Opinião de Mariana Loureiro
Artigo exclusivo do site, publicado em Agosto de 2026
“Um bailarino morre duas vezes: a primeira quando para de dançar, e esta primeira morte é a mais dolorosa.” – Martha Graham Martha
Graham, dançarina e coreógrafa norte-americana, impactou o mundo da dança de uma maneira tão marcante, que chega a ser comparada com Pablo Picasso e o seu impacto na pintura do seu tempo.
Nascida em 1894, filha de um médico especialista em disfunções neurológicas que diagnosticava os seus pacientes ao prestar atenção aos seus movimentos físicos e gestos corporais, Martha aprendeu desde cedo que “os movimentos nunca mentem”.
Ao longo dos anos 20, Martha foi criando e desenvolvendo os princípios de contração e expansão (ou libertação) que, aliados à inspiração e à expiração do ar, são a base da técnica de dança moderna. Enquanto isso, coreografava danças focadas na expressão real das emoções humanas, sem esconder qualquer vulnerabilidade, transformando-as em movimentos vivos.
Durante décadas, Martha explorou as formas como o corpo poderia expressar a profundidade da experiência humana, não importando o quão confusa, desconfortável ou feia essa expressão pudesse parecer.
Perco-me em memórias do passado, e se há um lugar onde sempre me encontro é no meio da dança. Olho para trás e aquilo de que sinto mais falta desses momentos é de passar quase todos os meus dias a dançar. Vejo uma menina que ansiava pelos treinos de ginástica artística nos quais se podia desafiar e ajudar as colegas. Noutro dia, essa menina estava numa aula de ballet a sentir tudo o que a preocupava e a transformá-lo em movimento. Noutros dias, ela estava ainda numa sala com mais de 20 pessoas, em aulas de dança comercial, apenas pela diversão, pelos risos e companheirismo. Até durante a pandemia, a menina passava tardes inteiras a aprender as coreografias das músicas dos seus artistas preferidos. Sempre que estava sozinha, perdida nos próprios pensamentos, começava a dançar. Penso que talvez não exista para mim qualquer outra melhor forma de libertar aquilo que não posso traduzir em palavras.
Embora já não esteja tão imersa no mundo desta arte como gostaria, entristece-me reconhecer que, neste preciso momento, as crianças da minha cidade, no interior do país, possam nunca vir a conhecer a dança como eu um dia conheci. A companhia de dança e teatro que acompanhei desde pequenina, tão sonhadora e decidida em Amar a Arte, foi diminuindo e desistindo. O desgaste dos anos, a falta de apoio e o desânimo causado pelo incumprimento de promessas políticas levaram à última atuação das alunas da companhia há poucas semanas.
” A arte é inerente ao ser humano “
…e não me parece que o gradual desaparecimento das artes em algumas zonas do interior seja um bom presságio do futuro.
Ver uma expressão de arte a desaparecer lentamente à minha volta não é só um sinal de que a Cultura é subfinanciada em Portugal, nem de que os apoios se concentram principalmente nos grandes centros urbanos. É um aviso importante de que os nossos artistas se sentem invisíveis, desamparados e de que, mais cedo ou mais tarde, o enfraquecimento do ecossistema cultural nestas regiões traduzir-se-á em mais isolamento no interior do país e em perda de competitividade turística.
Assim, resta-me apelar aos nossos queridos leitores para que apoiem a arte à sua volta. Se puderem, saiam de casa e vão ver aquela peça de teatro, aquele espetáculo de dança ou aquele concerto da orquestra.
Sofia
4 de Setembro
Um texto muito bonito e assustador, mas é a partilhar estas preocupações que talvez se consiga a mudança!