a tentar equilibrar o cada país valer o mesmo com o cada cidadão da UE valer o mesmo, e os estudos tendem a mostrar que é uma solução razoável, desse ponto de vista. 

Por outro lado, a maneira como se discutem as coisas no seio da UE, na prática, é feita no sentido de tentar acomodar as preocupações de todos, tanto que se formos ver, a maior parte das decisões são tomadas com o voto favorável de toda a gente. Quando há uma proposta que é apresentada pela Comissão e vai depois à discussão pelos países, o que a gente vê na comunicação social é só o resultado final, o que os Ministros decidiram ou os chefes de Estado e de Governo decidiram.  Antes disso, há todo um trabalho feito ao nível dos grupos de técnicos, diplomatas, entre outros, que passam muitas horas a tentar que o texto final seja suscetível de ser aceitável para todos. 

E há depois um terceiro aspeto que eu acho que vale a pena recordar, é que há uma política da União que já vem dos anos 70 e que está voltada, exatamente, para tentar que os países menos desenvolvidos se aproximem mais rapidamente dos mais desenvolvidos. É a chamada política de coesão, a que estão associados fundos comunitários muito conhecidos, como o FEDER e o Fundo Social Europeu, que tentam ajudar estes países a aproximarem-se mais rapidamente e a tornar a UE um espaço mais coeso do ponto de vista económico e social. E, portanto, há essa atenção especial dada também aos países menos desenvolvidos.

Nos anos 90, a UE era muitas vezes vista sobretudo como um projeto de convergência económica. De que forma a investigação académica sobre a UE evoluiu desde o início dos anos 90 até hoje? Quais considera serem as principais mudanças de perspetiva? Existem novos focos e preocupações?

Eu não sei se foi só até à década de 90. Até hoje, os resultados que nós conhecemos mais da UE têm sido, sobretudo, no domínio económico, e é aí que se tem avançado mais e isso tem uma justificação.  É mais fácil avançar em termos económicos do que avançar, por exemplo, ao nível político.  Mas a verdade é que quando a UE começou, na altura como Comunidade Económica Europeia, aquilo que estava na sua génese eram objetivos de natureza política.

A intenção dos seis países que fundaram a CEE, e que já tinham sido os fundadores da Comunidade Económica do Carvão e do Aço, que é a antecessora, era que se criasse um espaço de paz e de solidariedade, que evitasse aquilo que tinha sido, até então, a história da Europa, de guerras de todos contra todos.  Nós aqui estávamos um bocadinho mais resguardados, lutávamos com os espanhóis e de vez em quando, com os franceses. No entanto, no centro da Europa é um bocado a história da luta de uns contra os outros, de terras que foram mudando de nacionalidade, e que culminaram com os horrores da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Por isso, a ideia era conseguir evitar que isto continuasse a repetir-se. A questão é que não era fácil juntar em termos políticos países tão diferentes, mesmo os 6 iniciais, e, portanto, o que se tentou fazer foi começar por dar passos económicos.

É um pouco a tradução da ideia de que as pessoas sentem primeiro no bolso a vantagem das coisas e depois estão mais preparadas para outros saltos.  E a ideia foi um bocado de que se começarmos a fazer disto um espaço de prosperidade económica, há de haver um momento em que, se calhar, as pessoas vão aceitar que nós não temos de ser só um espaço económico, temos de ser também um espaço político. 

Os chamados “pais fundadores” deste processo, já nos anos 50, diziam que o objetivo final era construir uma federação europeia, uma espécie de “Estados Unidos da Europa”. Importa notar que não seriam construídos à imagem dos EUA. Seria uma realidade diferente, mas o que importa é que acabaríamos por constituir uma entidade política, uma espécie de país federal, constituído por vários Estados dentro dela.

A nível académico, a investigação na área económica continuou a florescer ao longo deste tempo. Está cada vez mais voltada para as questões do mercado único e da moeda única, o que é normal, pois são as grandes conquistas, a nível económico, do processo de integração. No entanto, há cada vez mais investigação noutras áreas que começam agora a ser particularmente importantes, como a defesa, a segurança, a inovação, etc. e a qual devotar mais dinheiro europeu.

De que forma a UE tem contribuído para a internacionalização da economia portuguesa? Que setores da economia portuguesa mais beneficiam do processo de internacionalização europeu?

A UE, em grande medida, contribuiu para um importante alargamento da nossa abertura ao exterior em termos comerciais. Embora a história económica portuguesa nos mostre que a abertura não começou exatamente com a UE mas sim nos anos 60 com a nossa participação naquilo que na altura era um concorrente da CEE que era a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA) patrocinada pelo Reino Unido, à qual na altura o regime português aderiu. Não podíamos ficar isolados, o Reino Unido era o nosso principal parceiro e Portugal não podia aderir à CEE porque não era uma democracia. Na EFTA não era preciso, podia-se ser uma ditadura como éramos na altura. Foi isso que levou ao primeiro salto a nível de internacionalização da economia portuguesa para o exterior. Depois foi ampliado porque nos anos 70 houve um acordo de comércio livre com a então CEE. Mas, sem dúvida que ao entrarmos na CEE, hoje UE, permitiu dar um salto maior e abriu grandes oportunidades às empresas portuguesas de acederem a novos “velhos” mercados em condições mais vantajosas e ao mesmo tempo aproveitar, por exemplo, o alargamento do mercado para poder beneficiar mais de economias de escala, sermos mais eficientes e por aí adiante. Obviamente, houve empresas que morreram, não conseguiram resistir à concorrência. Mas, mesmo olhando para esse aspeto, eu diria que do ponto de vista do impacto para as empresas portuguesas é extremamente positivo porque uma das coisas que a economia nos ensina é que tipicamente a concorrência é amiga da inovação. Se eu tiver concorrência para me manter no mercado e tentar ser o melhor, eu tenho mesmo de fazer o melhor possível. Portanto, eu acho que, deste ponto de vista, foi extremamente positivo o processo de integração europeia. 

Na prática, o mercado único europeu é verdadeiramente acessível às pequenas e médias empresas portuguesas ou continua a apresentar obstáculos? Acha que estes são devidamente compensados pelo apoio dos fundos europeus?

Eu acho que o mercado único é uma enorme oportunidade para qualquer tipo de empresa, ainda que se calhar até num número significativo de empresas portuguesas possa ser visto mais como uma ameaça. No contexto da UE, a larguíssima maioria das empresas são pequenas e médias empresas. A questão está nas nossas pequenas e médias empresas terem em média uma dimensão muito mais pequena do que as europeias. Nós temos um número muito elevado do que chamamos “microempresas” e essas de facto têm uma dificuldade muito grande de concorrer em mercados mais alargados. Os fundos europeus nem sempre têm desempenhado aqui o melhor papel, porque estes em alguns casos têm como que “obstaculizado” as nossas empresas de aumentarem a dimensão porque estão desenhados de maneira a serem conduzidos para empresas de pequena dimensão, em vez de as incentivarem a terem uma dimensão maior, mesmo que não deixassem de ser PMEs. Não estou com isto a tirar mérito a estes fundos, porque o nível de desenvolvimento que temos hoje em Portugal deve-se muito ao seu efeito. No entanto, há situações em que não ajudaram tanto. Se nós olharmos, mais uma vez, para a história da evolução recente da economia portuguesa eu diria que ajudaram muito nos primeiros anos em que nós participamos na CEE, aliás vê-se pela trajetória de grande sucesso em termos de convergência real de Portugal entre 1986 e 1992/93. Mas, esta tendência não é replicada nos anos seguintes onde até há uma história de menos sucesso após a criação da moeda única e, para além de outros fatores certamente muito importantes, eu tenho para mim que os fundos europeus para parte da economia portuguesa se tornaram quase como a “droga para os viciados”. Isto é, a gente achou que podia viver à sombra destes fundos e em vez de apostar neles para mudar estruturalmente a economia e apostar em áreas de valor acrescentado maior, fomo-nos contentando que a UE nos daria dinheiro se nós “nos mantivéssemos pobrezinhos”, digamos assim. Em termos de nível de vida material, já fomos ultrapassados por vários países de leste que entraram muito depois de nós. Eu costumo dizer que, por este andar, com este ritmo, só não seremos o último daqui a algum tempo por duas razões: primeiro porque é capaz de haver alargamento, entrando países mais pobres na UE, mas se isso não acontecer teremos sempre a Grécia que consegue ser ainda pior do que nós, mas que não deveria ser razão de grande satisfação nossa, mas para grande reflexão. Um país que nos deveria fazer pensar é a Irlanda. A Irlanda era um dos quatro países mais pobres da CEE quando nós aderimos. Hoje, é o segundo país mais rico da UE, só ultrapassado por um país que é um outlier, o Luxemburgo. Portanto, houve quem conseguisse fazer um caminho muito positivo. Os países de leste, obviamente que não têm o fulgor da Irlanda, mas muitos deles ultrapassaram-nos estando alguns já próximos da média do nível de vida material da UE enquanto nós ficamos estagnados. Alguma coisa correu mal. Eu acho que o que correu mal foi má utilização dos fundos estruturais e habituarmo-nos a viver um pouco quase que “à luz da esmola europeia” o que não tem nada de bom do ponto de vista de médio e longo prazo. 

Na sua perspetiva, as políticas económicas e comerciais da UE, incluindo a moeda única, têm efetivamente promovido a internacionalização das empresas portuguesas ou acabam por favorecer sobretudo as economias de maior dimensão reforçando assimetrias entre os Estados-membros?

Eu diria que podemos ter um pouco de ambos. Ou seja, desde logo ter um mercado único com as várias liberdades de circulação a que se junta uma moeda única que nos permite não ter custos de converter umas moedas nas outras favorece quem quer internacionalizar-se e nesse ponto de vista favorece tanto as nossas como as da Alemanha ou as da Lituânia ou da França (países com condições económicas e populacionais muito diferentes). Naturalmente que é possível, e alguns estudos também apontam para isso, que os maiores beneficiários desta abertura sejam os países maiores e as economias mais fortes. Mas, a questão não deve ser posta em termos de quem ganha mais porque na verdade aquilo que se espera é que todos ganhem. É natural que o país sendo maior, tendo mais tecnologia e sendo mais avançado possa ganhar mais. Dando um exemplo, os fundos estruturais permitiram-nos construir várias autoestradas, mas para fazer as autoestradas era preciso, por exemplo, maquinaria que nós não produzimos. Quem produz são a Alemanha e outros países fortes da UE. Isto permite, ao mesmo tempo, perceber que todos ganham, e também desmistificar um pouco a ideia muito típica de alemães e nórdicos que dizem que não irão dar mais dinheiro para a UE porque não ganham nada com isso. 

A atual instabilidade geopolítica representa um entrave à internacionalização europeia? Como podem as empresas europeias proteger-se dos riscos associados à globalização e às cadeias de valor internacionais? 

Eu diria que a situação geopolítica atual e a instabilidade geopolítica atual de facto é um elemento de risco, não só para a internacionalização europeia, mas para a internacionalização ou a globalização do mundo em geral. Aliás, nós já estamos a assistir nestas últimas décadas a um processo de, pelo menos, desaceleração da globalização, alguns até já falam em desglobalização. De facto estas alterações de poder geopolítico a que estamos a assistir, agora particularmente agravadas com a eleição do presidente Trump, nos EUA, e todas as atitudes muito instáveis que têm vindo daí, constituem um risco económico em geral, afetando sobretudo o investimento, que é aquilo que em longo prazo permite fazer a economia crescer e haver melhores níveis de vida.

A instabilidade é inimiga disto, porque uma pessoa que esteja a pensar fazer um investimento, fá-lo se tiver expectativas positivas, num contexto de incerteza é muito mais complicado.

O que acho que pode ser o caminho para as empresas europeias e para a União como um todo tem sobretudo duas vias. A primeira é explorar inteiramente aquilo que é o mercado interno europeu. Nós somos centenas de milhões de consumidores e o verdadeiro impacto do mercado único ainda está por explorar, porque apesar de nós dizermos que “há liberdade de circulação, de bens e serviços, de capitais e de pessoas” não é inteiramente verdade. É verdade em termos de lei, mas depois na prática não é, porque continua a haver barreiras. Há barreiras regulamentares: por exemplo, a nível de determinadas profissões, se eu tirar um curso em Portugal não posso exercer imediatamente em determinados países da UE e vice-versa. Portanto, a ideia da liberdade dos serviços não está inteiramente consumada. Mesmo ao nível dos bens, é possível haver barreiras que são de natureza não tarifária, mais técnica, mais regulamentar, e tudo isso implica custos. Ou seja, se formos pela simplificação de tudo isto, temos um mercado enorme que ainda está para ser totalmente explorado. Esse tem menos riscos, porque, supostamente, terá as mesmas regras, a mesma moeda, não estamos à mercê de um presidente de outro país acordar bem ou mal disposto. 

E depois temos um outro caminho interessante, sobretudo quando parece que o nosso parceiro mais tradicional, que eram os EUA, quer seguir um caminho diferente. Nós temos a oportunidade de tentar explorar outros parceiros. Um dos casos mais evidentes é a América Latina. Está neste momento em cima da mesa, assinar um acordo de comércio livre entre a UE e o Mercosul, que constituiria o espaço de maior liberdade comercial em todo o mundo. Agora é preciso também que a nível europeu, depois a nível político, haja vontade de percorrer este caminho. Neste momento, o acordo que já está a ser negociado há mais de 20 anos e que finalmente teve o seu desfecho no ano passado, ainda não está em vigor, porque a França está muito reticente em que esse acordo vá adiante, porque tem os seus agricultores a protestar, porque tem medo da carne e dos produtos que vêm da América Latina. Se formos ver isto na lógica do interesse próprio de só um país, realmente as coisas não funcionarão. Mas se formos a ver na lógica do interesse da UE, temos aí um bom caminho: procurar alternativas.      

Que reformas poderiam tornar as estratégias de internacionalização da União Europeia mais inclusivas e equilibradas? O alargamento da UE pode tender a enfraquecer a voz dos países economicamente mais frágeis, como Portugal?

Eu confesso, em primeiro lugar, que tenho algumas dúvidas sobre quando é que vai acontecer esse famoso alargamento. Os líderes disseram que seria até 2030, mas eu, como acontecia com o apóstolo, fico à espera de ver para crer. Acho difícil nas atuais circunstâncias que exista um grande alargamento, nomeadamente a certos países de que se tem falado, como a Ucrânia, ou como a Moldávia, ou como a Geórgia, mas veremos, pode ser que sim. Isso seria um sinal político muito positivo. 

Agora, para chegarmos lá, há pelo menos duas grandes reformas que têm de ser feitas, e sem as quais a UE fica com grandes dificuldades a atuar e, eventualmente, nessas circunstâncias os países mais vulneráveis podem ser aqueles que mais sofrem. Por um lado, o sistema de decisão. Uma coisa é nós termos as regras que temos hoje, com 27 países, outra coisa é mantermos as regras com 36 países, se entrassem todos os atuais candidatos. E, entre essas regras de decisão, há uma particularmente delicada, que é o facto de em algumas áreas, que são poucas em termos percentuais mas ainda muito importantes no equivalente aos negócios estrangeiros, nas questões da defesa, da segurança, da fiscalidade por exemplo: aí a regra é a unanimidade. Com 27, decidir nestas áreas já é muitas vezes difícil, por exemplo, quando querem adotar um novo pacote de sanções à Rússia, porque basta haver um país que não está de acordo e anda semanas e semanas, se for preciso meses, para se acordar alguma coisa. Uma entidade que queira transferir para o campo político aquilo que é a sua dimensão económica, não pode esperar este tempo todo, e, portanto, há áreas em que acho que a unanimidade teria de terminar. É muito complicado, até porque para mudar os Tratados é preciso unanimidade, portanto, imaginam o que é que é alguém que  não quer perder um determinado poder e dizer “eu estou disposto a perder esse poder”. Até porque depois a unanimidade tem um efeito perverso, que é o de muitas vezes ser usada como forma de chantagem. A maior parte das propostas da UE são decididas por maioria qualificada, pode acontecer que um determinado país não goste de algo e preferisse que não fosse adiante, mas sozinho não é capaz de bloquear, mas o que ele vai fazer? Ele vai pegar num dossiê que tem de ser aprovado por unanimidade e com o qual não tem problema rigorosamente nenhum, mas vai dizer “eu só aprovo este que é por unanimidade se mudarem aquele que é por maioria qualificada”, e tem havido este tipo de chantagem na UE. Isso é incompatível com querermos ser muitos mais. 

A outra são reformas do ponto de vista do orçamento da UE. O orçamento é muito pequeno, para terem ideia tem andado à volta de 1% do produto da UE. O orçamento federal dos EUA é, talvez da ordem dos 20% ou mais do produto dos EUA e, portanto, imaginem o que se pode fazer num lado e no outro.  Quando acolhermos estes países vai haver mais necessidade de os ajudar, como é que vamos conseguir fazer isso sem pôr em causa as outras áreas onde a UE já hoje, apesar de tudo, tem alguma importância? Não é possível com os mesmos recursos fazer isto tudo. É dos problemas mais complicados que existem e que demoram mais tempo a resolver.    

Numa vertente mais cultural, que filme e que livro recomendaria?

Essa é uma pergunta muito difícil, porque filmes e livros haveria muitos, enfim não vou recomendar o meu filme preferido porque, deve ter a ver ainda com a minha costela de criança, o “ET” ou “Extraterrestre”. Mas era capaz de recomendar um filme que já tem alguns anos, do final da década de 80, que se chama “O Clube dos Poetas Mortos”. Retrata a chegada de um professor nada ortodoxo a um colégio inglês muito ortodoxo. Este professor encarna aquilo que eu acho que deve ser um professor, que é alguém que não chega à sala de aula, abre a boca no ínicio, fecha a boca no fim, vai-se embora, arrumou, e, basicamente, fica à espera que os estudantes ouçam e decorem aquilo que ele diz. É alguém que incentiva os seus estudantes a terem espírito crítico, a olhar para a realidade com outros olhos, a seguir os seus sonhos, independentemente de se são aqueles que os pais ou os avós gostariam, e que os faz refletir até nas certezas que eles têm quanto à sua vida pessoal e profissional. No filme, o desfecho acaba por não ser o melhor, porque, enfim, as instituições têm os seus problemas com as pessoas que não são ortodoxas. Mas, o filme é sobre, de facto, nós devermos aproveitar cada momento da vida e seguirmos os nossos sonhos, e se tivermos gente que nos incentive a isso, tanto melhor.Em termos de livro, já que falamos da UE, talvez um livro que também já tem uns anos largos, julgo que é dos inícios dos anos 90, e, portanto, deve ser lido com algum cuidado, porque houve muitas coisas que aconteceram desde aí: o livro chama-se “O Futuro Federalista da União Europeia”. Foi escrito por Dusan Sidjanski, que é agora professor emérito numa universidade europeia, que foi consultor de um português que foi presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. O livro, na altura, era uma espécie de uma tentativa de mostrar porque é que a UE, tendo tido nas suas raízes orientações políticas, se devia tornar efetivamente numa entidade política do tipo federação, porque de outra maneira a UE não iria conseguir transportar todo o seu potencial económico para poder político, e, ao mesmo tempo, acabaria por não conseguir, a nível económico e social, concretizar tudo aquilo que são as expectativas das pessoas. Acho que essa mensagem ainda hoje, e se calhar mais ainda hoje, corresponde à realidade, e é por isso que aconselharia esse livro, já que, apesar das mudanças que entretanto aconteceram, grande parte da sua lógica continua a ser válida para os dias de hoje.