Opinião de Mariana Loureiro
Também incluído no Online exclusive, publicado em Março de 2026
Não é novidade para ninguém que existe uma pressão implícita em relação aos níveis de produtividade que a sociedade espera que alcancemos.
É esperado pela sociedade que obtenhamos cada vez níveis mais altos de excelência e produtividade e a Inteligência Artificial surge como uma ferramenta que vai elevar as nossas capacidades ao mais alto potencial. Mas será que é isso mesmo que está a acontecer?
Da educação ao mercado de trabalho, somos encorajados a realizar um percurso espetacular. Notas altas, uma lista incansável de atividades extracurriculares, projetos, desportos, até os nossos hobbies devem ser produtivos. Mas claro que manter tudo perfeito o tempo todo é totalmente (ou quase) impossível. Assim, recorremos a estratégias que nos ajudam a “manter tudo em linha”, mesmo que isso implique uma redução da nossa aprendizagem e do nosso bem-estar, porque parece que o que realmente importa é a “imagem final”.
“Mas claro que manter tudo perfeito o tempo todo é totalmente (ou quase) impossível.”
Começamos a estudar o conteúdo de cada cadeira com o único objetivo de a passar com a melhor nota possível, sem realmente aprender ou absorver aquilo que estudamos, ou porque aquele conteúdo não nos cativa, ou porque o professor não consegue despertar a nossa curiosidade, ou porque no fim do tudo o que nos interessa é concluir a licenciatura, ter aquele diploma que vai comprovar o nosso “valor”. Então começamos a reconhecer os padrões e entregar exatamente o esperado, esquecendo tudo no momento em que acaba a avaliação. Outras vezes estudamos apenas o suficiente para o 9,5. Começamos a realizar tarefas, desafios, projetos e trabalhos de grupo com o apoio de ferramentas de IA, que não são necessariamente prejudiciais quando são usadas como auxílio para brainstorming, tópicos a pesquisar ou até a encontrar ideias-chave, desde que continuemos a usar o nosso pensamento crítico e a realizar o “verdadeiro raciocínio” por nós próprios. Mas não é bem isso que acontece, porque muitos de nós apoiamo-nos apenas no que a IA nos entrega. Não culpo os alunos que o fazem, quando na verdade é apenas uma reação à demanda irreal do sistema, que nos obriga a sacrificar a qualidade do que fazemos em favor da quantidade. Já para não falar no impacto astronómico que todo o malabarismo de atividades provoca na saúde mental dos jovens.
E acabamos por terminar o curso, até temos uma boa média, mas será que aprendemos alguma coisa? Talvez a discussão entre o conhecimento que obtemos no Ensino Superior e aquele que precisamos de aplicar no mercado de trabalho deva ser uma discussão para outra altura.
Não obstante, esta busca incessante da máxima produtividade não se fica pelo ensino. Segundo um artigo da Harvard Business Review, “AI Doesn’t Reduce Work – It Intensifies It”, a IA de facto está a reduzir tarefas rotineiras e a permitir que os trabalhadores se foquem em atividades mais complexas e com maior valor. Mas, na verdade, o trabalho não diminuiu, transformou-se em tarefas mais rápidas, mais exigentes e em maior quantidade e variedade destas. Enquanto que a curto prazo isto pode significar aumentos produtivos e de motivação, ao longo do tempo, o aumento da carga de trabalho, e a dificuldade em conciliá-la pode levar a aumentos dos níveis de fadiga cognitiva, burnout, etc, levando ultimamente a uma diminuição da qualidade do trabalho.
A questão que me fica na mente é se, com o crescimento inevitável da presença da IA em todas as esferas da nossa vida, a sociedade estará preparada ou não para transformar o foco que tem na produtividade e na quantidade e concentrá-lo no bem-estar do ser humano e na qualidade das suas contribuições.
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