Conduzida por Mariana Loureiro e Sara Arêde
Também incluída no FEPIANO 60, publicado em Outubro de 2025
Maria Natália Gonçalves é licenciada em Direito (Ciências Jurídico-Comerciais) pela Universidade Lusíada do Porto, pós-graduada, mestre e doutorada em Direito da União Europeia pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
É docente da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (desde 1998), foi coordenadora da Secção Autónoma de Direito, é membro do Conselho de Representantes, do Conselho Científico e do Conselho Pedagógico e representa a FEP na Comissão Coordenadora Transversal do Programa Transversal de Mentoria Interpares.
O conceito de bem-estar tem ganho novas dimensões nos últimos anos. Para si, o que significa, de facto, “bem-estar”?
Eu não sou uma especialista na matéria, mas a meu ver, trata-se de um conceito que é muitas vezes romantizado. Criámos a ilusão de que bem-estar é aquele estado pleno de satisfação com a vida, com os outros e com o espaço a que pertencemos. Porém, quer a nível pessoal, quer a nível coletivo, os grandes avanços ocorrem no seguimento de episódios de mal-estar. Falar de bem-estar sem considerar o mal-estar como parte da vida é fantasia e pode gerar uma enorme insatisfação. Portanto, nessa perspetiva, bem-estar é o resultado do modo como eu lido com o mal-estar.
Especificamente, em termos profissionais, o que me gera bem-estar é saber que faço parte de uma instituição com a grandeza da FEP, algo que é maior que eu e na qual tenho o privilégio de poder participar, saber que não estou sozinha e que tenho sempre quem me dê o suporte e a orientação necessários caso surja uma dificuldade.
O que é para si o Programa Transversal de Mentoria Interpares?
O Programa de Mentoria Interpares da Universidade do Porto é uma ferramenta que visa promover o bom acolhimento dos novos estudantes e facilitar a sua integração e consolidação no ambiente universitário.
Trata-se de um programa estruturado e assente em princípios orientadores bem definidos, tais como a liberdade, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação e o respeito pela diferença. Tem um cariz institucional e transversal, envolvendo todas as unidades orgânicas da Universidade do Porto (UP) e conta com o apoio de uma estrutura organizativa multinível. É um programa de estudantes que estão na UP há mais de um ano, para estudantes recém-chegados e assenta em dinâmicas interpares.
Mas o elemento diferenciador que distingue este programa de outros modelos de mentoria é o facto de envolver docentes. Confesso que, inicialmente, este aspeto levantou-me muitas reservas, pois a meu ver poderia ter um efeito contraproducente, prejudicando a eficácia do programa. Mas, estava errada e hoje sei que o facto de envolver, não apenas estudantes, mas também docentes faz toda a diferença para a sustentabilidade do programa e garantia da integridade e da qualidade do mesmo.
Como surgiu o seu envolvimento com a Mentoria?
O meu envolvimento com o programa é consequência de um certo inconformismo e indignação que fui desenvolvendo ao longo dos anos. Sempre lecionei a estudantes do 1º ano, 1º semestre, portanto, tive o privilégio de observar a alegria e o deslumbramento de quem chega pela primeira vez à FEP. Mas, também fui constatando que um boa parte desses estudantes mostrava muitas dificuldades em transitar do ensino secundário para o universitário, o que, convenhamos, é desafiador! São estudantes com elevado potencial, mas que, por uma ou outra razão, não conseguiam integrar-se de modo satisfatório, o que gerava neles um sentimento de desamparo e inadequação. Na maioria das vezes, o resultado deste distanciamento em relação à universidade era o insucesso escolar e até o abandono do ensino superior.
Este cenário fazia sentir-me impotente e frustrada, pois não via a universidade a dispor de mecanismos capazes de dar resposta adequada a estes estudantes. Por isso, quando soube que havia um programa de mentoria recém-criado, que tinha como alvo esta problemática, não hesitei em inscrever-me na formação que estava a ser disponibilizada aos docentes. Na altura, a minha expectativa era tratar-se de um programa centrado nos docentes e não nos estudantes, pelo que a minha primeira reação foi pensar: “Isto não vai funcionar…”. Contudo, continuei atenta aos números e resultados promissores que os responsáveis pelo programa iam relatando, até que há cerca de três anos, a FEP decidiu oficializar a adesão ao programa.
Recordo que o Conselho Pedagógico me incumbiu juntamente com o estudante Francisco Porto Fernandes, na altura, presidente da AEFEP, de avaliar a pertinência do programa para a FEP e no seguimento, após uma apreciação colegial, foi recomendada a adesão ao programa ao Conselho Executivo que abraçou o projeto e tem sido essencial para a sua operacionalização na FEP.
Este ano letivo na FEP, à data desta entrevista, contamos com 105 mentores e 181 mentorados inscritos, com tendência para um aumento dos números, uma vez que as inscrições não estão fechadas. Estão envolvidas três docentes (eu mesma, a Prof.ª Eduarda Silva e a Prof.ª Sofia Cruz), além da Dr.ª Telma Castro, do Serviço de Desenvolvimento e Carreira e que tem tido um papel essencial neste trabalho.
Finalmente, gostaria de destacar que este ano letivo está em curso uma iniciativa pioneira por parte do Conselho Executivo que respondeu positivamente ao repto lançado por um grupo de mentores para implementação de um programa de acolhimento especialmente concebido para estudantes de PALOP, cujos desafios de integração são acrescidos a todos os níveis como o demonstram as evidências.
De que forma a Mentoria pode influenciar não só o percurso académico, mas também o desenvolvimento pessoal e profissional, dos mentores e mentorados?
De acordo com os inquéritos de monitorização realizados, é relatado frequentemente uma melhoria do desempenho académico, especialmente por parte dos mentores. Isso mostra que não são só os mentorados que ganham, o que se pensarmos bem, faz sentido, pois o facto de estarem envolvidos num programa que apela ao altruísmo e empatia para com o próximo também eleva os níveis de bem-estar dos mentores. Eles sentem que têm um propósito relevante e que podem fazer a diferença na vida de outro estudante.
A nível de desenvolvimento pessoal, há ganhos de parte a parte, pois são trabalhadas competências interpessoais e relacionais, tão escassas na sociedade individualista em que vivemos. Mas convém notar também a sua relevância a nível profissional. O mercado de trabalho valoriza a formação técnico-científica, mas é cada vez mais sensível a este tipo competências transversais, sociais e culturais, tais como a capacidade de uma boa gestão das relações interpessoais, comunicação eficaz e trabalho de equipa. Temos o relato de um mentor da FEP que se candidatou a um cargo numa instituição bancária e uma das razões destacadas para a sua admissão foi o seu envolvimento no programa de mentoria interpares.
Obviamente, o que mobiliza os mentores deve ser o desejo de caminhar com alguém que está a passar por uma experiência nova, recentemente vivida por ele, e contribuir positivamente nesse processo numa lógica de solidariedade e cooperação. Contudo, pela sua relevância no mercado de trabalho, é importante objetivar o grau de envolvimento dos mentores. Por esse motivo, a sua participação nas atividades do programa é devidamente certificada, podendo os mentores beneficiar da possibilidade de a ver reconhecida no seu Suplemento ao Diploma, assim como através do PRO-SKILLS, programa de certificação de atividades extracurriculares de estudantes da FEP.
Que qualidades considera essenciais num bom mentor?
Como aflorei anteriormente, para se tornar um bom mentor basta a vontade e a generosidade de se doar ao outro, o que implica gostar de pessoas, ser sensível às dificuldades dos pares e disponibilidade para apontar caminhos possíveis. É esta a motivação certa e quando assim é, estão criadas as condições para que tudo possa correr bem.
Naturalmente, nem sempre que o processo de mentoria corre menos bem, isso significa que o mentor não tinha as qualidades necessárias para o efeito. Há uma infinidade de motivos de ambos os lados que podem justificar o não estabelecimento de um vínculo entre mentor/mentorado, alguns deles compreensíveis. Porém, não é aceitável que isso fique a dever-se ao facto do mentor se ter inscrito no programa com a motivação errada e estamos conscientes do risco de uma certa instrumentalização do mesmo para fins mais egoístas que altruístas.
É curioso notar que alguns mentores se inscrevem no programa precisamente porque quando mentorados a sua relação com o mentor não foi satisfatória, mas também observamos que muitos mentores mantêm um vínculo tão saudável e duradouro com os mentorados que são eles mesmos que no final do ano os acompanham na formação que os habilita a ser também mentores no ano seguinte. Isso deixa-nos particularmente alegres.
A formação a que os mentores se submetem tem precisamente como principal objetivo clarificar esta questão, alinhar expectativas e dar ênfase ao compromisso sério que estão a assumir para com a outra pessoa.
Lembra-se de alguma história que lhe tenha mostrado o impacto da Mentoria no bem-estar dos estudantes recém-chegados?
Não há só experiências de bem-estar. Há casos em que o impacto é negativo e essa é precisamente a razão que muitas vezes leva o estudante do 1º ano a querer ser mentor no ano seguinte. Contudo, genericamente, os mentorados relatam vivências académicas mais leves e prazerosas e o desenvolvimento de um sentimento profundo de pertença à FEP e à UP.
Mas, a história mais impactante que lembro é a do impacto do programa num mentor. Ele envolveu-se a um nível mais intenso com a mentoria por aconselhamento do SDC, pois manifestava imensas dificuldades de integração. Sentia que o ambiente da FEP o ‘empurrava’ para algo padronizado com o qual ele não se identificava e sentia que precisava de sacrificar a sua autenticidade para se moldar e ser aceite. Este mal-estar levou-o inclusive a questionar a sua permanência na FEP.
Inicialmente, pensei que a extrema timidez que o mentor manifestava seria um obstáculo difícil de ultrapassar, mas a verdade é que a pessoa foi-se sentido cada vez mais confortável no seu papel de mentor e ‘desabrochou’ de um modo inesperado e surpreendente quando percebeu que não estava sozinho e que outros estudantes referiam o mesmo desconforto que ele sentia enquanto estudante. A mentoria proporcionou-lhe um espaço de afirmação em que percebeu que a sua forma de estar na FEP era válida e que não precisava de abrir mão da sua identidade para se ‘encaixar’ no padrão que ele intuia.
O equilíbrio entre vida académica, pessoal e social é um desafio. Que conselhos costuma dar aos seus alunos para gerirem este equilíbrio?
Eu não gostaria de ser estudante nesta época, porque são tantas as solicitações e pressões académicas, sociais e familiares que eu temo que não seria capaz de gerir uma agenda como deve ser a vossa.
O que costumo aconselhar aos meus estudantes é que sejam sábios a fazer escolhas e a definir prioridades, porque todos temos limites. Portanto, há coisas que vamos ter de renunciar de modo a não trazer muito prejuízo em termos de saúde, qualidade de sono e alimentação. Se assim não for, a frustração e a ansiedade vão instalar-se e serão avassaladoras. Cada um, dentro da sua realidade e condição, precisa fazer escolhas racionais, ser disciplinado e, sobretudo, consistente na atitude. São renúncias e sacrifícios que não são fáceis, mas são temporários e necessários tendo em conta a intensidade do trabalho exigido.
Que estratégias utiliza para criar uma relação de confiança com os estudantes?
Creio que o sucesso do processo de ensino e aprendizagem assenta no pilar da confiança, o que exige intencionalidade na construção de um relacionamento de proximidade com o estudante. Se assim não acontecer, alguma coisa está errada. Portanto, eu parto dessa premissa.
Assim como cada estudante é diferente, também os docentes têm as suas especificidades. Cada um tem a sua forma de estar; uns mais sérios e formais, outros mais acessíveis e cativantes, mas todos podem criar uma relação de confiança e contribuir para a formação dos estudantes como melhores pessoas e profissionais. Costumo brincar e dizer que quanto maior o número de professores ‘difíceis’, melhor preparado o estudante fica para lidar com as adversidades e injustiças da vida no mundo real.
Nesta medida, procuro fazer duas ou três coisas muito básicas. A mais importante, a meu ver, é definir com clareza as ‘regras do jogo’ e o padrão de exigência no que diz respeito ao ensino, à aprendizagem e à avaliação. Se as expectativas estiverem definidas e for feita uma boa gestão a estes três níveis, isso irá necessariamente gerar forte sentimento de segurança e previsibilidade de parte a parte.
Por outro lado, procuro insistir numa narrativa que comunique ao estudante que ele importa verdadeiramente e que o sucesso dele, é o meu sucesso. Se a perceção do estudante for a de que o docente está do seu lado e quer o seu melhor, a probabilidade das coisas correrem bem aumenta consideravelmente.
Na sua opinião, quais são hoje os maiores desafios e fragilidades que os jovens enfrentam em termos de saúde e bem-estar? Identifica alguma tendência marcante? E, sobretudo, de onde acredita que estas dificuldades vêm e que caminhos podem ser seguidos para as ultrapassar?
O que eu noto é uma tendência no sentido de uma menor maturidade e maior dependência da parte dos estudantes do ensino superior. Quando falo em maturidade, eu estou a pensar na forma como o estudante exerce a sua liberdade e autonomia individual: não só na forma como ele lida com as agruras da vida adulta, mas também como gere os aspetos básicos de manutenção da vida, como alimentação, finanças e cuidado pessoal. São muito capazes e eficientes em determinadas áreas como a digital, mas impreparados para as responsabilidades mais elementares da adultez.
Contudo, isso é apenas o produto de uma sociedade que vendeu aos jovens uma ilusão de omnipotência e os ensinou a valorizar mais a aparência e a performance escolar e recreativa do que a preparação para a vida como ela é. E a vida é difícil, exige esforço, dedicação e trabalho árduo.
Creio que a principal razão pela qual os jovens mostram hoje pouca resiliência perante os contratempos da vida está no facto de não terem sido treinados para o desconforto do erro, nem para a frustração causada por limites internos e externos que são naturais. Então, neste contexto não será de estranhar que sejam comuns os estados de ansiedade extrema, as explosões de agressividade e até o aumento do número de mortes por suicídio entre os estudantes do ensino superior.
Não quero com isso generalizar e fazer crer que todos os jovens necessitam de uma intervenção psicológica ou psiquiátrica. Felizmente, a maioria ultrapassa razoavelmente bem esta fase do seu desenvolvimento. Não querendo menosprezar a importância da saúde mental, atrevo-me a afirmar até que haverá algum excesso no diagnóstico de pseudo-patologias do foro mental, em situações em que o que se procura evitar é o desconforto e o sofrimento natural que o crescimento implica.
O que me mais me assusta são os jovens bem ‘comportadinhos’, os que nunca dão preocupações. Gostaria de ver mais autenticidade, menos conformismo, mas os jovens crescem convencidos que têm que ser aquele ‘boneco’ adestrado, perfeitinho, padronizado que nunca erra e que corresponde às expectativas de toda a gente, do pai, da mãe, da avó, da madrinha…… E isso é potencialmente doentio.
No caso específico da FEP o grande embate acontece no primeiro ano da licenciatura. As notas de entrada são muito elevadas e na generalidade dos casos o acesso à FEP é o culminar de uma série de anos em que a vida do estudante e da família foi organizada em torno deste objetivo. Ora os estudantes, já chegam com um grande desgaste e a pressão aumenta quando o ritmo do ensino e do trabalho se intensifica e percebem que o paradigma mudou e que agora eles são apenas mais um entre os demais.
Paralelamente, podem surgir outro tipo de pressões que acumuladas adquirem um peso considerável; a família reivindica que o estudante seja mais autónomo até financeiramente, a sociedade impõe um determinado ideal de beleza a que é preciso dar resposta, os relacionamentos amorosos nem sempre são saudáveis… e como cremos que o nosso valor depende do nosso desempenho, sentimo-nos insuficientes e permanentemente insatisfeitos enquanto não percebermos que os nossos resultados são uma consequência natural do investimento feito e não uma manifestação do meu valor.
Como gostaria que os seus alunos se lembrassem de si daqui a alguns anos?
Eu espero que não se lembrem de mim e viverei bem com isso… Mas se for o caso, espero que se lembrem de mim como uma pessoa comum que fez o melhor que soube com aquilo que pôde. Uma pessoa que erra todos os dias, mas que se esforça por fazer o melhor.
Teve ao longo da sua carreira alguma figura que exerceu um papel de mentora para si? Como foi essa experiência?
Já tenho mais de cinco décadas de vida, portanto foram várias as pessoas que exerceram uma grande influência sobre mim e sobre as minhas escolhas. Mas todas elas têm um aspeto em comum. Não sei se as chamaria de mentoras, no sentido formal do termo, mas eram pessoas que viam em mim potencial e procuravam direcionar-me. Tinham essa capacidade de fazer despertar em mim aquilo que eu nem sabia que tinha. Em momentos marcantes da minha vida, fizeram-me sentir vista e valorizada e isso é impagável.
O meu professor da escola primária, foi uma dessas pessoas, mas também uma colega de licenciatura que já tinha experiência académica e me permitiu caminhar e aprender com ela. Chegamos ao Ensino Superior com a ideia de que é suposto já sabermos tudo: saber estudar, saber o lugar das coisas, como agir… e não é verdade. Seguramente, não teria sido tão boa aluna não fosse a influência que a minha colega de licenciatura exerceu em mim. Depois, não posso deixar de referir os meus orientadores de mestrado e de doutoramento na Faculdade de Direito de Coimbra, mas também os diversos colegas da FEP que foram essenciais no percurso.
Enfim, tive o privilégio de ter sempre comigo as pessoas certas e mesmo quando não eram as tais, também aprendi muito com elas. Sou muito grata a todos com quem me tenho cruzado.
Como vê a evolução do papel do professor universitário nos próximos anos?
Com muita curiosidade! Creio que estamos a viver um momento de transformação no que refere ao papel da universidade e do seu impacto na sociedade.
A visão tradicional de universidade foi sendo progressivamente influenciada pelo modelo anglo-saxónico, o que na minha opinião gerou alguns efeitos perversos, nomeadamente um desinvestimento na dimensão pedagógica, em prol da dimensão da investigação, subjugada à lógica cega das métricas que se tornam mais importantes que o impacto real da investigação. Tradicionalmente, a universidade era vista como um centro reputado de construção de saber e de liberdade de pensamento, mas creio que isso se foi esboroando à medida que o individualismo, o pragmatismo e o mercantilismo institucional foram ganhando terreno. Vejo que hoje há um espaço epistemológico que precisa ser preenchido.
Por outro lado, a IA está a forçar-nos a repensar o modo como investigamos e ensinamos, a reinventar o papel do docente na universidade e até a repensar o sentido do ensino superior.
Ainda assim, eu quero crer que o papel do docente universitário deverá passar por ensinar o estudante a selecionar, a organizar e sistematizar a informação que lhes chega; a usar de forma ética as ferramentas tecnológicas ao dispor; a desenvolver o pensamento crítico de forma livre e descomprometida e a apontar as soluções mais justas relativamente às principais questões económico-sociais contemporâneas.
Acredita que, em Portugal, as universidades têm dado a devida atenção ao bem-estar da comunidade académica? E de que forma a FEP se posiciona neste contexto?
Acredito, sim. No caso da Universidade do Porto, tem havido uma maior preocupação, não no sentido de uma busca deliberada por bem-estar, mas como uma reação a um cenário que não é bonito. As universidades deixaram de poder negar as evidências: os níveis de insucesso, os níveis de abandono escolar, a desmotivação dos colaboradores, e isto ‘forçou-as’ a olhar com outros olhos para as questões do bem-estar. A FEP, em particular, tem acompanhado esse processo e, ultimamente, tenho notado uma especial preocupação com as pessoas, materializada em ações concretas.
E a professora, no meio de tantas responsabilidades, como encontra o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal? Existe algum hábito ou rotina de bem-estar de que nunca abdique?
Essa já é uma pergunta que entra numa esfera mais pessoal, mas não vejo porque não responder.
Eu partilho de uma cosmovisão cristã que é o fundamento para me organizar como pessoa. Eu creio que o ser humano é tricotómico: corpo, alma e espírito e quando estamos bem nesses 3 planos, a vida fica melhor. Eu sei que tenho um corpo e que quanto melhor trato dele, mais longa e saudável será a minha existência; então procuro ter alguma atenção com aquilo que como, fazer algum exercício… A nível emocional procuro ‘policiar’ os meus pensamentos, porque a minha cabeça é um bocadinho traidora e dou por mim umas vezes a comparar-me ou a questionar a minha identidade e valor, outras vezes a achar que sou melhor que a realidade. Finalmente, procuro também estar bem ‘alimentada’ a nível espiritual através da leitura e estudo da Bíblia – que é a minha regra de fé e ação – da prática de oração e meditação cristã. Esta é a minha Verdade e de que não abdico.







