Opinião de Martim Pereira
Também incluído no FEPIANO 68, publicado em Junho de 2026
A relação que um tem com o sistema governativo diz muito sobre a sua visão do abstrato. Um radical é, a meu ver, alguém absolutamente adverso à ideia “é assim que as coisas são”, simplesmente porque isso não é uma resposta satisfatória. No entanto, isso não significa que vá desmerecer as virtudes dos tempos correntes.
Devo ser a única pessoa que não se ri ao ouvir a expressão “centrista radical”, pelo que, para mim, faz um sentido irrisório. O radicalismo não tem de ser necessariamente sustentado por leituras políticas caprichosas. Em sentido estrito, por oposição ao moralismo, vem da rejeição de que o status quo, por mais meritório que seja para quem por ele lutou, não deve ser questionado. Um extremista, por outro lado, tem visão de túnel. Um extremista quando edifica destroi. Implodiria com todo o sistema de administração pública, por vezes, no sentido literal, apenas por uma vitória cultural. Por isso, cabe a todos os moderados ambicionarem um melhor futuro enquanto desfrutam da plenitude (ocidental) do presente.
Nos últimos tempos, o feudalismo tem sido invocado com alguma frequência, por exemplo, pelo ex-ministro das finanças Yanis Varoufakis, que veio academizar a teoria do tecno-feudalismo, já cunhada há algum tempo. Não que eu venha aqui de alguma forma contestar essa tese, longe de mim. Apenas acho que este aumento de significância do termo nos devia fazer pensar mais um pouco sobre ele.
A economia, a ciência política e a sociologia são ciências sociais, pelo que são impossíveis de serem analisadas ao microscópio. No entanto, o que foi o feudalismo se não um estado microscópico? No feudo, também se tributava o trabalho, e, em troca dessa tributação, prestava-se um serviço, que, neste caso, se cingia à segurança. Um estado minárquico, portanto. Contudo, não foi o aumento do papel do estado que subiu o nível de vida possível desde os tempos feudais até os dias que correm. O aumento de recursos, e os avanços tecnológicos criaram a possibilidade de uma pessoa de classe média viver hoje melhor do que um senhor feudal. Mas, se a sociedade fosse ainda tão piramidal, para os mesmos recursos, o nível de vida efetivo das pessoas seria significativamente mais baixo. É necessário administrar esta nova riqueza, e é aí que entra o Estado, que, na sua dependência da adoração do povo, tem como condição de sobrevivência manter uma classe média dependente do seu apoio, mas confortável com o seu serviço.
“No entanto, o que foi o feudalismo se não um estado microscópico”
Não digo isto apenas como uma espécie de conjugação de leituras políticas monárquicas liberais e marxistas estadistas, o moralismo deste pensamento é mais simples do que esse. Apenas quero evidenciar que, por mais falhas que a democracia tenha, por mais erros que os nossos executivos cometam, é-me muito fácil dizer que vivemos na melhor fase da História para se estar vivo, não só porque hoje abundam cuidados e serviços dos quais os anteriores a nós não podiam usufruir, mas, porque temos o direito de nos fazer representar por pessoas que garantirão o acesso desses serviços a quem não pode, financeiramente, convencer outros a prestarem-lhos.

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