Opinião de Martim Pereira
Também incluído no FEPIANO 60, publicado em Outubro de 2025
Nos dias que correm, a saúde mental já não é um tema vedado. Somos possivelmente a primeira geração sensível aos problemas do fulcro psicológico. Mas também há uma crescente vontade Nietzschiana de nos tornarmos donos do nosso futuro, de “fazermos a nossa sorte”. Não sei, todavia, se é justo que nos vendam que devemos ter controlo do nosso futuro quando não tivemos controlo do nosso passado.
De há uns meses para cá, fui ver um filme amador. O filme, apesar de muito experimental, tinha uma grande componente documentativa. Tratava-se de filmagens do ponto de vista da autora, uma jovem russa, com especial foco no seu namorado e na batalha que ele travava com o abuso de substâncias. Imagino que esta seria a face do filme que ela julgou mais interessante, por ser mórbida. No entanto, não foi isso que ficou comigo. No início, antes de nos debruçarmos sobre a sua vida, a autora dá-nos uma leve ideia de como é viver na Rússia. Filma prédios altos, degradados e afiados, e diz coisas como “na Rússia, o mundo é cinzento” e “a depressão é um dado adquirido, o que muda é a forma como lidamos com ela”. Este cenário, acrescentado destas palavras, deixou um grande impacto em mim.
Rússia, um país oligárquico, altamente industrializado e desigual. Uma pessoa que vive naquelas condições não pode ter esperança de que irá vingar na vida. Pior, uma pessoa que nasce naquele contexto sente que nunca teve qualquer chance desde o início. É diferente viver num país pobre e viver num país cuja riqueza depende da nossa pobreza. Quase que se pode dizer que a depressão está institucionalizada, a falta de rumo da vida das pessoas é um elemento identificativo do estado. O povo existe como peão. Vive para produzir para empresas nacionais, e consumir a produção de outras. Se esta realidade soa familiar, é porque é quase idêntica à que se vivia no nosso país há pouco mais de cinco décadas. Estamos a falar da realidade dos nossos avós, das pessoas que educaram aqueles que nos educaram a nós.
Existe, na geração dos nossos avós, um sentimento debilitante de pequenez, ser português era ser um grão de areia no deserto. Os portugueses que vingavam na vida queriam assimilar as suas vidas à das elites europeias. Já a classe operária só pensava em fugir para esses países. Iam continuar a ser operários, mas ao menos havia luz no fundo do túnel. Os que sobravam, os operários retidos em Portugal, viviam como Sísifo, a trabalhar apenas para acordar no dia seguinte e fazê-lo tudo outra vez. Apesar de tudo, a ignorância era aquilo que os salvava. A ignorância de que havia condições melhores. A ignorância de que há mais mundo a conhecer. A maior parte dessa geração nunca saiu de Portugal, mas, também nunca lhes foi dada sensibilidade para que dessem valor ao que iam encontrar lá fora. Já a nós, foi-nos impingida a consciência. Sabemos que há por aí uma vida melhor, mas sentimo-nos incapazes de a alcançar. Encontramo-nos no entroncamento entre esse punho de ferro, que fez os portugueses sentirem-se como formigas num planeta cada vez mais globalizado, cheio de oportunidades, mas onde há um consenso de que somos demasiado provincianos para as aproveitar.
“Já a nós, foi-nos impingida a consciência. Sabemos que há por aí uma vida melhor, mas sentimo-nos incapazes de a alcançar.“
Sinto que esse é o fator que falta quando tentamos ter uma discussão madura sobre saúde mental. Equacionar essa tal “depressão institucionalizada”. Como podemos assumir o controlo do nosso futuro, quando não temos bem noção do que nos trouxe até aqui? Os portugueses de hoje têm de compreender que são netos de pessoas que viveram em cativeiro.

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