A brincadeira é o primeiro mercado que conhecemos. Antes de sabermos o que é um salário, a inflação ou a produtividade, aprendemos a negociar com os nossos amigos quem é o polícia e quem é o ladrão ou quem é o guarda-redes e quem é aquele que faz os remates. Organizamos regras invisíveis, selando contratos com o dedo mindinho de cada “agente económico”. Atribuímos valor simbólico a objetos aparentemente mundanos, transformando um galho numa espada e uma toalha de mesa num vestido de princesa. Estabelecemos “trocas comerciais”, com o objetivo de completar uma caderneta de cromos e manifestamos espírito crítico quando aos 4 anos a nossa palavra preferida é “porquê”. Lidamos com a escassez quando precisamos do lápis amarelo para pintar o sol, mas o nosso colega do lado está a utilizá-lo para pintar as estrelas que desenhou. Tais atos, aparentemente inocentes e rotineiros da vida de uma criança, traduzem princípios económicos basilares. Estamos perante a ciência económica no seu estado mais puro. Brincar é uma espécie de simulador económico de baixo risco e, portanto, de elevado potencial inovador. Inovação no contexto empresarial desencadeia melhoramento de processos e gera novos produtos. Assim, é criado valor e a economia agradece. Deste modo, desengane-se quem acha que brincar é apenas coisa de criança.   

Relacionar o mundo corporativo e a brincadeira é reconhecer que o lúdico tem valor, não apenas educativo, mas também estratégico. Uma das abordagens que tem ganhado mais destaque é a “gamification” — ou seja, a utilização de elementos característicos de jogos, como pontuações, recompensas e desafios em contextos de trabalho. Estudos demonstram que esta estratégia, quando implementada no ambiente laboral, pode aumentar os níveis de foco, a motivação e a sensação de evolução dos colaboradores, tornando tarefas tradicionalmente repetitivas mais estimulantes. 

Empresas como a Lego, a Microsoft ou a Nike são já conhecidas pelos seus escritórios coloridos, alguns tendo salas de jogos e até escorregas disponíveis para os seus trabalhadores. Em setores tão diversos como a saúde, as finanças ou a indústria estão também a ser exploradas formas de tornar o trabalho mais produtivo através da implementação de atividades de carácter lúdico. Sessões de brainstorming recorrendo a blocos de construção ou até pausas com jogos de tabuleiro estão a revelar-se altamente eficazes para promover o envolvimento, a colaboração e a resolução criativa de problemas. 

Assim, longe de ser uma mera distração, a brincadeira surge como um verdadeiro gerador de valor. Saber brincar no trabalho não demonstra infantilidade, mas sim ousadia criativa.