Opinião de Alícia Andrade
Também incluído no FEPIANO 67, publicado em Maio de 2026
Quando pensamos em Portugal vem-nos a ideia do mar, da glória dos portugueses como pioneiros na exploração de rotas marítimas comerciais e novos territórios. Os feitos dos portugueses são cantados n’Os Lusíadas e na Mensagem, estando a identidade portuguesa intimamente ligada à exploração marítima. No entanto, será que o país se beneficiou em termos líquidos? Foi o império um elemento central no desenvolvimento português?
Portugal tinha a seu favor uma vantagem geográfica, sendo um dos primeiros a resolver o problema existente na Europa relacionado à instabilidade feudal e, tal como outros países europeus, tinha uma dimensão institucional, tecnológica e científica avançada comparativamente ao resto do mundo. Estas vantagens, juntamente com o desejo de expansão da fé e de destaque num período de instabilidade, marcado por uma crise económica, política e social (transição da Idade Média para a Idade Moderna), motivaram a expansão marítima.
Para compreender o efeito que o império teve no país é necessário avaliar o valor do comércio gerado. Avaliando o comércio internacional por pessoa, em preços constantes, verificamos que, nos séculos XVI e XVII, os lucros não são extraordinários. É preciso ter em conta o investimento e os custos associados à expansão, que vão desde a construção e manutenção de navios e a criação de fortalezas defensivas às perdas humanas nas viagens devido às doenças, à fome, às tempestades e aos diversos conflitos armados.
A partir do século XVII, a concorrência, nomeadamente no comércio oriental, esteve na origem de muitas guerras, em particular com a Holanda por territórios na Ásia, dos quais as posições mais importantes que Portugal conseguiu manter foram Goa e Macau. Só no ocidente, no Brasil, é que Portugal se manteve como potência colonial, devido à extração e transporte do ouro e à produção de açúcar. África era vista como fonte de escravos, mas os riscos associados às doenças, nomeadamente à malária, faziam com que os custos associados, tal como no Oriente, fossem demasiado elevados.
Analisando as receitas fiscais em percentagem do PIB verificamos que, na primeira metade do século XVI, as receitas centrais, incluindo império (PIB nominal) são de 2%, enquanto que, excluindo império, assumem valores de apenas 0,8%, ou seja, as receitas imperiais eram consideráveis. No entanto, isto só se volta a verificar no século XVIII onde, na primeira metade, incluindo o império, os valores registados eram de 5,2% e, excluindo o império, 4,1%. No século XVII a diferença era mínima: 0,5 pontos percentuais na primeira metade e apenas 0,2 na segunda.
Com isto, podemos concluir que sim, Portugal beneficiou-se em termos líquidos do império marítimo, no entanto, a sua importância foi pontual e limitada. Embora no século XVIII tenha tido um peso relevante não só para a coroa, mas também para a economia, não foi um elemento de crescimento sustentado, não sendo uma base sólida para o desenvolvimento de longo prazo, como se veio a verificar nos séculos seguintes com um atraso do país comparativamente aos restantes europeus.
Referências: Palma, N. (2025). As causas do atraso português. Fundação Francisco Manuel dos Santos
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