Opinião de Sofia Condez Alves
Também incluído no Online exclusive, publicado em Maio de 2026
Há uns meses atrás, saiu uma notícia de que o Governo estava a planear acabar com o Plano Nacional de Leitura. Esta foi alvo de muitas críticas, que levaram os políticos portugueses a dar um passo atrás e a explicar que este projeto não ia ser encerrado, mas sim reformulado. Desde então, temos tido silêncio total no assunto. Mais recentemente, foi abolida a obrigatoriedade de José Saramago, o nosso único Prémio Nobel da Literatura, do programa de Português, assunto que gerou ainda mais discussões. No meio de tanto ruído, talvez tenha ficado esquecida uma pergunta mais importante: o que acontece a um país quando deixa de formar leitores?
Quando era mais nova, lia com uma espécie de desespero. A partir do momento que acabei o meu primeiro livro sozinha, “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry, recomendação do meu professor de português da primária, nunca mais parei. Levava um livro para todo o lado, até para os lugares onde sabia que não devia estar a ler. Iam escondidos no meu casaco para os jantares dos meus pais onde era a única criança. Não tinha qualquer interesse nas conversas de futebol ou de negócios à minha volta, nem particular vontade de falar com os mais velhos, preferindo enterrar a cabeça num livro que segurava por baixo da toalha de mesa. A um certo ponto, já nem o fazia por aborrecimento, mas por fome. Eu simplesmente queria estar dentro destas histórias mais do que em qualquer outro sítio.
A minha mãe nem conseguia ficar muito chateada comigo, já que foi ela a maior investidora na minha cultura. Com uma mão tentava fechar-me o livro, e com a outra dava-me um encosto para conseguir ler mais confortavelmente. Tive o feliz privilégio de encontrar na minha secretária todos os livros que queria experimentar (e até mais!), e há que louvar a sua paciência, porque não foram poucos. Se ela se arrepende por nunca se ter dedicado à leitura, garanto-lhe que está errada, pois ouviu primeiro todos os meus monólogos e interpretações sobre estes livros.
A primeira grande obsessão que tive foi o mundo mágico de “Harry Potter”, que me foi apresentado por uma prima (e que eu fiz questão de passar a outros). Apesar das posições da autora sobre direitos humanos serem ridículas, reconheço que, na altura, nada mais queria do que receber a carta de Hogwarts e mudar-me para lá. Recentemente, reencontrei a fantasia através de J.R.R. Tolkien e da sua Terra-Média, cuja beleza renovou o meu espírito e me relembrou da importância da esperança. É impressionante como encontramos as jornadas e lutas mais humanas em personagens com orelhas pontiagudas, sendo este um verdadeiro atestado a como os livros chegam até nós quando mais precisamos deles.
A minha passagem para as “grandes leituras” veio através de um livro que só li por causa do Concurso Nacional de Leitura – “Os Livros que Devoraram o Meu Pai”, de Afonso Cruz. A sua premissa é engraçada: Elias é um rapaz cujo pai se perde na leitura e desaparece do mundo. Então, Elias atira-se à biblioteca do pai, percorrendo livros à sua procura. Aqui, ele encontra-se com nomes importantes dos clássicos, como o Raskolnikov de “Crime e Castigo” (Fiódor Dostoiévski), o Mr. Hyde do seu “estranho caso” (“O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, Robert Louis Stevenson), e até as bibliotecas ambulantes de “Fahrenheit 451” (Ray Bradbury). À medida que estudava este livro, mais me via no protagonista e mais curiosa ficava sobre estes personagens que ele conhecia, pelo que decidi fazer a mesma viagem que ele.
Ler os clássicos ainda é muitas vezes tratado como um exercício de obrigação intelectual, uma tarefa académica, mas os grandes livros sobrevivem precisamente porque continuam a dizer coisas essenciais sobre nós. A literatura tem uma capacidade importante de atravessar séculos sem perder relevância humana. Sempre observei à minha volta um desgosto pela disciplina de Português, por ser “inútil”, por ser uma “seca”, por não compatibilizar com a autoimportância das ciências exatas. Mas aprender a ler textos complexos, interpretar metáforas, acompanhar raciocínios longos desenvolve capacidades fundamentais, como a empatia, o pensamento crítico, a imaginação, e a paciência.
“A literatura tem uma capacidade importante de atravessar séculos sem perder relevância humana.”
Também por isso o papel dos professores é insubstituível. Muitos leitores não nascem apenas de bons livros, mas de bons mediadores. Professores que apresentam obras como objetos vivos em vez de “naturezas mortas”. Tive a sorte de ter uma professora de português assim, que dizia os versos da “Mensagem” como ninguém, que falava sobre os simbolismos dos autores com uma paixão tão grande que era contagiosa, que continuava a estudar para se preparar para responder a qualquer questão dos seus alunos. Foi com ela que aprendi a amar muitos nomes que não me agradavam antes, como Torga ou Camilo. Visitando-a agora, ainda é possível encontrá-la com livros por todas as divisões da sua casa, sobre os quais ela dirá que são a maior constante na sua vida.
Hoje leio menos do que lia em criança, infelizmente. Culpo-o na falta de tempo, mas também é alguma preguiça e pior capacidade de concentração provocada por ecrãs a mais. Ainda assim, continuo a voltar aos meus caros livros quando preciso de qualquer coisa. Tenho sempre o prefácio sobre a arte de Oscar Wilde numa mão, os planos para a passarola voadora do Padre Bartolomeu na outra, o “Quando Vier a Primavera” (Alberto Caeiro) na ponta da língua, e um Hobbit ao ombro. Há personagens e histórias que ficam connosco, frases que me vêm à cabeça nos momentos difíceis. São muitos os livros que já acabei e larguei na estante, mas que nunca abandonei.
É por tudo isto que acho que a discussão sobre a leitura importa tanto, porque é uma disciplina cognitiva ativa. Sem estruturas deliberadas e protegidas para a fomentar, o perigo de perder a capacidade humana de desvendar textos “manipulados” e desafiantes torna-se uma realidade gigante. Os livros servem como uma âncora essencial, um mecanismo de defesa intelectual contra um mundo cada vez mais propenso a estímulos superficiais e às nossas capacidades de atenção em deterioração.
A decisão de retirar autores como José Saramago das listas de leitura obrigatória nas escolas é um sintoma preocupante de uma regressão educativa mais ampla. Vi uma celebração geral do facto devido à sintaxe e estilo únicos ao escritor serem demasiado densos ou difíceis de compreender pelos alunos, mas esta perspetiva falha em compreender o objetivo central da educação literária. A ideia em estudar um laureado com o Prémio Nobel é desenvolver a capacidade intelectual dos adolescentes e apresentar-lhes conceitos desafiantes, e não cultivar a afeição pessoal (apesar de um bom professor conseguir os dois).
Quando, em nome de “politiquices” desvalorizamos o papel dos livros do Plano Nacional de Leitura, reduzimos o espaço para a literatura nas escolas. Com toda a sinceridade, isto não é uma questão de dinheiro estatal, é uma questão de cultura. Não há qualquer benefício real em limitar o contacto das gerações mais novas àquilo que os livros oferecem de mais importante: a possibilidade de imaginar outras vidas e de pensar para além de si mesmas. Portanto, defender este Plano é um dever social inegociável – um profundo amor pelos livros deve inspirar naturalmente o desejo de proteger os aspetos humanos da comunicação.
“um profundo amor pelos livros deve inspirar naturalmente o desejo de proteger os aspetos humanos da comunicação”
A literatura é o veículo através do qual nos podemos tornar seres humanos plenamente realizados. As lições absorvidas ao longo de décadas de leitura formam uma bússola moral interna que os indivíduos carregam ao longo das suas vidas. Os livros são objetos estáticos numa prateleira, sim, mas também são repositórios vivos de pensamento a que recorremos quando navegamos por crises do mundo real e resolvemos problemas complexos da vida. São companheiros constantes, repousando numa mesa de cabeceira, numa mochila, no bolso de um casaco.
“Olho para os meus filhos e para os meus netos e penso em que diabo de histórias se meterão eles e o que é que eles poderão um dia contar. Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.” – Afonso Cruz em “Os Livros que Devoraram o Meu Pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.
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