Não há nada de errado com basear uma cor política em leituras, vivências, ou na própria concessão de identidade. Pessoas com contextos semelhantes tendem a ver as coisas de forma igualmente semelhante. Mas estará a política partidária a debruçar-se num fanatismo que sustente as suas campanhas?

A linha que separa a tecnocracia de uma democracia onde o nível de instrução dos quadros superiores do partido está anos-luz à frente de um militante raso é muito fina. Está implícito que, em Portugal, qualquer pessoa pode tornar-se uma figura de Estado. No entanto, os partidos que convidam os populares a participarem na política têm mecanismos internos de ascensão que filtram os menos bem preparados. Como tal, é inegável que alguns servem para eleger, enquanto outros servem para ser eleitos. Independentemente disso, é importante que os partidos fomentem algum “clubismo” por assim dizer. As bandeiras e as arruadas são acessórios que alicerçam a posição política. É lógico que os movimentos populares devem ter símbolos e que as pessoas devem sentir-se entusiasmadas por tomarem parte no processo eleitoral. No entanto, há que salientar algum aproveitamento por parte dos partidos nesse entusiasmo, bem como aquilo que os populares procuram na militância.

Uma associação desportiva também fomenta clubismo, até de forma mais natural. A diferença prende-se no facto de que, no desporto, não existe o conceito de “bem maior”. Caso o clube esteja numa má fase, por mais desgosto que cause, pressupõe-se que o adepto não desertará o clube. Caso um partido esteja numa má fase, do ponto de vista da capacidade, não de alcance, é expectável que o eleitorado desvie a sua atenção para um projeto político mais competente, ainda que esteja enfeitado de uma forma que lhe seja menos apelativa. Os partidos estão em constante mutação, sendo, por exemplo, impossível um militante socialista estar tão de acordo com Carneiro como estava com Pedro Nuno Santos. Não é obrigatório que uma mudança de direção obrigue à desfiliação, apenas aponto que o conceito de “ser de um partido” não é assim tão linear. Mas, bandeiras já não são só para levar para os comícios, são para se usarem ao peito.

Há muito menos gente a votar “porque” e muito mais a votar “apesar de”. A militância, tal como a própria política, tem vindo a radicalizar-se. Se há partido que tem apoiantes dedicados, é o Chega. O sentimento de pertença no partido é muito superior aos demais. Isto porque, o discurso do Chega é replicável por qualquer pessoa. Não são apenas apoiantes de um testa-de-ferro, são membros de um movimento que defende coisas sobre as quais conseguem discursar.

Os movimentos populares surgem muito também da ideia de usurpar aqueles que estão contra nós. Numa democracia, arduamente se encontra algum projeto político que faça segmentação populacional, de forma a estar contra quem quer que seja. Se consideram as suas ideias superiores, então, a sua vitória devia ser favorável ao país como um todo. Ainda assim, é muito visível na política a ideia de não só vencer, como derrotar os outros. Quando estamos mais convictos de que os outros estão errados, do que de nós estarmos certos, tornamo-nos peões à mercê do partido, seja qual for a posição que este tomar.

Acredito que a forma como vendemos a política é parte do problema. Desde já, a importância dada aos debates. Se há crítica que os portugueses tecem aos políticos é que estes são “só paleio”. No entanto, a generalidade dos portugueses considera os debates os momentos mais importantes para formar opinião. Criticamos a classe política por utilizar os seus estudos e eloquência para nos passar a perna, mas damos mais valor à sua capacidade argumentativa do que à sua capacidade técnica. Isto porque o frente a frente, apesar de não ser necessariamente indicativo de qual seria o melhor gestor para o país, é o que mais se assemelha a uma “competição” na política.

A cor política não devia ser algo que se escolhesse, devia ser algo no qual se tropeçava. Os movimentos mais ideológicos funcionam quase como uma extensão da personalidade. Alguém sensível e que tenha interesse pela arte estará mais virado para a esquerda, não só porque é aí que estão os “seus”, mas porque condiz bem com o resto da sua personalidade. E quando assim o é, dificilmente mudam de opinião. Antes sequer de começar a campanha, há uma quantidade considerável de portugueses que já decidiu em quem vai votar, e dificilmente vai ser dissuadido. O candidato Henrique Gouveia e Melo ganhou apoio em massa há cinco anos. Este apoio tem sofrido alguma erosão. Neste momento está só a ganhar por pouco. Se uma decisão tomada há cinco anos ainda é dominante nas sondagens, então as que são tomadas apenas meses antes da votação são quase imóveis.

“A cor política não devia ser algo que se escolhesse, devia ser algo no qual se tropeçava.”