Opinião de Matilde Topa
Artigo exclusivo do site, publicado em Dezembro de 2025
No final do mês de outubro, a Vogue inglesa publicou um artigo com o título “Is Having a Boyfriend Embarrassing Now?” (Agora Ter Um Namorado É Uma Vergonha?).O artigo de Chanté Joseph gerou reações opostas e vários debates nas redes sociais, mas muito poucos passaram do título.
Na verdade, o ponto de interrogação não está lá por acaso. Chanté nunca afirma que ter um namorado é vergonhoso, simplesmente reflete sobre a forma como as pessoas mostram as suas relações amorosas e como os outros reagem na sociedade atual, principalmente, nas redes sociais. Assim, o artigo começa por descrever duas situações observadas pela autora. Primeiro, a autora indica ter notado que quando a presença digital de uma influencer ou criadora de conteúdo começa a girar em torno de um namoro ou namorado, a reação tende a ser negativa. Hoje em dia, as pessoas seguem alguém online porque se identificam com o seu conteúdo, e quando este perde a sua personalidade de repente para passar a centrar-se numa relação amorosa, essa conta simplesmente perde o interesse. Em segundo lugar, provavelmente como consequência da primeira situação, o artigo reporta que a presença dos namorados nos feeds começa a ser cada vez mais subtil, mostrando apenas uma mão ao volante, copos a fazer um brinde, a parte de trás da cabeça de uma pessoa, mas mostrando cada vez menos as caras dos seus companheiros, até mesmo em fotos ou vídeos de casamento.
No fundo, após refletir sobre possíveis razões, Chanté concluiu que não há problema nenhum em estar apaixonado, mas que também não há problema em tentar e falhar, ou não tentar de todo. A autora concluiu também que a nossa sociedade está, de facto, a mudar e uma relação amorosa já não tem a mesma importância. Em tempos, a principal ou única função da mulher no mundo era arranjar um bom marido, enquanto que hoje em dia uma mulher é definida por muito mais, porque o seu papel na sociedade mudou e as expectativas sociais evoluíram com ele.
Mesmo assim, as reações on-line foram bastante polarizadas. Dos dois lados encontramos pessoas que claramente não leram ou perceberam o artigo e reagiram simplesmente ao seu título, tendo estas sido as reações mais fortes quer positivas, quer negativas. No geral, as reações positivas vieram do público feminino, que concordou com as opiniões da autora e admitiu sentir esta mudança nas suas vidas pessoais. Já as negativas, vieram de um público mais conservador, que defende que o único problema no contexto atual são as mulheres que não estão bem com nada e que é a cultura “woke” que está a acabar com as relações amorosas.
Com isto, Chanté escreveu um segundo artigo, publicado em novembro, novamente na Vogue inglesa, onde reflete sobre as reações ao artigo original, adiciona alguns pensamentos e reforça as ideias do artigo de outubro. Para além disso, conclui que, apesar de vivermos em tempos supostamente evoluídos, continua a ser muito difícil olhar para e debater as dinâmicas das relações amorosas, o machismo e como este ainda afeta não só estas relações, mas também toda a realidade de dating moderna. Por fim, a autora afirma que se as reações ao seu artigo foram tão fortes, então, de facto,
“a forma como a nossa sociedade, principalmente o público feminino, encara o namoro está a mudar”
e que esta é uma conversa que vale a pena ter.
Por fim, não, ter um namorado não é vergonhoso. Contudo, no contexto atual, pode até ser pior uma pessoa definir-se apenas em função do seu namorado e não ter mais nada para mostrar do seu percurso. As mulheres já não se definem apenas em função dos seus namoros, mas sim pela sua educação, pelas suas carreiras profissionais, pelas suas amizades, pelos seus sonhos e objetivos e um monte de outras coisas que dizem mais sobre quem somos do que o facto de sermos ou não solteiras.
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