Num contexto internacional de tendência instável, a vivência prática do direito da liberdade revela-se condicionada por fatores externos e internos. Por isso, o risco e a incerteza associados a cada escolha assumem um maior valor. Embora a liberdade seja frequentemente apresentada como um dado adquirido, a sua aplicação prática revela-se mais exigente. Ser livre implica decidir, expor-se e assumir um risco.

Paradoxalmente, na ausência de imposições visíveis, instala-se uma forma leve de contenção. Em vez de uma exploração das possibilidades, surge a prudência. Não por falta de alternativas, mas por uma tendência quase instintiva e intrínseca ao ser humano de evitar o que escapa ao nosso controlo. Tendemos a escolher o que é estável e previsível, não dando oportunidade de pensar em caminhos menos percorridos, que podem ser mais adequados para nós. Por medo de usar a liberdade que temos tornamo-nos agentes discretamente avessos ao risco. Esta aversão resulta da consciência de que tomar uma decisão, ou enveredar pelo caminho x ou y, nunca é um ato neutro. Cada escolha carrega consigo tudo aquilo que fica por escolher.

Nesse sentido, a liberdade não se limita a aumentar o leque de opções,

como também traduz a possibilidade de podermos decidir as portas que queremos fechar por conta daquelas que vamos abrir.

Existe também outro aspeto associado: o custo de decidir. Este risco associado não é apenas imediato ou material, mas também social. Existe o receio do erro, da crítica e da forma como uma decisão pode ser julgada ou interpretada no presente e no futuro. Quando as consequências de uma decisão parecem difíceis de reverter, o peso da escolha aumenta. Não necessariamente por convicção, mas porque reduz o risco de falhar de forma visível, a escolha deixa de ser um gesto de aproveitar a abertura para se tornar num exercício de contenção. A liberdade deixa então de ser apenas um conjunto de possibilidades e passa a ser também uma forma de responsabilidade. Cada escolha transporta um impacto inevitável, ainda que discreto. Raramente as nossas decisões nos afetam exclusivamente. As nossas ações prolongam-se, tocam a vida dos outros e reorganizam o meio em que nos inserimos. Pequenas decisões acumulam-se e contribuem para a forma como ambientes e relações se desenrolam à nossa volta. A liberdade, longe de ser isolada, afeta um contexto mais amplo, onde o individual e o coletivo se cruzam continuamente.

Assim, a questão não reside simplesmente no que nos é permitido, mas no que fazemos com essa permissão. Talvez a questão que se apresenta na sociedade contemporânea, não seja a limitação da liberdade, mas a forma como ela se torna contida sem deixar de existir. O direito à liberdade não desaparece, mas ajusta-se.