Conduzida por Carolina Góis e Sara Arêde
Também incluída no FEPIANO 65, publicado em Março de 2026
Catarina Oliveira é nutricionista, formadora e ativista na área da deficiência e inclusão. É Head of Academy no Access Lab e embaixadora da Associação Salvador, dedicando-se à promoção da acessibilidade, comunicação inclusiva e combate ao capacitismo. Através do seu projeto digital “Espécie Rara Sobre Rodas”, partilha conteúdos que cruzam informação, humor e reflexão, com o objetivo de tornar a inclusão mais próxima, compreensível e presente no dia a dia.
Como surgiu o projeto @especierarasobrerodas e o que a motivou a começar a falar publicamente sobre deficiência?
Basicamente, o meu projeto surgiu sem ser um projeto, ou seja, quando adquiri a minha deficiência há 10 anos comecei a falar no meu Instagram pessoal, nem usava muito na realidade, usava mais o Facebook na altura. Mas comecei a partilhar um bocadinho do que era o meu dia a dia, algumas coisas que eu ia passando, quer obstáculos de acessibilidade, quer também situações mais caricatas. Comecei a falar sobre isso no Instagram. Eu própria estava surpreendida, primeiro, com a inacessibilidade dos sítios e, depois, com a forma tão diferente como algumas pessoas me tratavam ou alguns episódios caricatos que acabei por passar por ter uma deficiência. Fui partilhando e acho que as pessoas também se foram identificando quer como pessoas que faziam aquilo, se calhar muitas vezes sem querer, quer como pessoas que nunca se tinham apercebido de algumas barreiras que eu dizia e também obviamente pessoas com deficiência que se identificavam com algumas coisas coisas que eu estava a partilhar. E acho que foi por aí que começou a crescer o projeto e que tem crescido até hoje.
Ao longo do tempo, o que sente que tem mudado mais na forma como as pessoas reagem ao seu conteúdo?
Olha, eu acho que, ao longo do tempo, o que eu reparo é que existem pessoas que já me seguem há algum tempo e que estão mais alerta para determinadas coisas, muitas pessoas vão partilhando coisas que sabem que faz sentido partilhar comigo ou ali na minha página, porque já me seguem há algum tempo. Acho que também, com algumas das minhas partilhas e pessoas que também me vão seguindo, as pessoas ficam mais alerta para reclamar ou para sensibilizar determinados sítios para que se tornem mais acessíveis. Também acho que, hoje em dia, o meu Instagram acaba por ser uma plataforma de informação onde as pessoas muitas vezes podem ir lá e partilhar algo, por exemplo, “Catarina, nunca viajei de avião numa cadeira de rodas” ou “Vou levar alguém a viajar de avião e desloca-se em cadeira de rodas, sabes como é que se processa?”, e eu tenho um destaque sobre isso. Portanto, acho que é mais por aí. Ao longo dos anos, tenho visto que tenho construído ali, digamos, uma plataforma onde as pessoas podem ter alguma informação, mas também podem partilhar algumas pérolas de acessibilidade, boa ou má. Acho que tenho construído essa comunidade. Ao longo do tempo vão mudando coisas também muito à custa do que se partilha no meu projeto, digamos assim.
Quando falamos de representatividade de pessoas com deficiência, o que ainda está a faltar nos media e na cultura? O que seria para si uma representação mais realista e justa da deficiência?
Eu acho que o que está a faltar ainda hoje em dia é de facto a realidade, ou seja, acho que a representação das pessoas com deficiência, salvo exceções, que já as existem, ainda não é uma representação real, é muito estereotipada, como aliás nós vemos com outros grupos subrepresentados.
Por exemplo, a comunidade LGBTQIA+, geralmente é muito estereotipada. Ainda no outro dia estava a ver uma notícia que era alguém a dizer que a personagem gay era sempre o amigo da personagem principal e era alguém que também estava sempre ali a ajudar a diva, ou assim. Isto é, que não tem um papel principal, ou é raro ter um papel principal, e eu nunca tinha pensado sobre isso, e é verdade, muitas personagens, homens gays geralmente, estão ali para apoiar uma diva, ou como uma personagem quase secundária de alguém que está ali.
Com a deficiência, acho que há sempre o estereótipo de, ou é alguém que por castigo adquiriu uma deficiência e que com isso até ficou uma pessoa melhor, parece que a deficiência transforma as pessoas em pessoas melhores. Ou então, estou-me a lembrar daquele filme que é super conhecido, o “Viver depois de ti” (Me Before You) que é sobre um homem rico que fica tetraplégico e que depois se quer matar, mas encontra um amor, uma mulher sem deficiência, e graças à mulher sem deficiência decide que já não se quer matar, que já vale a pena viver. Por outras palavras, a ideia de que a deficiência é o fim da linha e que se arranjares alguém que te salve, a tua vida pode voltar a ser completa. Como se não houvesse pessoas completas com uma deficiência e sem ninguém, ou sem nenhuma história de amor. Portanto, claro que existem pessoas que, com certeza, graças a uma história de amor, deram um novo significado à sua vida. Mas o que eu sinto é que a representação é sempre ou do coitadinho, ou do super-herói, do exemplo de superação, por fazer coisas corriqueiras e do dia-a-dia. Não acho que haja uma representação real. É muito raro vermos uma pessoa com deficiência como um vilão, embora já se veja um ou outro, mas é raro, ou como alguém que é o protagonista da história e que em nada tem a ver com a sua deficiência, ou seja, há sempre uma menção à deficiência. Por exemplo, ainda recentemente estava toda a gente a mandar-me uma série que estava na Netflix, porque não percebiam, achavam que era um erro de realização, porque havia uma personagem que às vezes se deslocava sem cadeira de rodas e outras vezes estava de pé. E eu fiz um vídeo até a explicar sobre isso, que a personagem é uma pessoa que tem uma deficiência na vida real e tem uma deficiência que não é contínua, ou seja, ela nem sempre precisa da cadeira de rodas, precisa da cadeira de rodas para longas distâncias.
No fundo, o que eu sinto é que falta uma representatividade real. Não precisa de ser sempre, embora eu ache que é uma mais-valia, porque nós temos um grupo de pessoas que não consegue aceder a esses papéis tão facilmente, portanto, é uma mais-valia nós termos atores e atrizes com deficiência a representar esses papéis. Mas quando não é possível, ou porque queremos retratar o antes e depois de uma deficiência, e não é possível, por exemplo, a mim porem-me a andar quando querem retratar a minha vida a andar, mas que haja pessoas com deficiência a ajudar naquela realização, porque isso faz toda a diferença.
Algum exemplo de algum filme ou de alguma série assim que a tenha surpreendido pela positiva?
Isto não é um bom exemplo, porque não estou a adorar, mas estou a ver a série The Good Doctor, que é com um médico autista, mas há ali algumas questões. Mas lembro-me de um filme francês cuja protagonista tem uma deficiência, que está muito bem feito e achei muito interessante. Lembro-me de uma série também que esteve agora na Netflix, que se chama “A Mãe dos Pinguins”, que é sobre crianças autistas e explora a maternidade de crianças autistas, e eu também gostei, achei uma boa representação.
Há outras, há algumas, mas não me lembro assim nenhuma de cabeça, mas eu posso vos enviar depois por e-mail, que eu até tenho aqui registrado algumas séries que gostei.
Muitas vezes as pessoas ficam entre o medo de ofender e o desconhecimento. Como é que se pode encontrar um equilíbrio saudável na interação? O que gostaria que todas as pessoas soubessem antes de interagir com alguém com deficiência?
Eu gostava que as pessoas soubessem que estão a interagir com uma pessoa. E portanto, a pessoa pode ser uma boa pessoa, uma má pessoa, pode ser mal disposta, bem disposta, e isso nada tem que ver necessariamente com a sua deficiência.
Eu acho que nós nem nos apercebemos muitas vezes que os estereótipos que nós temos sobre aquela pessoa moldam a forma como nós interagimos com aquela pessoa. Portanto, se eu acho que aquela pessoa é uma pobre coitada, ou que aquela pessoa é uma eterna criança, eu ajo com aquela pessoa de uma forma infantil, ou imponho-lhe a minha ajuda, ou acho muito estranho quando a pessoa afinal tem uma vontade própria, porque não é essa a ideia que inconscientemente tenho de uma pessoa com deficiência.
Portanto, eu acho que o desconhecimento é legítimo. Eu própria antes de adquirir uma deficiência não tinha conhecimento nenhum sobre a deficiência. Embora, eu acho que nós não precisamos de adquirir uma deficiência para ter conhecimento sobre a deficiência, mas o desconhecimento é legítimo. Agora, pensar sempre que estou a falar com uma pessoa que de facto tem ali uma característica que pode ser ou não visível. Se eu vejo uma cadeira de rodas, se eu vejo um cão-guia, se eu percebo que alguém é surdo, se eu percebo que alguém tem ali algumas características que me levam a pensar que pode haver ali alguma neurodivergência, independentemente, eu estou a falar com a pessoa. Portanto, adaptar a comunicação àquela pessoa, mas não tratar como uma criança um adulto, não impor ou não assumir que nós sabemos o que é que é melhor para aquela pessoa só porque ela tem uma deficiência. É muito comum, pensar: “Eu ajudo que é mais fácil” ou “deixe que eu faça por si”,” não, eu já sei que não vai conseguir”.
Portanto, todas estas questões de assumir que sabemos o que é que é melhor para aquela pessoa só porque ela tem uma deficiência, quando não fazemos isso com mais ninguém e, tentar ter uma interação natural, sabendo que, eventualmente, se calhar, se nós nunca comunicamos com uma pessoa surda, por exemplo, pode haver ali um momento em que nós pensamos: “Meu Deus, como é que eu vou fazer esta comunicação acontecer? Estou a tentar falar, mas estou a perceber que a pessoa não me ouve, também não me parece fazer leitura labial. Será que eu posso escrever? Será que eu posso fazer gestos simples?”.
No fundo, acho que, às vezes, as pessoas estão com tanto medo do awkward e do constrangedor ou de errar, que tornam tudo ainda mais awkward. Não há problema se disserem alguma coisa ao lado e se a pessoa vos chamar a atenção por algum motivo, desde que haja respeito, ou seja, pedir desculpa, dizer que não sabiam, como é que podem fazer melhor e, sobretudo, respeitar e ouvir a pessoa com quem vocês estão a falar, porque fazemos isto com toda a gente. Se vamos interagir com alguém, à partida, vamos ouvir o que a pessoa tem para nos dizer. Se fizermos uma pergunta, vamos ouvir a resposta. Com as pessoas com deficiência, muitas vezes, isto não acontece, já estamos a ouvir à espera de falar.
Há algo que gostasse que as pessoas perguntassem mais sobre deficiência? E que mito sobre pessoas com deficiência gostaria de ver desaparecer?
Um deles é o de muitas vezes se achar que nós somos todas eternas crianças e isto depois resvala para muitos outros mitos. Como pensar-se que não temos vida amorosa, que não podemos criar uma família, que não temos vida sexual, o que posteriormente depois disputa outros mitos: que não precisamos de determinados exames médicos, que não precisamos de abordar determinados temas em consulta médica, porque não temos essa parte da nossa vida, que não podemos ser pessoas com deficiência e fazer parte da comunidade LGBTQIA+, por exemplo. Ou seja, existe o mito de que não há aqui uma interseccionalidade que na verdade há. Depois outro mito é o de que precisamos sempre de ajuda, ou seja, que a nossa vida é uma eterna dependência do outro, o que pode ser ou não ser. E o facto de nós precisarmos de ajuda não nos deveria retirar a nossa autonomia, ou seja, a nossa capacidade de decidir, a nossa capacidade de perceber o que é que queremos e o que é que não queremos. Portanto, esta ideia também de que nós não somos capazes, não somos válidos, não podemos ter a nossa opinião ou que não podemos ter o nosso valor. Adicionalmente também se tem uma ideia de que tudo o que nós fazemos também é espetacular. Exemplificando, uma pessoa com deficiência tem um negócio de artesanato, tu olhas para aquelas peças e achas aquilo horrível, mas até dizes que é muito giro, porque a pessoa que fez as peças tem uma deficiência. Estou a dar este exemplo drástico para se perceber que as pessoas com deficiência podem ser boas, podem ser más, podem realmente ser fantásticas, se de repente salvam uma pessoa num incêndio, ou fazem algo incrível, ganham um prémio, tudo bem. Costumo dizer muito isto a brincar: estou a descascar uma laranja e de repente sou incrível porque consigo descascar a minha laranja sozinha, ou às vezes dizem-me “tu namoras e tens uma deficiência”, ou “tens um curso superior e tens uma deficiência”, ou “falas muito bem para alguém com deficiência”. Isto, no fundo, o que propõe é que as expectativas daquelas pessoas para connosco são as mínimas, não é?
Ia lançar um vídeo hoje em que falava precisamente sobre isto por causa das paralimpíadas. Estão agora a acontecer as paralimpíadas de inverno e há muito a ideia de que “uau, este é um atleta dos paralímpicos apesar de ter uma deficiência”. Na realidade as pessoas nem se apercebem que é suposto as pessoas dos paralímpicos terem todas uma deficiência, portanto, isto é uma condição, não é uma exceção. Por outro lado, existe o outro extremo, que é a pergunta “tens uma deficiência, porque é que não jogas nos paralímpicos?”, como se os atletas paralímpicos só fossem lá sair um bocado de casa. Estas pessoas são atletas de alta competição, treinam anos para aquilo. Há uma desvalorização, se não é por um lado, é por outro. Portanto, acho que estes mitos ainda têm de cair. E lá está, uma coisa que eu gostava que todas as pessoas soubessem, mas soubessem realmente, porque às vezes isto é tomado como óbvio é: a forma como tratam uma pessoa com deficiência não é igual à que tratam uma pessoa sem deficiência, e quando não é igual sendo que muitas vezes é inferior, é importante realçar que estão a falar com uma pessoa. E portanto, se estão a falar com uma pessoa, têm de ver a pessoa antes da sua deficiência. Isto não quer dizer que se deve ignorar a deficiência, não. Isto também nos dá a legitimidade de tomar consciência de que estamos a falar com uma pessoa com deficiência e nem sequer estar a gostar de falar com ela e está tudo bem. Eu não tenho de me sentir culpada só porque a pessoa é cega. Ou então, eu estou a falar com uma pessoa com deficiência e efetivamente, estou a falar com outra pessoa qualquer, porque é uma pessoa. Portanto, esta humanidade, esta visibilidade na pessoa, e não com um foco exclusivo na deficiência, acho que era algo que gostava que as pessoas soubessem, ou pelo menos refletissem com mais intenção.
É verdade que muitas vezes as pessoas são “meio estrelinhas”, mas muitas vezes as pessoas metem conversa comigo devido a uma curiosidade meia mórbida, ou capacitista, sobre o que é que me aconteceu. Depois, às vezes, há coisas muito ténues. Ainda no outro dia, estava num sítio qualquer, já nem me lembro onde é que era, mas era um sítio de atendimento ao público, e eu estava sozinha, e de repente entrou uma senhora, que eu vi que estava a olhar imenso para mim. Estava meio a querer meter conversa, mas claramente era para perceber o que é que me tinha acontecido. Não era assim uma conversa de circunstância, que às vezes também acontece. Como eu não lhe dei bola, eu estava com o telefone e não tirei a cara do telefone, a senhora, ao sair, disse do género “pronto, então adeus, menina, olhe, muita saudinha”. Isto foi algo que foi dirigido a mim, porque ela só via a cadeira de rodas, e portanto pensou que eu era uma menina que estava doente, e portanto achou por bem desejar “saudinha”. Claro que foi com a melhor das intenções, mas, sinto que as pessoas, muitas vezes, veem só a deficiência. Eu gostava que as pessoas pudessem ver a pessoa que existe por trás e perguntar outros interesses da pessoa. Por exemplo, no meu caso, e obviamente que, no meu Instagram acaba por acontecer, porque acho que as pessoas que estão lá também já me veem para além da minha cadeira de rodas, mas perguntas sobre a maternidade, por exemplo, eu sou mãe agora, e muitas coisas que eu passo da maternidade não têm nada a ver com a deficiência. Eu, por exemplo, agora estou a dirigir um projeto para jovens com deficiência. Nós damos workshops e tudo mais para estes jovens com diferentes deficiências e uma colega com quem eu trabalho diz muitas vezes algo que acho super interessante: a maior parte das questões ou dos “problemas” que estes jovens têm, não têm nada a ver com a deficiência, mas sim com a adolescência, com serem jovens, com estarem a descobrir os amores, os desamores ou as festas. Ou seja, ver a pessoa para além da sua condição, não ignorando a sua condição. Entender que nós gostamos de namorar, de sair à noite, de ir a festivais, de criar uma família, de trabalhar, de criar e, que não estamos confinados à nossa condição.
Como surgiu a oportunidade de se tornar responsável pela Academia Access Lab?
Eu não sei exatamente como é que começou. A Access Lab é uma startup de impacto que nasceu com uma pessoa com deficiência e uma sem deficiência, o Tiago e a Joana, e lembro-me que o Tiago na altura, quando ele ainda estava em processo de construção da Access Lab, falou comigo no Instagram, porque tinha uma dúvida mais pessoal relacionada à deficiência e começamos ali a falar. Quando ele abriu a empresa, a Access Lab, na altura eu creio que ele me convidou para fazer uma academia, portanto, fazer uma palestra, mas a título quase individual, e eu aceitei. E fiz, e construímos também em conjunto e replicamos em alguns momentos de uma forma mais informal e mais quase como colaboradora externa. Até que houve um momento em que efetivamente eles me propuseram fazer parte da empresa, e eu sou colaboradora da Access Lab, enquanto responsável da Academia Access Lab, para tornarmos a academia efetivamente uma coisa mais consistente, que nós vendemos a empresas, organizações e mais, para que as pessoas possam, à semelhança de como se chama a nossa academia, compreender de facto a deficiência e tudo o que ela envolve. Também mostrar um bocadinho o nosso trabalho, porque a Access Lab trabalha quer na parte do entretenimento, da cultura, do desporto, também agora no acesso ao emprego, e mostrar às pessoas que nos contratam, digamos assim, as adaptações e a evolução que nós temos conseguido na acessibilidade e na inclusão da pessoa com deficiência em todos estes mundos que muitas vezes não pensamos na pessoa com deficiência. A pessoa com deficiência vai a um festival de verão? Vai a um jogo de futebol? Vai a um teatro? Vai a um concerto? Tudo isto nós trabalhamos na Access Lab e depois, a academia no fundo é este momento de formação, para que os profissionais também estejam capacitados para receber as pessoas com deficiência. Ter um teatro mega acessível é melhor do que nada, mas depois a pessoa vai lá e é tratada de uma forma completamente condescendente ou infantilizada, não serve de muito. Portanto, a academia também serve para trabalhar as atitudes das pessoas que depois se vão relacionar ou interagir com as pessoas com deficiência. Tem sido espetacular, e agora lá está, por exemplo, este projeto que eu vos falei, o Relatable, também faz parte da Access Lab. Este foi um projeto que nós criamos, eu, o Tiago e a Joana, a pensar nesta questão do abandono escolar, porque há um abandono escolar muito superior nos jovens com deficiência, e, portanto, criamos este Relatable, que no fundo também tem momentos de academia, de workshops, que sou eu que dou, para um grupo de jovens com deficiência, para que eles se possam não só manter na escola, no ensino secundário, como também irem para o ensino superior e terminarem o ensino superior, que também é uma grande questão, por inúmeras barreiras. Tem sido muito rico este momento de formação, neste caso, para pessoas com deficiência, surdas e neurodivergentes.
Para quem ainda não conhece o termo, como explicaria o capacitismo? Quais são exemplos deste que passam despercebidos na sociedade?
O capacitismo é um conjunto de atitudes ou de normas e ideias, no fundo, que discriminam a pessoa com deficiência. Tal como existe o machismo, o racismo, a homofobia. O capacitismo é um sistema de discriminação contra a pessoa com deficiência que é muitas vezes materializado em atitudes.
Ou seja,neste caso, analisando a perspetiva do capacitista, com as nossas atitudes o que estamos a dizer é que a pessoa é menos válida, ou menos capaz, ou menos merecedora do que a pessoa sem deficiência, de várias formas.
O facto de olharmos para uma pessoa com deficiência e de vermos uma eterna criança, falarmos com linguagem infantil com uma pessoa que é adulta, portanto, colocando-a num lugar que ela não deveria ocupar. Uma pessoa adulta não deve ser tratada como uma criança, mesmo uma pessoa com uma deficiência cognitiva que possa precisar de uma linguagem mais simples não precisa, se for um adulto, de ser tratado de uma forma infantil, porque depois, mais uma vez, isso leva a que determinados assuntos que nós não abordamos com crianças também não vamos abordar com pessoas que são adultas e que precisam, para sua própria proteção, de abordar esses determinados assuntos, como disse anteriormente, a sexualidade é um deles e acho que é o mais flagrante.
Depois, o capacitismo também é esta ideia de que as pessoas com deficiência não são tão válidas quanto as pessoas sem deficiência. E, portanto, das duas uma: qualquer coisa que elas façam é espetacular, mesmo que seja uma coisa totalmente corriqueira.
Depois também há esta ideia de que não podemos criticar ou dar feedback honesto a uma pessoa com deficiência por causa desta pena que o capacitismo faz que nós sintamos para com as pessoas com deficiência. Isto é muito pernicioso, porque não deixa as pessoas com deficiência melhorarem. Se nunca ninguém me diz que o que eu estou a fazer está mal, eu nunca vou conseguir melhorar, eu nunca vou conseguir evoluir e, portanto, isto também é muito mau.
Eu lembro-me de uma vez de uma rapariga que tinha uma deficiência motora, que não tinha nenhuma deficiência cognitiva, e eu digo isto porque é importante que as pessoas saibam, que dizia que um professor insistia sempre que ela não tinha de fazer os trabalhos de casa: “Ah, não, tu não te preocupes, que não tens de fazer os trabalhos de casa.” Isto não foi assim há tantos anos. Portanto, uma rapariga está na escola com a sua deficiência motora e, como os adolescentes costumam não querer fazer nada, pode não perceber que, se ela não tiver de fazer os trabalhos de casa e estudar como os outros, depois, mais à frente, quem vai pagar o preço é ela, não é mais ninguém.
Por isso, lá está, esta ideia de que a pessoa é menos válida, é menos competente, é um objeto de pena.
E, portanto, isto vai deixando sempre a pessoa com deficiência internalizar que não é capaz, que não é tão válida, que aquele lugar não é para ela, que ela não pode exigir isto porque, no fundo, é um fardo para a sociedade.
E, portanto, o capacitismo vai fazendo isto, quer com as pessoas com deficiência quer com as pessoas sem deficiência, espalhando-se para a forma como tudo é construído, como a sociedade é construída. Se nós não vemos as pessoas com deficiência nos sítios, vamos construindo coisas que não são para as pessoas com deficiência.
Mesmo que exista legislação, as pessoas muitas vezes escapam a essa legislação e, como não existe uma fiscalização apertada, ainda temos muitos espaços que não são convidativos ou que nem sequer são possíveis para as pessoas com deficiência acederem.
Na sua opinião, o mercado empresarial português e os processos de recrutamento são realmente imparciais quando se trata de diversidade e inclusão de pessoas com deficiência motora?
Eu acho que, desde 2019, a lei das quotas, ou seja a obrigatoriedade de contratarmos pessoas com deficiência com incapacidade superior a 60%, embora não seja uma medida perfeita , nem é por causa da lei das quotas que tudo vai ficar resolvido , mas esta esta medida de afirmação positiva, como é falada, existe, não para beneficiar ninguém nem para tirar mérito a ninguém, mas para dar espaço e criar oportunidades equitativas para que as pessoas com deficiência possam também estar no mercado de trabalho. Isto não quer dizer que todas as pessoas com deficiência só vão conseguir ingressar no mercado de trabalho através de uma quota, nem quer dizer que uma pessoa com deficiência que seja contratada ao abrigo de uma quota não tenha o seu mérito nem o seu valor. Quer dizer que a balança está muito desequilibrada e esta é uma medida para tentar equilibrar a balança.
Porque nós temos de ser honestos, e quem acha o contrário é porque não está efetivamente no meio ou na realidade. Muitas vezes há pessoas com deficiência que têm quer hard skills, quer soft skills para uma determinada vaga, mas as empresas, quando sabem que ela tem uma deficiência, não a contratam ou optam por outra pessoa similar. Arranjam-se facilmente desculpas para não a contratarem, muitas vezes por receio de não saber incluir aquela pessoa ou acharem sempre que não estão preparadas e muitas vezes até estão, ou muitas vezes não percebem que o primeiro passo para a preparação é contratar a pessoa. Claro que temos de ter as condições mínimas: a pessoa tem de conseguir aceder ao escritório, se for o caso.
Mas muitas vezes o primeiro passo é a contratação e é isto que muitas vezes as quotas vêm tentar equilibrar.
Agora, o mercado de trabalho e, em específico, o recrutamento, acho que têm evoluído nesse sentido. Uma parte pela razão legal, que é esta razão das quotas, mas também por uma razão de negócio e moral: perceber que a diversidade é boa para as empresas e é boa para as equipas. É boa para tudo. E, quando falo de diversidade, não falo só de deficiência.
Mas acho que nós precisamos de falar sobre o nosso próprio capacitismo, as nossas ideias enviesadas. Quem faz recrutamento são seres humanos. Seres humanos são capacitistas. Se nunca ouviram falar sobre a deficiência, também vão reproduzir este capacitismo. E, portanto, não basta nós termos uma empresa a dizer: “Ah, sim, nós recebemos aqui toda a gente.” Mas depois o recrutador está a entrevistar 100 pessoas e tem ali imensos vieses de que nem sequer se apercebe, e deixou de parte pessoas racializadas, pessoas com deficiência, pessoas que não são semelhantes a ele, sem saber sequer porquê, e foi escolher outras pessoas mais parecidas com ele.
Eu acho que temos de trabalhar aqui mais na formação, na capacitação das pessoas que fazem o recrutamento e também nas lideranças das equipas para que a pessoa se possa sentir bem no mercado de trabalho, para que a pessoa com deficiência possa estar, de facto, verdadeiramente incluída numa empresa e possa ter um processo de recrutamento e de onboarding inclusivo e equitativo.
Não adianta nós acharmos que, preenchendo uma quota, está tudo feito, porque há muitas pessoas que estão contratadas ao abrigo de quotas e estão completamente fora do ambiente da empresa. Não têm possibilidade de progressão e estão lá apenas para cumprir uma quota. Não é isso que nós queremos. Nunca foi esse o objetivo das quotas.
Muitas pessoas associam acessibilidade apenas a rampas ou elevadores. Que outras dimensões são frequentemente esquecidas? Que mudanças simples poderiam tornar os espaços públicos mais inclusivos?
A acessibilidade tem várias dimensões. Há vários frameworks. Temos a acessibilidade física, os espaços, e à medida que vou falando da acessibilidade, os espaços públicos podem ser mais inclusivos, tendo mais acessibilidade física. Rampas, pisos lisos, espaços amplos, espaços que tenham uma acessibilidade física boa, mas que também se consiga conciliar isso com um espaço bonito e com natureza. Parece que tudo que é acessível tem de se tirar as árvores e isso não é verdade. Portanto, conciliar esta beleza e esta natureza com a acessibilidade também é possível.
Nesta acessibilidade física também está, por exemplo, o piso podotátil, para as pessoas cegas, para que as pessoas possam guiar pelo piso. A acessibilidade está na forma como nós pensamos nas infraestruturas, como a ausência de obstáculos no meio do passeio, as rampas nas passadeiras, a elevação das passadeiras para que seja o carro aquele que tem de abrandar. Uma boa iluminação nas ruas é também acessibilidade para pessoas com baixa visão, por exemplo, que quando está muito escuro ainda veem pior ou ficam muito mais limitadas do que quando está mais claro.
Depois temos a acessibilidade comunicacional. Como é que nós comunicamos para pessoas surdas e também para pessoas cegas. Muitas vezes, as pessoas cegas reportam que quando alguém está a falar com elas e se apercebe de que a pessoa é cega, começa aos berros. Quer dizer, a pessoa, à partida, não tem problema nenhum dos ouvidos, não vê, mas nós temos que saber comunicar no sentido de que é uma pessoa. Eu vou dar agora um exemplo que eu já fiz. Isto para dizer que nós muitas vezes só conseguimos aprender fazendo ou sabendo. Não convém nós estarmos a falar com uma pessoa cega e, de repente, desaparecermos da frente dela, porque quando tu estás a falar com uma pessoa que vê, à partida, se tens que atender um telefone e sair da beira dela, a pessoa vai ver. No entanto, com a pessoa cega, a menos que ela perceba pelo barulho que a pessoa se ausentou, pode ser muito chato simplesmente saíres da beira dela sem dizer nada, porque a pessoa não te está a ver e se calhar até pode ficar ali um bocado a falar sozinha, sendo que tu a abandonaste, não é? Basta dizer “olha, vou só ali buscar um café”. Isto já aconteceu comigo, nem sequer me lembrar de avisar a pessoa cega com quem estava a falar que ia buscar um café e depois quando voltei e me apercebi que tinha feito isso, a pessoa disse, “olha, por acaso, apercebi-me, porque ouço,, mas é sempre fixe dizeres, olha, vou só ali buscar um café, para eu perceber se fiquei sozinha ou não”. Portanto, isto são pequenas coisas da acessibilidade comunicacional, mas também para as pessoas surdas, os gestos, a leitura labial, idealmente saber a língua gestual portuguesa, embora nem todas as pessoas comuniquem com a língua gestual portuguesa. Mas também a acessibilidade comunicacional é perceber que a comunicação é muito mais do que o verbal. Muitas vezes podemos comunicar de outras formas, há pessoas, por exemplo, pessoas autistas, que na comunicação não conseguem olhar-nos nos olhos, não conseguem fazer contacto ocular, isso não quer dizer que a pessoa não esteja interessada no que nós estamos a dizer. Tudo isto são boas práticas de comunicação e a acessibilidade na comunicação.
Depois, já falei um bocadinho, mas temos sem dúvida a acessibilidade atitudinal, ou seja, nas nossas atitudes, na forma como nós interagimos com a pessoa com deficiência, também pode ser uma coisa acessível ou não acessível. E depois a acessibilidade nos processos, nas políticas. Como é que nós construímos uma política pública, como é que nós construímos um processo de recrutamento, como é que nós construímos um processo de candidatura a alguma coisa. Isso é acessível? Todas estas dimensões estão incluídas? Portanto, isto também é acessibilidade e torna o mundo mais acessível para as pessoas com deficiência. Algo também importante, quando estamos a falar na acessibilidade, é pensar que todas estas dimensões e todas estas questões de acessibilidade têm de ser encaixadas em diferentes áreas. Eu costumo dizer que um dos sítios mais acessíveis onde eu vou, e muitas vezes tem problemas de acessibilidade, é o hospital ou o shopping. E muitas vezes, no acesso a cuidados de saúde, ainda há muitas coisas que não são acessíveis, mas são os sítios onde nós esperamos ver mais pessoas com deficiência. No entanto, eu posso ver uma pessoa com deficiência numa discoteca ou num motel. Uma vez liguei para um motel a perguntar se tinham um quarto adaptado, e a senhora perguntou “porquê”, e eu disse “porque eu desloco-me numa cadeira de rodas e uma vez estive num motel e tinha umas escadas para o quarto”. E ela, “mas a menina sabe onde é que está a ligar?” E eu pensei, “sim, sei”. Ou seja, esta ideia de que pessoas com deficiência não frequentam determinados sítios. No caso, aquilo foi um teste, mas eu podia mesmo querer um quarto num motel. E, portanto, só para perceberem que é preciso pensar nesta acessibilidade não só nos sítios onde nós esperamos ver as pessoas com deficiência, mas em todos os sítios. As pessoas com deficiência podem estar em qualquer sítio. E quando pensamos assim, acho que conseguimos construir um espaço público mais acessível de verdade.
Sente que o sistema de saúde nacional está preparado para atender pessoas com deficiência ou deixa a desejar?
Eu posso falar do meu caso enquanto pessoa com deficiência motora, e acho sempre interessante, no futuro, falarem com pessoas com outras deficiências, porque sei que, por exemplo, para as pessoas surdas é um desafio. É um desafio a emergência, é um desafio ir às urgências, é um desafio a situações de calamidade, por causa da comunicação. Foi um desafio, por exemplo, no apagão, foi um desafio agora na tempestade, para muitas pessoas surdas que ficam muito isoladas e não existe, efetivamente, aqui uma acessibilidade real no acesso a cuidados de saúde.
Mas para mim, enquanto pessoa com deficiência motora, eu sinto que hospitais e clínicas, à partida, têm condições mínimas de acessibilidade. No entanto, ainda há dois dias, fui fazer um exame de rotina numa clínica que não tinha condições mínimas de acessibilidade, portanto, eu acho que ainda vão havendo algumas coisas boas, mas ainda muitas falhas. E depois também, felizmente, não tenho apanhado imenso, mas já apanhei, especialmente quando estava grávida, um ou outro profissional, que por esta questão de não se estar à espera de ver pessoas com deficiência em determinados papéis, nomeadamente no papel de uma grávida, que tiveram uma ou outra atitude mais capacitista, mais condescendente, em que não teriam com uma pessoa grávida que estivesse ali, que não tivesse nenhuma deficiência. E isso também impacta, obviamente, o acesso aos cuidados de saúde.
Outra coisa importante no acesso à saúde, como eu vos falei anteriormente, é a questão de que temas é que nós abordamos com as pessoas com deficiência. A ideia de que a pessoa com deficiência não precisa de um planeamento familiar, não precisa de falar de métodos contracetivos, não precisa de falar de doenças sexualmente transmissíveis. Todas essas coisas porque, à partida, aquilo não é para ela, porque há muito esta ideia, ou porque há um desconforto de “ui, tem aqui uma pessoa com deficiência”. Já na sociedade sem deficiência o sexo é um tabu, nas pessoas com deficiência ainda mais. Só que isto depois leva a problemas muito grandes de desinformação, de falta total de informação, e que depois leva, e os números dizem, por exemplo, que mulheres e meninas com deficiência sofrem entre duas a cinco vezes mais abusos físicos, sexuais e psicológicos do que mulheres e meninas sem deficiência. E isto vem muito também desta fragilidade e desta vulnerabilidade, que muitas vezes é pelos nossos corpos, mas muitas vezes nos é imposta por esta falta de informação e eu acho que um acesso equitativo e acessível a cuidados de saúde também passa por informação sobre saúde que seja ela também acessível.
Houve algum momento ou mensagem de alguém que a tenha marcado particularmente?
Sim. Lembro-me sempre deste caso. Felizmente recebo bastantes mensagens de pessoas, ou que estão mais alerta para determinadas situações, que mudaram uma ou outra coisa por causa de alguma coisa que viram no meu instagram. Mas lembro-me uma vez de uma partilha da mãe de uma menina que se desloca de cadeira de rodas, que partilhou comigo, que a filha dela, que é uma criança, tinha visto um vídeo meu, que eu até tinha feito e tinha achado que podia ser um bocado estúpido fazer aquilo mas pronto, a mostrar como é que eu abria portas agora com a cadeira, porque é diferente, porque uma porta pesada muitas vezes não abre. Eu não consigo abrir com a mão e estar a mexer na cadeira, muitas vezes tenho que empurrar com a própria cadeira. Isto é uma estupidez, mas é uma coisa do dia a dia que eu tenho de fazer. Então fiz um vídeo a filmar isso e a importância também de não fazer uma rampa colada a uma porta, porque quando a rampa está assim, eu não consigo largar as rodas da cadeira para abrir a porta, portanto, é preciso ter um platô sempre no final das rampas por causa da porta. E a miúda ao ver aquele vídeo tinha começado a testar em casa a sua própria autonomia e a sua própria independência. Ela a tentar abrir portas sozinhas a ver aquele vídeo a tentar imitar o que eu estava a fazer, porque ela tinha uma incapacidade física mais ou menos igual à minha de acordo com a sua lesão, e aquilo realmente na altura emocionou-me bastante, porque é uma coisa muito prática, que não vai obviamente mudar a vida daquela menina, mas vai ajudá-la a ter mais autonomia e mais independência, a ver um vídeo no instagram de alguém que pode ser a sua referência em alguma coisa. Portanto, eu acho que isto é muito importante também esta questão de ser referência, e não é ser role model no sentido de ídolo nem nada, mas veres alguém, com uma característica semelhante à tua, que está a ocupar um determinado espaço, que está a fazer uma determinada coisa, e portanto tu também perceberes que aquele espaço é para ti. Acho que essa mensagem ou essa partilha tocou-me muito.
O que lhe dá esperança quando pensa no futuro da inclusão?
Olha, a mim dá-me muita esperança a geração mais nova de pessoas com deficiência que eu conheço e que vejo. Sinto que está muito mais acordada, muito mais alerta, muito mais consciente dos seus direitos. Eu acho que a luta das pessoas com deficiência tem sido muito dura ao longo dos anos e houve mudanças muito importantes que foram feitas à custa de muita luta, muitas vezes física. Eu agradeço muito a quem esteve atrás de mim, para me permitir estar onde estou com os direitos que estou, quer como pessoa com deficiência quer como mulher. Mas esta geração mais nova, pelo menos das pessoas com deficiência que eu acompanho e que tenho mais ou menos perto de mim, sinto que estão muito mais ativistas dentro das suas áreas, ou seja, nem todas estas pessoas estão diretamente ligadas à deficiência. Têm as suas profissões fora da deficiência, mas têm o seu ativismo dentro desses núcleos e dentro das suas casas também. E, portanto, sinto muita esperança nesta capacidade de diálogo, neste interesse destas gerações mais novas para conseguirmos mudar e tornar esta sociedade mais acessível. Sinto muita esperança nestas gerações mais novas de estarem a fazer o seu ativismo nestas bolhas e de conseguirem, que acho que é uma coisa que falta, mas que felizmente está cada vez mais a acontecer, conseguirem “rebentar a bolha” digamos assim, e fazer com que pessoas sem deficiência, e que não tenham nenhum contacto com a deficiência, e que não têm nenhuma ligação com esta temática se interessem também por este tema e sejam nossos aliados, das pessoas com deficiência. É importante não fazer nada sobre a deficiência sem que haja uma pessoa com deficiência presente, mas as pessoas sem deficiência não têm que estar excluídas desta equação, têm de ser nossas aliadas. Ninguém tem de falar por nós, mas falar ao nosso lado, e acho que esta conquista também está a acontecer agora e está a ser mais forte e isso dá-me muita esperança. Eu acho que só assim, só envolvendo toda a gente, e não falando sempre para os “convertidos”, é que nós conseguimos ir mudando as coisas. Embora as mudanças sejam, a meu ver, um pouquinho lentas.
Que livro e filme gostaria de recomendar aos nossos leitores?
Eu recomendo sempre um documentário que acho essencial toda a gente ver que é o “Crip Camp”, na Netflix. Fala basicamente do movimento de pessoas com deficiência, mas está feito de uma forma super interessante. Vê-se muito bem e é espetacular. Há agora uma série, acho que se chama “Extra”, que está a passar na RTP Play que aborda a questão da sexualidade, pessoas com deficiência, adolescentes,… Eu vi um episódio só, mas acho que está muito bem construída. Livro eu aconselho dois, um que se chama “Disability Visibility” que é de uma ativista com deficiência que faleceu no ano passado e tem vinte histórias de pessoas com diferentes deficiências muito interessantes, acho que pode ser interessante para quem quiser saber mais sobre este tema. Recomendo também o “Being Heumann” que é uma biografia da Judith Heumann, que basicamente é a mãe dos direitos das pessoas com deficiência. Ela conta a sua história e eu acho que está muito bem contada, numa leitura bastante fácil de entrar e de se ficar meio viciado. Ela conta a história, as dificuldades que ela passou há muitos anos atrás sendo uma pessoa com deficiência que quis ir para a escola, que quis estar envolvida na comunidade escolar, e então acho que é super importante para fazer este paralelismo entre o que era antes e o que era agora, mas também como há muita coisa que ainda não mudou e toda a sua luta durante a sua vida.
Se pudesse deixar uma mensagem final para quem nunca refletiu muito sobre esta temática, qual seria?
Em primeiro lugar sigam a Espécie Rara porque acho que vão ver lá alguns vídeos que vão desmistificar algumas coisas. Mas, eu diria mesmo que é importante entender que não precisam de ter uma deficiência para pensar sobre isto. Eu entendo perfeitamente que a deficiência, quando nós não conhecemos, é algo que nos assusta. E até é algo que não estamos muito interessados em pensar “Ai cegueira, mas eu agora vou pensar sobre cegueira, para quê?”. Depois há pessoas que dizem, “Ai porque um dia podes ser tu, podes ter uma coisa repentina e ficares cego”. Como é que uma pessoa vai querer acordar e pensar “Ai que giro hoje vou começar a ler sobre a possibilidade de eu ficar cego” ou sobre “como é que eu quero que interajam comigo se eu ficar cego”. Não vai acontecer. Portanto, eu acho que é pensar que isto é um assunto de todos nós. Sigam páginas que falem da deficiência também de uma forma que vos interesse e que seja apelativa e sobretudo não se culpem. Ou seja, eu acho que a deficiência às vezes causa algum desconforto às pessoas, porque ou não sabem muito bem como agir, ou o que dizer, ou por onde começar e depois isto leva a algum sentimento de culpa que afasta as pessoas. Eu não acho que nós devamos isentarmo-nos da nossa responsabilidade enquanto sociedade, não é isso que eu estou a querer dizer. Mas, se nós não temos contacto nenhum com esta área, com a deficiência, pode ser normal ou natural que nós digamos alguma coisa fora da caixa ou que nós tenhamos feito alguma coisa mais capacitista. Não se culpem, mas peguem nisso, também não é do género “Ai eu não sabia, não tenho culpa nenhuma, para a próxima faço pior”, não. É importante pegar nisso e responsabilizar-se sobre a ação e na próxima vez aprender com quem realmente vive estas situações. E não estou a falar só de mim, porque eu não represento ninguém, represento-me só a mim. Aprendam e façam melhor para a próxima. Portanto, sem culpa mas com responsabilidade fazer melhor. De facto a acessibilidade, a inclusão, a deficiência é um tema de todos nós. Não é só das pessoas com deficiência, esqueçam isso. Se não se aperceberem disso agora vão perceber em alguma altura da vossa vida.







