A sociedade assenta em pilares que valorizam a objetividade e neutralidade. Espera-se que a justiça, a saúde ou a ciência funcionem de forma igual para todos. Contudo, surge a questão: terá a neutralidade sido criada com alguém específico em mente?

Colocar o cinto de segurança é um gesto automático que reflete uma crença há muito consolidada: “este cinto foi feito para me proteger”. No entanto, durante décadas, os testes de segurança basearam-se num corpo masculino padrão. Como resultado, as mulheres têm cerca de 73% mais probabilidade de sofrer lesões graves em acidentes comparáveis e maior risco de mortalidade. Algo que partiu da promessa de proteger toda a família, continua aquém.

Este fenómeno é designado por viés implícito: associação, crença ou atitude inconsciente face a determinado grupo social. Mesmo sem concordar com um preconceito, podem adotar-se atitudes inconscientemente que destoam da identidade pessoal. Estes vieses são moldados pelo ambiente em que se é socializado – cultura, educação e media –, e manifestam-se em todas as esferas da sociedade.

Na saúde, o corpo feminino foi excluído durante décadas de ensaios clínicos, nomeadamente por ordem da Food and Drug Administration. Até aos anos 1990, as mulheres eram afastadas para evitar “complicações hormonais”, sendo comum testar apenas em ratos do sexo masculino. Este legado de investigação centrado no corpo masculino, leva a que as mulheres tenham maior probabilidade de reagir adversamente a medicamentos e a uma maior incidência de doenças crónicas, apesar da maior esperança média de vida.

“uma balança severamente descalibrada por perceções sociais profundamente enraizadas” 

Na educação, o viés pode surgir como ameaça de estereótipo. Desde cedo, as meninas são levadas a crer que têm menor aptidão para matemática ou ciência, influenciando o seu desempenho e escolhas académicas e profissionais. Além disso, perante o mesmo comportamento, alunos negros tendem a ser percecionados como mais agressivos e punidos mais severamente.

Estes padrões persistem no mercado de trabalho. Estudos com currículos idênticos revelam uma maior probabilidade de rejeição quando o nome é associado a uma pessoa negra. Pessoas com deficiência enfrentam também graves entraves, não lhes sendo, muitas vezes, garantidas instalações adaptadas, forçando-as a trabalhar remotamente, isoladas. Verifica-se uma balança severamente descalibrada por perceções sociais profundamente enraizadas.

No espaço público, barreiras arquitetónicas e digitais, como a falta de rampas, passeios degradados, semáforos sem alertas sonoros ou plataformas digitais inacessíveis a pessoas com deficiências visuais, não resultam só da falta de recursos, mas de uma sociedade que não considera a diversidade de mobilidade e capacidades. Até aspetos aparentemente ordinários, como a temperatura dos escritórios, baseada no metabolismo masculino, expõe este fenómeno. 

Estes exemplos são vislumbres de um quadro mais amplo: sistemas considerados objetivos e justos, mas construídos com base num modelo humano implícito que marginaliza parte da população, gerando graves desigualdades.

Reconhecer este problema não implica abandonar a neutralidade, mas repensá-la de modo a contemplar a diversidade humana desde logo e não como uma exceção.