Opinião de Carolina Góis
Também incluído no FEPIANO 67, publicado em Maio de 2026
O que é um lar? Usualmente é associado a um ambiente de aconchego, afeto e convivência familiar. Mas, analisando a situação atual dos jovens portugueses, ainda vale a pena utilizar esta palavra? Afinal, um cubículo desconfortável e padronizado não é o mesmo que uma casa, e muito menos que um lar.
”um cubículo desconfortável e padronizado não é o mesmo que uma casa, e muito menos que um lar.”
Olhemos para os estudantes deslocados. As faculdades públicas mais conceituadas em Portugal estão concentradas no litoral e, portanto, grande parte dos jovens que vivem no interior são “forçados” a migrar. A par da centralização, temos um outro problema: a crise de habitação. Deveria um jovem com pouco mais de 18 anos preocupar-se com não conseguir prosseguir os estudos por não ter onde morar? Dado que um quarto com pouquíssimos metros quadrados custa 600 euros, o custo acaba por ser demasiado elevado para um part-time cobrir.
Ter um lar é essencial para a saúde mental de qualquer pessoa, mas, quando falamos de um “recém-adulto”, é ainda mais importante. O stress de se entender a si mesmo não deveria vir acompanhado pela culpa de ser uma despesa para os pais e muito menos ter de voltar com os seus desgostos para um quarto vazio e dolorosamente silencioso. Assim, quem haveria de querer voltar para “casa”? Contudo, esta situação não engloba apenas os estudantes. Os trabalhadores, que recebem o salário mínimo ou pouco mais, conseguem pagar uma renda com um valor tão exorbitante? Muito provavelmente não. E, se nem conseguem ter uma casa própria, como vão conseguir formar uma família “estável”?
Observando este panorama, para quê sair da casa dos pais? Parece algo deprimente de se dizer, mas mentira não é: permanecer significa manter um lar, um porto seguro e ter as poupanças relativamente estáveis. Entre pagar 800 euros por um T0, que nem podemos chamar de nosso, ou ter alguém que espere por nós depois de um longo dia, a resposta é óbvia.
Em Portugal, a geração atual de jovens adultos é a mais qualificada e diplomada de sempre. Ainda assim, diz-se que é pouco ambiciosa, que devíamos ser mais como o Cristiano Ronaldo. Contudo, quando ter casa própria é o sonho de muitos e começa a ser algo irrealista, talvez o pessimismo e falta de ambição da sociedade portuguesa não seja um defeito, mas sim uma estratégia de sobrevivência, um pensamento adaptado à economia portuguesa.
Por isso, se vir um jovem de 25 anos com chaves de casa na mão, não o cumprimente: estenda um tapete vermelho. Afinal, está perante um verdadeiro milagre económico português ou um herdeiro de uma sorte que não bate à porta de todos.
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