Durante anos, crescemos a ouvir dizer que ler romances não é ler a sério. Vivemos num mundo onde assumir gosto por este género literário é um convite para olhares julgadores e inferiorizações. A sociedade vê a paixão e a vulnerabilidade como fraquezas, clichés e fantasias, mas curiosamente este mesmo género é o mais consumido a nível mundial. Será este fenómeno dado pela facilidade de leitura ou pela busca incessante de um sentimento que nos transcende?

A resposta parece estar distante da nossa compreensão mas talvez, e ao contrário daquilo que é percecionado pela sociedade, não lemos romances pela leveza, mas sim pelo peso que estes carregam. Talvez a leitura se deva às promessas distantes de tudo o que podemos vir a ser e ainda podemos encontrar. Talvez a paixão por este género surja da garantia de que nos vamos encontrar a nós próprios no meio de páginas e silêncios.

Muitos perspetivam esta procura por romances como um escape da vida real e chegam a criticar esta perspetiva por representar um sentimento irreal e inalcançável. No entanto, ler um livro de romance vai muito para além de uma tentativa de fugir à realidade, baseia-se essencialmente na procura de um sentimento que nos sabe a casa.

E por isso, limitar o romance a uma fantasia ou ilusão é colocar de parte o essencial do que é a vida humana, todas as relações interpessoais que nos moldam e todas as fragilidades que escondemos. Muito mais do que narrativas de amor, esses livros relatam situações de solidão, sofrimento, ansiedade e medos que, por vergonha ou receio, escolhemos silenciar.

A força deste género literário reside precisamente na capacidade de oferecer aos leitores um retrato das suas próprias histórias e de tornar estes sentimentos individuais em experiências coletivas. Todos sentimos medo, ansiedade e tristeza, mas raramente temos força para o admitir. No entanto, encontramos um conforto, quando nos deparamos com palavras que se reveem nas nossas e que clarificam todo o ruído que existe na nossa cabeça.

Talvez seja por isso mesmo que o romance seja o género literário mais lido e publicado em todo o mundo. A sua universalidade não depende de condições culturais ou históricas, mas sim da capacidade de transmitir aquilo que é comum a todos: o desejo, a perda, o amor e a pertença. Estes temas atravessam fronteiras e gerações, criando uma ligação invisível entre todos os leitores, entre o silêncio individual e o reconhecimento coletivo.

O romance sobrevive, e destaca-se, por retratar emoções humanas. Numa época em que a comunicação se torna cada vez mais simplificada e superficial,

os livros servem como um caminho garantido para um mundo que oferece sentimentos honestos, profundos e universais.

Assim, talvez a resposta à pergunta inicial seja mais simples do que parece. Não lemos romances apenas pela sua facilidade ou pelo desejo de escapar à realidade, lemos porque precisamos de sentir. Porque, entre as páginas de uma história alheia, encontramos fragmentos de nós próprios, porque é importante valorizar a emoção e a vulnerabilidade. No fundo, talvez ler romances seja apenas um ato de humanidade, um regresso ao que é profundamente humano e nos une a todos.