Portugal é o país da União Europeia com mais empregadores sem o ensino secundário. As suas microempresas geram menos de metade do valor acrescentado por trabalhador das suas congéneres europeias. Os dois factos pertencem ao mesmo problema.

Há países onde cortar o cabelo, fazer as unhas e estar numa esplanada é o que se faz depois do trabalho. Em Portugal, é grande parte do nosso trabalho. O valor acrescentado por trabalhador nas microempresas portuguesas é de 17.305 euros, menos de metade dos 38.457 euros da média europeia para o mesmo escalão de empresa (GPEARI, 2024). Trata-se do retrato de uma economia que se especializou em atividades de baixa complexidade e baixa remuneração, com causas a montante do mercado: os empresários (e gestores) que decidem o que se produz e como.

Em 2021, 47,5% dos empregadores portugueses não tinha concluído o ensino secundário, quase o triplo da média europeia de 16,4%, o valor mais elevado de toda a União Europeia (Fundação José Neves, Estado da Nação 2022). Esta média esconde, no entanto, uma clivagem interna reveladora: nas filiais estrangeiras instaladas em Portugal, mais de 60% dos gestores têm ensino superior. E como mais de 96% das empresas portuguesas têm menos de dez trabalhadores, o peso desta clivagem não se dilui: concentra-se, precisamente, no núcleo duro do tecido económico nacional. 

“47,5% dos empregadores portugueses não concluiu o ensino secundário; na UE, a média é 16,4%.”

Não tendo por objetivo fazer um juízo moral, esta situação tem consequências negativas concretas. O World Management Survey, conduzido por Bloom, Sadun e Van Reenen ao longo de quase duas décadas, demonstrou que as práticas de gestão explicam cerca de um quarto das diferenças de produtividade entre países, e que Portugal aparece consistentemente no fundo da tabela europeia. Concretizando, melhores sistemas de monitorização, definição de metas, incentivos e seleção de talento aumentam a produtividade. Por sua vez, a escolaridade da gestão não garante essas práticas, mas aumenta a probabilidade de elas existirem.

Os principais instrumentos de fomento industrial portugueses, como o SICE Inovação Produtiva, com taxas de cofinanciamento até 40%, não condicionam o acesso a qualquer requisito de qualificação da gestão. A qualificação aparece apenas como critério de pontuação, referente a emprego novo criado, nunca à competência de quem dirige a empresa candidata. A lógica implícita é a de que a tecnologia pode substituir o capital humano que falta. Todavia, sem competências de gestão, o incentivo público corre o risco de financiar compras dispersas de equipamento, formação mínima e projetos que não se convertem em vantagem competitiva. 

A solução custa a pronunciar porque obriga a admitir que algumas empresas devem desaparecer. A Alemanha, a Irlanda e a Suécia têm muito menos peso de microempresas no valor acrescentado e têm em comum políticas que historicamente favoreceram a escala em detrimento do número. Não há política industrial séria sem condicionar incentivos a métricas de qualificação da gestão, sem reformar uma fiscalidade que penaliza fusões, e sem aceitar que formar quadros é tão investimento quanto comprar máquinas. Portugal tem um problema de estrutura, e a estrutura é sempre o resultado de escolhas. Os salários não chegam porque as empresas não crescem. As empresas não crescem, em parte, porque quem as dirige muitas vezes não tem as ferramentas para as fazer crescer. Mudar isto implica pensar sobre que tipo de empresas merece sobreviver e que tipo de gestão se deve exigir a quem recebe apoios públicos.