Opinião de Maria Carvalho
Também incluído no FEPIANO 67, publicado em Maio de 2026
Nos últimos meses, grande parte do debate sobre inteligência artificial (IA) nas escolas concentrou-se sobretudo nos seus riscos. A verdade é que milhares de estudantes já utilizam ferramentas de IA com uma naturalidade difícil de ignorar. Fala-se de plágio, dependência tecnológica, perda de capacidade de escrita e menor predisposição para pensar criticamente. Estas são preocupações legítimas. No entanto, limitar a discussão apenas aos riscos talvez seja insuficiente perante a dimensão da transformação em curso.
Durante décadas, memorizar conteúdos, organizar informação e apresentar respostas corretas tornou-se o núcleo da aprendizagem. O problema é que a inteligência artificial executa precisamente esse tipo de tarefas com enorme rapidez e qualidade bastante satisfatória. Em poucos segundos, consegue resumir textos, estruturar ideias e produzir respostas completas. Perante isto, torna-se inevitável colocar uma questão desconfortável. Se uma ferramenta tecnológica consegue replicar grande parte daquilo que a escola pede aos alunos, então talvez seja necessário repensar aquilo que realmente deve ser exigido aos estudantes ao longo do seu processo de aprendizagem. Isto não significa abandonar trabalhos ou reduzir a exigência. Significa, antes, alterar a natureza daquilo que é solicitado aos alunos. Em vez de pedir um resumo sobre um tema ou uma exposição sobre determinado conceito, poderá tornar-se mais relevante pedir aos estudantes que defendam uma posição própria. Também poderá ser mais útil que avaliem implicações éticas ou comparem perspetivas contraditórias.
A questão torna-se ainda mais relevante quando a relacionamos com a economia portuguesa. Portugal continua a enfrentar dificuldades persistentes de crescimento assente na produtividade e na inovação. As economias mais competitivas tendem a valorizar autonomia, criatividade, pensamento crítico e capacidade de adaptação — competências difíceis de aferir num teste tradicional, mas cada vez mais importantes num mercado de trabalho onde tarefas repetitivas podem ser automatizadas.
Neste contexto, a IA pode funcionar como o impulso que faltava para forçar mudanças no sistema educativo e, consequentemente, tornar a economia mais competitiva. Ao reduzir o valor de tarefas assentes na repetição e na memorização, a inteligência artificial obriga escolas, empresas e trabalhadores a valorizarem competências ligadas à inovação e adaptação. Talvez por isso a inteligência artificial represente menos uma ameaça ao ensino e mais uma oportunidade para repensar aquilo que realmente importa ensinar. Dessa forma, poderá ser cumprido o objetivo primordial da escola: preparar cidadãos capazes de lidar com os problemas e sugerir soluções, tendo em conta o contexto social em que se encontram, eles e os seus pares.
“a IA pode funcionar como o impulso que faltava para forçar mudanças no sistema educativo”
No fundo, o debate sobre inteligência artificial nas escolas não é apenas tecnológico nem educativo. É também um debate sobre o modelo económico do país. A forma como Portugal responder a esta transformação ajudará a definir não apenas a escola do futuro, mas também a economia que dela resultará.
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