Apesar de nunca se ter falado tanto de inclusão e acessibilidade, para muitos, hoje em dia, a simples tarefa de comprar roupa continua a ser equiparável a uma guerra. Para além do óbvio problema de acessibilidade a tamanhos plus-size, o mercado atual não está preparado, ou sequer pensado, para várias outras pessoas.

“o mercado atual não está preparado, ou sequer pensado, para várias outras pessoas.”

Quer pensemos em pessoas mais altas, mais baixas, com mais ou menos curvas, ou com uma figura que simplesmente não encaixam no corpo considerado “padrão” pelas marcas de roupa, ou até pessoas com complicações genéticas como nanismo, muitos veem-se obrigados a comprar algo que não assenta, e eventualmente acaba no lixo, ter que gastar dinheiro a alterar as peças de roupa ou até fazer as peças do zero.

Para muitos, pode parecer que apresentar a falta de opções como problema é pura vaidade, mas o modo como nos vestimos e a forma como nos apresentamos na sociedade cada dia pode representar quem somos, o que queremos ser e até o nosso lugar no mundo.

Assim, não disponibilizar as mesmas opções ou até a mesma variedade para quem não encaixa nos “tamanhos base” do mercado pode contribuir para um sentimento de frustração e alienação e até para uma perda de autoestima.

Além disso, no que toca à inclusividade e até representação plus-size, muitos dispensam o assunto. As justificações são variadas mas costumam partir do sentimento de que “não é um verdadeiro problema porque só afeta pessoas obesas, cuja vida não deve ser facilitada porque só têm que perder peso para resolver os seus problemas”. Mas não é por ignorarmos a existência destas pessoas, negando algo tão essencial para o nosso lugar na sociedade, quanto a forma como nos apresentamos, que o problema vai deixar de existir. Na verdade, as pessoas que se encaixam na categoria plus-size, a maior parte das vezes não são doentes obesos, mas simplesmente têm uma estrutura um pouco diferente, alguma questão hormonal ou de saúde que nem se quer lhes permite perder peso, ou até estão a passar por um processo de recuperação, que é demorado e ocorre em fases. Mesmo assim, negar às pessoas obesas o acesso à roupa é tão ridículo quanto dizer que alguém com qualquer outra doença (sim, porque a obesidade é uma doença, muito mais complexa do que parece) não devia ter acesso a roupa. No extremo, não é como se pudéssemos andar sem roupa na rua, já que é ilegal, e portanto, precisamos todos de ter acesso a ela, sendo este considerado um direito humano.

Primeiramente, apesar de esta questão partir um pouco de todos nós, existem marcas que claramente contribuem mais para para ele do que outras. Mesmo apenas oferecendo um tamanho para cada artigo, supostamente one size fits all, o que obviamente não se concretiza, muitas destas continuam a estar no topo e a ser marcas de referência nas redes sociais. Por exemplo, a marca “Brandy Melville”, muito popular nas redes sociais, principalmente com o público adolescente e feminino, que oferece apenas um tamanho em todos os seus produtos. Muitas vezes, quem não consegue vestir os produtos da loja, acaba por comprá-los na mesma, ou por peer pressure, ou porque “vou perder peso e um dia vai servir”, ou porque até serve, mesmo que não fique bem. No fim, estas peças acabam no lixo, afetando negativamente o ambiente e, infelizmente, a autoestima de quem comprou, principalmente considerando que o público alvo são adolescentes, que, quase por definição, já lutam com essa questão diariamente.

Por outro lado, o fenómeno vanity sizing, acaba por contribuir para a dificuldade sentida pelos consumidores. Este consiste na prática das marcas de roupa de etiquetar as peças com um tamanho menor do que o real, de modo a agradar os consumidores dando a entender que vestem um tamanho mais pequeno. Portanto, aumentando o verdadeiro tamanho das roupas, eliminando a opção daqueles que de facto vestem o tamanho menor. Com isto, principalmente graças ao crescimento do online shopping, muitas vezes acabamos por comprar o tamanho errado, não porque o nosso corpo mudou, mas graças à inconsistência dos tamanhos de loja para loja.

“o fenómeno vanity sizing, acaba por contribuir para a dificuldade sentida pelos consumidores.”

Por fim, muitas marcas limitam-se a deixar a inclusão no marketing, oferecendo produtos plus size de menor qualidade e muitas vezes a um custo mais elevado, ou apenas oferecendo opções adaptadas para poucas peças. Com isto, contribuindo para o sentimento de alienação e frustração de quem precisa dessas opções.

Na realidade, este é um problema com muitas nuances, e que, infelizmente, não é tão fácil de resolver quanto parece. Tanto é que a solução mais óbvia, adicionar mais tamanhos, acaba por ser um pouco enganadora no que toca à sua simplicidade. Isto é, esta solução tem custos elevados e o processo de alterar o padrão de uma peça de roupa, de modo a não perder o seu formato e manter a mesma aparência num tamanho maior ou mais pequeno, carece de cuidado, dedicação e muito mais alterações estruturais do que pensamos. Assim, este processo pode tornar a peça num tamanho alternativo mais cara, o que não resolve o problema de acessibilidade de todo.

Para além disso, outra solução passa por promover a adaptabilidade das peças, ou seja, aumentar a quantidade de tecido nas margens das peças de roupa (o pedaço de pano que se “dobra” para dentro), de modo a haver mais “espaço de manobra” para alterar a peça, idealmente com recurso a um profissional, como uma costureira. Assim, o alcance dos tamanhos base pode até triplicar e as peças de roupa têm a possibilidade de durar uma vida inteira, já que o nosso corpo muda ao longo dos anos, e assim estas peças podem mudar com ele. Apesar de também apresentar algumas dificuldades e mais custos, e mesmo não sendo tão prático quanto deitar fora e comprar novo, esta possibilidade de alterar uma peça, para além de apoiar a mão de obra qualificada, que está a perder importância, também promove a sustentabilidade.

No fundo, apesar do problema partir principalmente do lado das marcas, a solução parte de cada um de nós. Mesmo não sendo sempre cómodo ou conveniente, é importante promover as marcas que levam este assunto com empatia e seriedade nas suas propostas para construir um futuro melhor para todos e não esquecer as dificuldades dos outros, mesmo que não nos afetem diretamente, especialmente considerando que as soluções andam de mão dada com a sustentabilidade.