Fake news e inteligência artificial criam mentiras que acabam por gerar “verdades”, dando ênfase a uma certeza: o ser humano acredita em tudo o que quiser acreditar, mesmo que seja completamente absurdo. Contudo, isto não é algo característico da modernidade ou da tecnologia, simplesmente tornou-se mais “rápido”.

“o ser humano acredita em tudo o que quiser acreditar, mesmo que seja completamente absurdo”

As pequenas fofocas e contos influenciam claro, mas o maior problema nada mais era que mentiras vindas de autoridades. Comecemos por uma figura política: Octávio Augusto. Este usou slogans curtos em moedas, poesia e discursos públicos para pintar Marco António como um traidor bêbado e submisso a uma rainha estrangeira. Tudo isto com o objetivo de ganhar poder sem parecer um ditador, porque ele próprio recusava-se a ser chamado de tal coisa. Ele recusou o título de Rei ou Ditador, preferindo o título de Princeps civium (o “primeiro entre os cidadãos”), uma forma subtil de dizer: “Sou igual a vocês”. Uma empatia que os cidadãos queriam.

Vamos agora observar a maior autoridade na Europa durante a Idade Média, superior a qualquer rei: a Igreja. “Assim que a moeda no cofre cai, a alma do purgatório sai”. Esta autoridade espalhou a ideia de que o sofrimento no além era o destino de quase todos, a menos que se pagasse bem para encurtar a estadia no Purgatório. Obviamente, o conceito de que doar expurgava todos os pecados era irrealista, mas, sendo a morte e as injustiças tão presentes, era o que a população queria acreditar. A possibilidade de ir para um lugar melhor apenas por um custo monetário, conseguiu instaurar não só o medo, como também a esperança.

Retornando à atualidade, culpam-se os imigrantes por serem causadores da especulação imobiliária, da criminalidade e da perda de cultura. Demonizamos as minorias com o objetivo de esconder os verdadeiros culpados e ganhar poder. Já aconteceu. Voltemo-nos à Igreja. Para manter a população unida e obediente, a Igreja muitas vezes distorceu a verdade sobre quem pensava de forma diferente. Dizia-se que os Cátaros faziam orgias macabras e adoravam o demónio em forma de animal. Já os Templários, quando o Rei de França e o Papa se quiseram “livrar” deles para confiscar os seus bens, espalharam a informação de que eles cuspiam na cruz e praticavam rituais secretos heréticos. Desumanizavam o inimigo aos olhos do povo. Se a população acreditasse que aquelas pessoas eram monstros, ninguém se oporia a que fossem queimadas ou massacradas pela Inquisição.

Olhar para trás obriga-nos a encarar uma verdade desconfortável: a desinformação não sobrevive pelo poder dos seus criadores, mas sim pelo egocentrismo de quem a espalha. A “fofoca”, grande hobby da humanidade, sempre foi uma ferramenta útil, permitindo criar laços, definir quem pertence ao grupo e, acima de tudo, julgar o outro para nos sentirmos superiores. A ganância do poder e a necessidade de desviar o olhar à injustiça são, a este ponto, intrínsecas ao ser humano. Para sustentar esse desvio, criamos narrativas confortáveis que justificam a nossa apatia e nos protegem da culpa, tornando as zonas cinzentas algo demasiado comum. Afinal, acreditar no que queremos é mais fácil do que desenvolver pensamento crítico.