Um dos sentimentos que mais marca a minha experiência na faculdade é o chamado “Fomo”. Fear Of Missing Out ou, em português, medo de ficar de fora. Esta é a expressão que descreve a ansiedade e, no meu caso, a inquietação que se sente ao pensar que as outras pessoas estão a viver experiências mais interessantes e excitantes do que as que temos oportunidade de experimentar. Mas para mim, no fundo é o medo de estar a perder algo importante.

Antes de entrar na faculdade já me conhecia como uma pessoa curiosa e permanentemente insatisfeita. Nunca seria capaz de ler todos os livros que gostaria, nem de ver todos os filmes e séries possíveis e imagináveis, quanto mais tecer todas as peças de crochet que gostava de fazer. Nunca seria capaz de conhecer todas as perspetivas da História, nem as várias mitologias que moldam as mais diferentes culturas do globo. 

Mas quando entrei na faculdade… as possibilidades aumentaram e as dimensões também, principalmente em tudo o que se referia a uma vida social de sucesso. De repente, podia entrar em mais de 20 organizações diferentes, cada uma capaz de me proporcionar uma experiência diferenciadora, mas enriquecedora, acompanhada de um potencial grupo de amigos brilhantes. Ao mesmo tempo, recebia uma mensagem da Comissão de Praxe, para estar às 11h, na porta de trás da FEP, para a primeira atividade. Naquele dia, levantei-me cheia de ansiedade, não sabia o que esperar e na noite anterior tinha visto um sem número de vídeos a falar de praxe. Não sei se foi pela quantidade de informação que ainda não tinha absorvido do dia anterior no FEP Welcome Fest ou da imagem assustadora que os telejornais me transmitiam em relação à praxe, mas naquele dia não fui capaz de me levantar e de ir até à faculdade. Penso muitas vezes nesse dia.

Durante o resto do ano, olhava quase todas as terças-feiras para o aglomerado de caloiros e trajados de negro e pensava no que poderia ter sido. Via as amizades a formarem-se ao longe e não conseguia evitar sentir que tinha perdido uma oportunidade. Mas a verdade é que também tinha plena noção de que não tinha tempo para dedicar a essas atividades. No meio de muito estudo ainda fui experimentando imensas coisas, fui a vários workshops, assisti a palestras fantásticas, experimentei um novo ginásio de ginástica artística e até arrisquei encontros que mais pareciam um verdadeiro musical. Mas depois, como um suspiro inevitável, um kit de caloiro entrava no meu campo visual e não tardava a que a tristeza voltasse a engolir-me. Claro que esta não era a única razão, mas enfim, o ponto deste artigo não é embarcar numa psicoanálise de uma estudante da FEP. E o meu ponto também não é convencer-vos a experimentar a praxe, até porque mais tarde cheguei a experimentar e percebi que não era para mim, ainda que agradeça profundamente pela oportunidade que me deram e pela simpatia com que sempre me trataram. Pretendo apenas demonstrar uma das várias experiências em que não consegui evitar senão sentir-me uma grande observadora, incapaz de se inserir na narrativa, sendo-lhe apenas permitido admirar de longe e ao de leve uma experiência que parecia ser única e indispensável.

Quando chegamos à faculdade a primeira coisa que nos dizem é que, supostamente, estes serão os melhores anos das nossas vidas. Mas quem nos diz isto não parece muito preocupado com a carga de ansiedade que nos acaba de transferir. Começamos a tentar tudo e mais alguma coisa e quando finalmente percebermos que a nossa experiência pode não estar a corresponder às nossas gigantes expectativas é natural que fiquemos desmotivados e repletos de pensamentos que não param de nos lembrar que isto tudo era suposto ser diferente, que era suposto ser tudo incrível, tudo feliz e tudo perfeito.

“quem nos diz isto não parece muito preocupado com a carga de ansiedade que nos acaba de transferir”

Para além disso, como estudante deslocada, também nunca ninguém me avisou que ia sentir tanta falta dos meus pais, que o facto de não conseguir estar tanto tempo com eles, nem sequer acompanhar a típica novela que víamos ao fim de jantar me ia abalar de uma forma tão profunda. Mesmo quando os vejo ao fim de semana, no meio de tantos testes, trabalhos e quizzes surpresa acabo por nem falar muito com ninguém. Falando em tanto estudo, também nada me preparou para a culpa que ia sentir por me sentir a afastar cada vez mais do meu irmão mais novo, precisamente nos anos em que ele mais ia precisar de mim, ainda que saiba que a minha falta de disponibilidade é completamente razoável e compreensível. Conciliar a família com o estudo, pausas e uma saúde mental razoável acaba por não ser tão fácil como pensava. 

A verdade é que tenho tentado lidar sempre com isto tudo sozinha, talvez porque sinta que os outros estudantes estão perfeitamente bem, ou que se desabafar vou ser um peso ou uma desmancha prazeres. Mas, acima de tudo, porque sinto que tenho de corresponder a uma expectativa invisível, e de que ninguém fala diretamente, de que tenho que conseguir controlar tudo à minha volta e dentro de mim, incluindo os meus sentimentos, sem prejudicar o meu sucesso académico, tudo isto quando se está a sobreviver há uns dias à base de café e poucas horas de sono. 

Apesar de tudo acho que não sou a única que se vê numa luta constante de tentar ser “perfeitinha” e de fazer tudo o que é esperado de mim. Ainda não tive coragem de pedir ajuda a nenhum profissional, nomeadamente aos psicólogos incríveis do Serviço de Desenvolvimento e Carreira da FEP, mas se estás a ler isto e te identificaste pelo menos um bocadinho com isto, gostava de te desafiar a admitir que isto, de facto, é um problema, que te tens de tentar desligar das 1001 expectativas e que devias ir falar com alguém sobre o assunto. Eu prometo que também vou tentar.

 Entretanto, gostava apenas de terminar a destacar uma pequena coisa que descobri. A primeira vez que me consegui desligar disto tudo e encontrar algum alento foi quando, no início da primavera, no meu primeiro ano de licenciatura, vi no jardim da FEP as minhas flores preferidas, aquelas amarelinhas dos trevos, que de certa maneira me desejam boa sorte e me obrigam a parar um bocadinho e sorrir. Isto para dizer que, talvez, conseguir fazer tudo ao mesmo tempo não seja, ao fim do dia, aquilo que vai fazer de nós pessoas bem-sucedidas ou felizes. Naquele tempinho em que vi as flores podia ter estado a estudar ou a ouvir um podcast sobre Economia, mas parei um bocadinho e deixei-me respirar e não há de ser isso que me vai arruinar a carreira. Acho que precisamos todos de um bocadinho disso (e que a FEP pare de aparar a relva quando lá estão as minhas florzinhas!).

“podia ter estado a estudar ou a ouvir um podcast sobre Economia, mas parei um bocadinho”