Uma reflexão sobre como os media influenciam como vemos o mundo, sobre a ética do maior programa de true crime de sempre e sobre como a sua popularidade aludia ao que estava para vir.

A nossa cognição pode ser vista como uma sucessão de alegorias da caverna. Ninguém nasce ensinado, crente de algo ou preconceituoso. Partindo da concessão de conhecimento inato de René Descartes, é pela lógica, a nossa capacidade de perceber que se um mais um é dois, então, dois menos um é um, que vamos conseguir desbravar o mundo à nossa frente. No entanto, se nos debruçarmos sobre o existencialismo de Sartre e o aliarmos ao raciocínio que fizemos há pouco, percebemos que para raciocínios não absolutamente aritméticos, é preciso termos uma ideia clara daquilo de que estamos a falar, para extrapolar o que quer que seja para além disso.

Proponho a seguinte reflexão. Uma criança que brinca com uma mangueira. A criança já tomou banho na vida, pelo que tem agora um conceito base muito claro, “a água molha”. Ao abrir a mangueira a criança acabou de descobrir algo novo, “se eu abrir a mangueira, ela deita água”. A partir destes dois conceitos que agora possui na sua cognição ainda muito limitada, a criança facilmente percebe que “se apontar a mangueira para mim e a abrir, vou me molhar”. 

É importante salientar, no que foi dito há pouco, que a cognição humana nunca deixa de ser limitada. Podemos fazer um raciocínio alegórico aquele que fizemos para chegar a isto também. “Só sei que nada sei”, a frase atribuída a Sócrates, diz-nos que o ser humano nunca chega a ser omnisciente. Platão, com a sua alegoria da caverna, diz-nos que quem tem uma visão limitada da realidade está condenado a ter blindspots cognitivos. Daqui podemos concluir que, se o ser humano tem sempre uma visão limitada da realidade, e se quem não vê a realidade como um todo está a viver a sua versão da alegoria da caverna, então, estamos todos, de certa forma, lá presos. É óbvio que, para a esmagadora maioria de nós, as nossas cavernas são muito mais complexas do que simples projeções de sombras, mas, não deixamos de estar limitados, pelo que não deixamos de viver em cavernas.

Há certas pinturas rupestres nas nossas cavernas que têm a tinta mais seca do que outras, naturalmente aquelas que obtivemos mais cedo na vida. No entanto, eu acredito que o ser humano nunca deixa de aprender, e aprende sempre que faz uma conexão entre conceitos que nunca fez, ou desfaz uma que já tinha para dar lugar a outra. É aqui que entram os media. Não podemos desvalorizar a importância do conteúdo que consumimos na forma como vemos o mundo. Daí os jornalistas terem, ou deviam ter, um compromisso imprescindível com a verdade. Daí, no seguimento desta reflexão sobre as limitações da nossa cognição e sobre a forma como o conteúdo que nos chega molda a nossa visão da realidade, a nossa caverna, gostava de incidir sobre um programa que fez rondas nos Estados Unidos.

“To Catch a Predator” (TCAP) popularizou um conceito com o qual já estamos familiarizados. Uma equipa de adultos cria um perfil falso na internet, fazem-se passar por menores e marcam encontros na “casa” do menor fictício, que na realidade funciona mais como um estúdio. Quando os intervenientes chegam à casa, são recebidos por um ator ou atriz, dependendo do perfil com que interagiram, para depois serem surpreendidos por Chris Hansen, apresentador do programa. O problema que se afigura pode não ser óbvio. Sim, é verdade, os intervenientes são humilhados, mas, eles agiram sobre pensamentos perversos, agiram sobre a sua vontade de magoar uma criança e merecem ser punidos por isso. Até aqui estou de acordo, apesar de achar que monetizar a pedofilia é ligeiramente imoral, até aí ainda estamos no campo dos interesses, em que, se eu julgo o programa desinteressante, simplesmente não o vejo. Mas, quando cogitamos sobre os métodos da produção do programa e sobre a sua apresentação, as minhas dúvidas começam a aparecer. 

Para começar, o programa é apresentado como uma investigação. Não é o caso. Trata-se de um programa de true crime. Chamar a TCAP uma investigação criminal é como chamar à casa dos segredos um estudo científico sobre seres humanos em cativeiro. Não, o programa é parcial, não desafia a visão do mundo do seu público-alvo, pelo contrário, pretende lucrar com ela. Mais uma vez, apesar de achar ligeiramente imoral, considero que as pessoas devem coexistir com aquilo que as ofende. O problema não é não ser uma investigação séria, é apresentar-se como tal, o que condiciona quem vê a fazer uma falsa relação entre aquelas imagens pré-selecionadas e o mundo real, deturpando as sombras da sua caverna. 

“Chamar a TCAP uma investigação criminal é como chamar à casa dos segredos um estudo científico sobre seres humanos em cativeiro”

Passando para como o programa é efetivamente gravado. Se eu hoje apresentasse esta premissa a alguém, a de criar perfis falsos na internet, a pessoa assumiria que me refiro às redes sociais mais mainstream. Tecnicamente, os menores não podem usar redes sociais, mas, o costume diz-nos que os perfis de menores são comuns. Não é isso que acontece em TCAP. Os perfis eram criados em sites de encontros. Isto para mim muda tudo. Não estou a dizer que é impossível que menores acedam a estes sites, mas, era consenso de que aqueles sites eram locais seguros para adultos procurarem encontros, logo, podemos assumir que a maior parte das pessoas que o utilizavam não estavam à procura de menores. Os intervenientes foram todos informados pelo perfil que estavam a falar com um menor, e isso não os impediu de agir. Por isso, reitero que estes indivíduos não são boas pessoas, muito pelo contrário, mas sublinho também que se torna impossível ilibar a produção de ter feito esforços para que os intervenientes agissem. Portanto o modus operandi de TCAP é: aliciar homens com perversões na internet para agirem sobre elas e depois torná-los objeto de ódio a nível mundial. 

Se estes homens são doentes, então este programa alimenta as suas delusões para depois os queimar em praça pública. Se fosse um programa sobre personificar caixas ATM e aliciar ladrões a virem assaltá-las ninguém via. Se fosse um programa sobre convencer esquizofrénicos de que há mesmo pessoas nas paredes de sua casa as pessoas achavam cruel. Mas, como se trata de pedofilia, é aplaudido. A pedofilia é deplorável, isto é um facto e não é particularmente corajoso dizer isto, ainda que haja quem ache. No entanto, devido ao seu cariz obsceno e, ainda por cima, envolver crianças, invoca nas pessoas um ódio primitivo remanescente dos dois minutos de ódio de ”1984”.

Nos tempos medievais, enforcavam-se cadáveres, porque se julgava que essas pessoas tinham morrido antes de pagarem a sua dívida à sociedade. Nós vemos isso hoje. Não me pronunciando sobre se Ricardo Salgado tem ou não Alzheimer, existem pessoas em Portugal que concedem que ele o tem e que mesmo assim deveria ir preso, pois, apesar de o seu cérebro estar em papa agora, no passado contraiu uma dívida para com a sociedade que tem de pagar. A pedofilia invoca esse pensamento nas pessoas. Vamos ser objetivos. É verdade, se tivessem oportunidade, arrisco dizer que todos aqueles homens violariam uma criança, no entanto, não o fizeram, exatamente por falta de oportunidade. Do nada, na percepção deles, aparece uma oportunidade. Agem sobre ela, e, posteriormente, são expostos perante o mundo como pedófilos, fazendo falta referir que há um bom número de intervenientes que acabaram por cometer suicídio. Ou seja, a produção não só criou a “oportunidade” de um homem perverso estar com uma criança, ainda que apenas na sua cabeça, como lhes causou tal stress que muitos acabaram por escolher morrer. Estes são os males da produção, e, perante isto, quais são verdadeiramente os males dos intervenientes? Existe a possibilidade de um dia magoarem uma criança?  

Programas como estes mantêm muitos presos na sua caverna. Têm a crença base de que existem pessoas naturalmente más, os “criminosos”, e, por oposição, as boas pessoas, que merecem restituições pelos males que os criminosos, tão infinitamente diferentes de nós, nos causaram. Apresentar um programa destes como jornalismo destitui as pessoas de pensamento crítico, simplifica as razões pelas quais o crime acontece e aumenta a desconfiança que temos uns pelos outros, tudo sintomas que vieram equacionar nos tempos de crescimento do autoritarismo em que vivemos. Dito isto, fica muito bem ilustrado o sensacionalismo da sociedade americana, pelo que, após o “trumpismo”, pode ter valor histórico.