Opinião de Matilde Topa
Também incluído no FEPIANO 68, publicado em Junho de 2026
Desde a escola primária que memorizamos os nomes de reis, imperadores, políticos, soldados, revolucionários, inventores, cientistas, filósofos e autores, o seu nascimento, morte e respetiva contribuição histórica. Mas, enquanto estamos a lutar para decorar todos eles, não refletimos sobre quantos destes nomes são de mulheres, de pessoas de cor ou de pessoas queer.
Todos sabemos de cor quem inventou o telefone, mas nunca ninguém teve que memorizar o nome de Hedy Lamarr, a mulher que inventou o frequency-hopping e, portanto, o Bluetooth, GPS e Wi-fi. Todos estudamos diversos filósofos durante o ensino secundário, decoramos as teses defendidas por Platão, mas nunca ouvimos o nome de Diotima de Mantineia, nem aprendemos sobre a sua contribuição para a filosofia.
“sabemos de cor quem inventou o telefone, mas nunca ninguém teve que memorizar o nome de Hedy Lamarr”
Quando finalmente nos deparamos com esta realidade, pensamos logo na causa óbvia: antigamente as funções da mulher dentro da sociedade, bem como as expectativas que ditavam o seu comportamento, não permitiam que a mulher desempenhasse este tipo de papeis. Mas esta não é a única causa, e não justifica a falta de reconhecimento destes nomes sentida ainda hoje.
Primeiramente, devemos considerar o efeito Matilda, que consiste no preconceito sistemático que leva à desvalorização e apropriação do trabalho de mulheres e, muitas vezes, à atribuição do seu mérito aos seus colegas do sexo masculino. Por exemplo, a física Lise Meitner, que descobriu a fissão nuclear em 1938 e apesar da sua contribuição indispensável, foi apenas o seu colega Otto Hahn que recebeu o Prémio Nobel da Química em 1944.
Por outro lado, também podemos considerar que durante a História muitos homens simplesmente roubaram o trabalho das suas esposas. Antigamente, como é evidente, a mulher não teria qualquer forma de se defender contra o marido. Assim, muitas autoras, cientistas e poetas foram obrigadas a ver o seu trabalho plagiado pela pessoa que teria a função de as proteger. Por exemplo, segundo diversos relatos, uma grande parte do trabalho de F. Scott Fitzgerald foi plagiado, por vezes palavra por palavra, de diários e cartas da sua mulher Zelda Fitzgerald. Apesar do seu talento, a obra publicada pela própria Zelda foi muito mal recebida e criticada publicamente, principalmente pelo seu marido.
Para além disso, temos que considerar aqueles que nem chegaram a ter uma oportunidade. A quantidade esmagadora de pessoas que, ao longo da História, não tiveram a possibilidade de aprender a ler e a escrever. Ainda hoje, em muitos lugares do mundo as mulheres são proibidas de estudar e em outros muitas crianças não têm essa oportunidade. Qual teria sido o seu contributo? Quais seriam as suas descobertas e invenções? Como seriam as suas obras? Que mundo teríamos hoje se todos tivéssemos a oportunidade de aprender e criar?
Apesar do crescente reconhecimento das contribuições de todas as pessoas, independentemente do seu género, etnia ou sexualidade, é necessário começar a reconhecer e estudar todos estes nomes. Não só para quebrar o paradigma atual, mas também para diversificar o nosso conhecimento, melhorando assim o nosso entendimento do mundo que nos rodeia e da nossa sociedade.

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