Opinião de Rita Loureiro
Também incluído no FEPIANO 67, publicado em Maio de 2026
Enquanto a Europa se desmoronava com a Segunda Guerra Mundial, Portugal adotava uma posição neutra perante o conflito. Terá, por isso, Portugal beneficiado realmente do conflito?
Quando pensamos na Segunda Guerra Mundial, a imagem dominante é de caos e destruição: cidades arrasadas, famílias desalojadas, milhares de mortos e feridos e economias europeias fragilizadas. No entanto, nem todos os países viveram o conflito da mesma forma. Para países neutros, como foi o caso de Portugal, a resposta à questão inicial não é linear, mas aponta para uma conclusão clara: houve benefícios, sobretudo no curto prazo, embora com limitações estruturais que impediram uma transformação profunda na economia.
A posição adotada pelo regime do Estado Novo de António de Oliveira Salazar teve implicações económicas decisivas. Permitiu evitar a destruição física, conservar o aparelho produtivo e manter o pleno funcionamento das instituições. Num continente em ruínas, esta estabilidade relativa tornou-se, por si só, uma vantagem.
“A posição adotada pelo regime (…) de António de Oliveira Salazar teve implicações económicas decisivas”
Do ponto de vista macroeconómico, Portugal tornou-se um refúgio para um volume significativo de capitais estrangeiros. A procura externa aumentou significativamente, com destaque para conservas, cortiça e, acima de tudo, volfrâmio. Este constituía um recurso mineral essencial para a indústria bélica, sendo utilizado na produção de armamento. Derivado disto, a sua disputa fazia-se sentir, levando a um aumento exponencial das exportações portuguesas e uma valorização do produto nos mercados internacionais.
Este fenómeno não foi isolado. A conjuntura da guerra levou à acumulação de meios financeiros, refletindo-se no aumento das reservas de ouro e moeda estrangeira. Portugal tornou-se um “porto seguro” num contexto de instabilidade global, atraindo capitais estrangeiros e reforçando a posição financeira externa. Apesar da entrada massiva de capital, o regime de Salazar manteve uma política de “estagnação programada”, cujo objetivo primordial era a manutenção dos equilíbrios financeiros e a estabilidade cambial em detrimento do crescimento acelerado. Entre 1926 e 1950, a prioridade estrutural foi o ruralismo, focado no setor primário.
A neutralidade portuguesa também teve efeitos indiretos. Com os países europeus focados no esforço da guerra e com cadeias de produção interrompidas, surgiram oportunidades para economias periféricas se desenvolverem nesses mercados. Assim, Portugal passou pelo processo de substituição de importações, onde a falta de bens intermediários e de equipamento forçou o desenvolvimento, ainda que limitado, de indústrias nacionais para abastecer o mercado interno. Todo este cenário fortaleceu o aparelho industrialista do Estado que, durante este período, lançou as bases para a indústria pesada, como siderurgia e cimentos, culminando na Lei do Fomento e Reorganização Industrial de 1945. No entanto, os resultados destas políticas foram débeis. Iniciativas como a “Campanha do Trigo” falharam em garantir a autossuficiência alimentar do país. Em vez de se industrializar, Portugal ruralizou-se.
Contudo, estes benefícios devem ser analisados com cautela. Segundo a tipologia de Angus Maddison, o período de 1913-1950 foi caracterizado por uma convergência nula para a economia portuguesa. Isto significa que Portugal não recuperou o seu atraso face às economias mais ricas da Europa, apenas conseguiu estancar o processo de divergência rápida que ocorreu no século anterior. Este desempenho deveu-se mais às dificuldades profundas dos restantes países europeus do que ao bom desempenho português. O atraso económico acumulado ao longo do século XIX não podia ser superado apenas com ganhos conjunturais de um período de guerra. A estrutura da economia portuguesa manteve-se essencialmente inalterada. O país continuava a ser predominantemente agrícola, com baixos níveis de produtividade, um elevado peso do setor primário e um rendimento per capita significativamente inferior aos países do norte e centro da Europa. A industrialização permanecia limitada e concentrada em alguns setores específicos.
Neste sentido, pode argumentar-se que a Segunda Guerra Mundial funcionou como um catalisador indireto. Não transformou imediatamente a economia portuguesa, mas criou as condições necessárias para mudanças futuras. A disponibilidade de capital, aliada a um contexto internacional favorável no pós-guerra, permitiu ao país iniciar um processo tardio de convergência com as economias desenvolvidas.
“pode argumentar-se que a Segunda Guerra Mundial funcionou como um catalisador indireto”
A ideia de que Portugal beneficiou com a guerra deve ser entendida num sentido restrito. Não podemos negar que houve ganhos económicos claros, sobretudo ao nível das contas externas, exportações e acumulação de reservas. No entanto, esses ganhos não se traduziram numa transformação estrutural imediata nem resolveram os principais problemas da economia portuguesa.
No fundo, Portugal saiu da guerra numa posição relativamente mais estável do que muitos dos nossos vizinhos europeus, mas não necessariamente muito mais desenvolvidos. A neutralidade adotada permitiu evitar perdas significativas, tanto materiais como vidas, e aproveitar oportunidades pontuais como o aumento das exportações, mas não substituiu a necessidade de reformas profundas.
Voltando à pergunta inicial, será que Portugal beneficiou com a guerra? A questão permanece pertinente e a sua resposta é inevitavelmente complexa. Portugal beneficiou do conflito, sim, mas de forma estritamente financeira e conjuntural, não necessariamente estrutural ou social. O país surgiu como uma ilha de estabilidade e liquidez num continente em ruínas, mas a riqueza estava mal distribuída e subutilizada.
Mais do que um fim, a guerra marcou um ponto de partida estratégico. A acumulação de capital e estabilidade macroeconómica geradas nesta época permitiu ao nosso país, a partir da década de 50, lançar Planos de Fomento e atingir uma convergência tardia com os países de norte e centro da Europa. A guerra não transformou Portugal numa economia moderna mas comprou ao regime de Salazar tempo e recursos necessários para iniciar uma transformação que, embora lenta e condicionada, acabaria por alterar o perfil económico futuro do país.
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