Opinião de Guilherme Sampaio
Também incluído no FEPIANO 66, publicado em Maio de 2026
A economia portuguesa debate-se, há demasiadas décadas, com um bloqueio estrutural que condiciona o seu desenvolvimento e o bem-estar diário dos cidadãos: a estagnação crónica da produtividade. A convergência com os parceiros mais desenvolvidos da União Europeia transformou-se numa miragem e numa justificada frustração coletiva. Apesar de os trabalhadores portugueses estarem entre os europeus que mais horas dedicam à profissão, o valor económico gerado por hora permanece teimosamente abaixo da média comunitária.
Este paradoxo não resulta da falta de esforço da força laboral nacional, que prova o seu imenso valor sempre que emigra e integra mercados competitivos. Resulta de um ecossistema institucional interno que, em vez de potenciar a criação de valor, a sufoca sob pesados entraves sistémicos, desconfiança burocrática e uma visão estatista da sociedade. Ultrapassar este impasse exige uma profunda mudança de paradigma, abraçando a realidade incontornável de que a verdadeira riqueza apenas se cria num ambiente propício à inovação, ao investimento privado e à valorização do mérito coletivo.
A base de qualquer economia moderna e verdadeiramente dinâmica reside inquestionavelmente na qualidade do seu capital humano. Os progressos alcançados nas últimas décadas nas qualificações da população merecem aplauso, mas a ligação entre o sistema educativo tradicional, que se mantém engessado, e as necessidades de uma economia globalizada continua a apresentar falhas estruturais. Exige-se que se encare a educação não apenas como um direito básico, mas sobretudo como o principal motor de genuína mobilidade social.
É imperativo promover um ensino que valorize a excelência, o pensamento crítico, as competências digitais e a agilidade intelectual. O investimento público deve ser rigorosamente focado nos resultados efetivos alcançados pelos alunos. O papel do Estado deve centrar-se em garantir o acesso equitativo de todos a uma educação de topo, não tendo de ser obrigatoriamente o seu fornecedor monopolista. Modelos que incluem a liberdade de escolha das famílias e o financiamento centrado no aluno revelam-se ferramentas formidáveis para fomentar a qualidade através de uma sã concorrência educativa num modelo plural e diversificado.
Porém, mesmo os talentos mais brilhantes optam pela emigração num ambiente hostil ao empreendedorismo, à assunção de risco e à criação de riqueza. Um dos maiores entraves à produtividade em Portugal é a reduzida dimensão do seu tecido empresarial. As empresas portuguesas são frequentemente demasiado pequenas para obterem economias de escala, investirem em investigação, ou se internacionalizarem com robustez.
A resposta para este estrangulamento encontra-se numa teia burocrática asfixiante e numa pesada carga fiscal que desincentiva a capitalização corporativa. A complexidade do sistema, aliada a impostos que tributam fortemente o lucro e o crescimento, funciona na prática como uma autêntica barreira invisível. Quando a expansão empresarial é desproporcionalmente tributada, o incentivo elementar ao investimento privado desaparece. Sem a injeção contínua de capital produtivo, a produtividade laboral estagna. Um ecossistema dinâmico exige impostos transparentes, previsíveis e fiscalmente competitivos, permitindo às empresas reter capital para reinvestir, inovar e pagar salários atrativos, estancando a fuga de talentos.
“Porém, mesmo os talentos mais brilhantes optam pela emigração”
A excessiva rigidez do mercado de trabalho constitui outro fator sistémico que penaliza a eficiência económica e acaba por prejudicar de forma severa aqueles que mais diz proteger. A legislação laboral, embora aparentemente desenhada para salvaguardar o trabalhador, gera no terreno um sistema profundamente dual e injusto. Cria-se um fosso inaceitável: de um lado, uma elite com contratos blindados que dificultam a natural renovação e do outro, uma vasta camada de jovens qualificados condenada à precariedade e incerteza constante. Um mercado hiper-regulado dificulta a adaptação das empresas às inovações tecnológicas, desincentivando a contratação sustentável por justificado receio dos elevados custos de rescisão.
A moderna proteção do trabalhador não reside na inamovibilidade jurídica do posto, mas na sua contínua empregabilidade. Flexibilizar as relações laborais, aliando agilidade a redes de segurança social focadas na requalificação rápida e na efetiva transição, permitiria a realocação de recursos humanos para setores inovadores. Num mercado livre, os salários devem refletir diretamente a produtividade, rejeitando nivelamentos que ignoram o mérito e o esforço individual.
Neste complexo enquadramento estrutural, torna-se urgente repensar as fronteiras, funções e limites do Estado. Um Estado moderno e focado na produtividade geral não é aquele que se tenta substituir de forma ineficiente à iniciativa privada, que intervém em setores não estratégicos ou que microgere a economia de forma paternalista. O papel insubstituível do Estado é atuar primariamente como árbitro imparcial, garante de regras claras e facilitador da sociedade civil livre.
Isto traduz-se, antes de mais, em garantir à sociedade um sistema de justiça rápido e impiedosamente eficaz. A crónica morosidade da justiça é um pesadíssimo imposto oculto sobre toda a economia, afastando o investimento estrangeiro e destruindo a confiança essencial num mercado funcional.
Em segundo lugar, significa prover as infraestruturas logísticas fundamentais e implementar regulação inteligente, que proteja o meio ambiente e o consumidor sem esmagar os empreendedores sob burocracia infindável. O Estado deve concentrar-se nas suas funções soberanas nucleares e providenciar uma rede social de base robusta, cimentando fundações onde a iniciativa privada floresça livremente para gerar riqueza e valor acrescentado.
O ambicionado salto estrutural de produtividade de que Portugal necessita desesperadamente não surgirá do desenho arrogante de grandes planos económicos centrais, nem da distribuição clientelista de subsídios estatais que tantas vezes apenas servem para perpetuar a ineficiência. Este salto vital exige coragem política genuína e imune ao imediato ciclo eleitoral, para concretizar reformas estruturais sucessivamente adiadas. Requer a construção audaz de um país dinâmico onde o talento seja retido, valorizado e financeiramente recompensado pelo mercado livre, onde o Estado abandone a desconfiança sistémica e assuma o papel de um parceiro ágil e onde os mercados funcionem de forma aberta, competitiva e sem corporativismos protecionistas.
“A produtividade não é apenas um obscuro conceito macroeconómico”
Ao conseguir libertar a tremenda energia criativa da sociedade civil das pesadas amarras do excesso de regulamentação e tributação punitiva, apostando simultaneamente num capital humano de excelência e numa justiça fiável, Portugal poderá quebrar o ciclo empobrecedor que amarra os cidadãos. A produtividade não é apenas um obscuro conceito macroeconómico. Na vida real de cada família, ela é a única base honesta para garantir o aumento do nível de vida, salários competitivos à escala europeia e serviços sociais efetivamente sustentáveis para o futuro do país.

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