Em agosto de 2025, Trancoso ardeu. Não foi apenas uma notícia de rodapé, mas sim um dos maiores incêndios registados em Portugal, com cerca de 50 mil hectares consumidos pelas chamas. Não ardeu apenas floresta, ardeu a tranquilidade de quem aqui mora e desapareceu o trabalho de uma vida inteira. 

Durante os primeiros dias daquele agosto, Trancoso foi o centro de Portugal. As televisões mostravam o desespero, os políticos prometiam soluções e o país estava de olhos postos em nós, com pena. Mas, como sempre acontece, quando as cinzas arrefeceram e o sol brilhou novamente sem fumo, as câmaras desligaram-se, os holofotes viraram para Lisboa e nós voltámos ao que somos sempre, esquecidos.

Sou de Trancoso e sempre vivi na Beira Interior. Cresci nestas paisagens, conheço as estradas, as pessoas, as histórias e escrevo isto com um sentimento de revolta: Portugal tem dois países dentro dele e só um deles importa quando não está a arder. Crescer no interior de Portugal é aprender desde muito cedo que, para “sermos alguém”, ter oportunidades ou realizar sonhos, o nosso destino mais provável é fazer as malas. Saí de Trancoso em 2023 para estudar no Porto e, desde aí, vejo a minha escola a perder alunos, os centros de saúde a perder médicos e até mesmo a fechar portas, e as ruas a perderem o movimento das histórias que os meus avós contavam. O interior não está só a morrer de velhice, está a ser deixado a morrer por falta de investimento e visão estratégica. 

Esta região enfrenta há décadas uma equação brutal. O abandono rural expulsa as pessoas para as cidades à procura de uma vida melhor, o território fica despovoado e repleto de mato, mato esse que se torna combustível. Quando o fogo chega (e acreditem, chega sempre e quando menos esperamos) não há população suficiente para vigiar, serviços locais preparados para responder de imediato, nem infraestruturas e meios prontos a ser acionados. O despovoamento não se restringe a um problema social e demográfico, pode transformar-se num fator de risco de incêndio. Cada jovem que sai de Trancoso para estudar no Porto ou em Lisboa, como eu mesma fiz, é menos um par de olhos a vigiar os nossos terrenos. 

Perante a falta de organização e resposta das entidades competentes, a resiliência do povo vem ao de cima. Vi vizinhos a defender o que é seu e dos que os rodeiam com baldes de água, cisternas e máquinas próprias, jovens desconhecidos a ajudar idosos isolados e uma solidariedade que me enche de orgulho. No entanto, a inação do Estado não pode ser desculpada pela nossa entreajuda, não podemos ser fortes e unidos apenas porque não temos outra escolha. A resposta do Governo tem sido a mesma há décadas: meios aéreos, operacionais e planos de prevenção que chegam tarde e muitas das vezes ficam no papel das declarações televisivas. O que nunca efetivamente chega é o investimento estrutural que tornaria o interior atrativo, não chegam os serviços de saúde dignos, os transportes e as oportunidades de emprego que justifiquem ficar. 

Sendo estudante universitária, hoje olho para a minha cidade com a saudade de quem um dia partiu, mas com a raiva de quem sente que o país não lhe permite voltar. Portugal não pode ser um país a duas velocidades, onde o litoral concentra riqueza, emprego e oportunidades, e o interior serve apenas para férias de verão, festas da “terrinha” durante o mês de agosto ou como cenário de tragédias longínquas no verão. 

Precisamos de políticas públicas que fixem os nossos jovens, que atraiam empresas e grandes indústrias, que compensem quem decide investir e viver longe dos grandes centros. Mas, para isso, é preciso apostar em incentivos, melhoria de acessos e melhores condições de saúde e educação. 

E fica, assim, o apelo final. Não deixem que o interior seja apenas uma memória de verão ou uma notícia triste na televisão. Olhem e procurem por nós o resto do ano. Não se esqueçam de Trancoso. Não se esqueçam do interior. Não se esqueçam de nós.