Os primeiros dias de janeiro são marcados por promessas de mudança, de esperança de cair no lado bom do Universo e pela convicção de que algo transformador está prestes a acontecer. Mas afinal… muda realmente alguma coisa além da data?

Todos os anos damos a janeiro um peso que ele não pediu. Encaramos o dia 1 deste mês como um marco simbólico e sufocamo-lo em significados que vão muito além da mudança de calendário. A viragem do ano tem um efeito de recomeço: depois da contagem decrescente, sentimo-nos distanciados das nossas “falhas” do passado – um momento quase mágico, milagroso, arrisco – e acreditamos que é possível recomeçar, reorganizar a vida e reconhecer uma melhor versão de nós mesmos quando nos olhamos ao espelho. 

Se o leitor acha que escapa a este ritual, pense duas vezes. Provavelmente apenas o vive de forma diferente. Há quem pinte dezembro como “o mês da reflexão” e arquitete cautelosamente a construção do seu novo “eu”, com data oficial de início a 1 de janeiro. Outros espremem metas e desejos entre doze passas e goles de champanhe. Uns vão anotando o que gostariam de mudar com a aproximação do fim do ano; outros reconhecem mais cedo, mas empurram resoluções de uma semana para a outra até chegarem, inevitavelmente, à última do ano. E há ainda aqueles que, não compactuando com essa coisa das “metas de Ano Novo”, claro, percebem que vão tomar iniciativa e mudar algo, sendo a coincidência com o início do ano apenas isso: uma coincidência, óbvio!

Somos levados a criar resoluções por diversas razões. Para além das pessoas que nos rodeiam, estamos constantemente expostos a fragmentos da vida dos outros, desconhecidos, com os quais nos comparamos e fazemos destes referências para avaliar a nossa. Vivemos sob o peso de normas e expectativas sociais anteriores a nós, às quais se juntam as pressões de familiares, amigos, colegas de trabalho e de algoritmos exigentes. Soma-se ainda a necessidade de controlo, de redução da incerteza, de propósito e de realização pessoal – o cocktail biológico perfeito para nos levar a planear hábitos e rotinas. Em alguns casos, há também eventos marcantes ou desfechos menos felizes que funcionam como um alerta para a necessidade de mudar: quando, pelas palavras de Freud, a dor do evento supera o medo ou o incómodo de mudar. 

Apesar de o planeamento das resoluções parecer um exercício profundamente individual, os desejos de mudança revelam-se, na prática, bastante semelhantes, sobretudo entre pessoas de uma mesma geração e em contextos semelhantes. Uma breve passagem pelas redes sociais basta para perceber que as resoluções e objetivos “pessoais” são cada vez mais padronizados: promessas de ir ao ginásio um número exato de vezes por semana, a febre das corridas e maratonas, dietas que contrariam a intuição, passatempos inspirados em algum conteúdo que se repete três vídeos abaixo, rotinas cronometradas ao minuto para maximizar a produtividade ou abraçar a mentalidade hustle. Até os objetivos relacionados com a estética e a aparência parecem sair de um mesmo molde. O que poderia ser a expressão de necessidades pessoais acaba por convergir para modelos uniformes, reforçados por tendências digitais e influenciadores de lifestyle que oferecem receitas prontas para “ser a melhor versão possível”. Seja a que esfera da vida se aplicar, a mensagem parece clara: existe um conjunto de soluções certas, bastando segui-las com disciplina.

Mas se adotar novos hábitos ou abandonar comportamentos indesejáveis fosse um processo linear, porque é que se estima que mais de 80% das pessoas já tenha desistido das resoluções de Ano Novo por volta de fevereiro? Ao contrário da leitura mais comum, esta realidade não se deve necessariamente à falta de força de vontade ou disciplina. Muitas resoluções falham não porque as pessoas não queiram mudar, mas porque a mudança foi pensada a partir de pressupostos frágeis, idealizados ou pouco compatíveis com a vida real.

“A mudança foi pensada a partir de pressupostos frágeis, idealizados ou pouco compatíveis com a vida real”

Com frequência, as resoluções estão destinadas a falharem logo à partida. Quando a motivação surge sobretudo de pressões externas, o compromisso torna-se difícil de sustentar no tempo. Além disso, grande parte dos objetivos ignora a etapa mais exigente de qualquer mudança: a transição entre o “eu” atual e o “eu” que cumpre a meta. Perante um ano em branco, somos contagiados por uma sensação renovada de otimismo e pela vontade de compensar tudo o que não foi feito antes. Essa ambição, muitas vezes desmedida, traduz-se em resoluções que procuram transformar, em simultâneo, rotinas, comportamentos e até traços da própria personalidade, esquecendo-se da importância da ajustabilidade ao quotidiano, extrapolando a disponibilidade real de tempo, capacidade de atenção e energia. 

Segundo James Clear, o autor de Hábitos Atómicos, o que distingue quem atinge ou falha as metas não é a intenção, mas os processos construídos ao longo do tempo. A mudança dificilmente advém de um reinício anual intenso; parte antes de ajustes contínuos que permitem recuperar de contratempos sem abandonar o percurso, o famoso “1% melhor todos os dias”. Assim, pode ser benéfico mudar as lentes com que olhamos para este desafio anual, deslocando a pergunta de “o que quero alcançar este ano?” para “em quem me estou a tornar no processo?”, permitindo recentrar a mudança na identidade que se constrói, e não apenas no resultado que se pretende riscar da lista.

Com tantas falhas e incompletudes, este ritual ignora princípios básicos do comportamento humano. Ainda assim, continuamos a apostar num formato de mudança anual, intenso e pouco flexível, esperando que a transformação seja algo espetacular. 

Talvez por isso fevereiro mereça ser visto de outra forma. Em vez de simbolizar o fracasso das resoluções, pode representar um momento de ajuste e reflexão. Pode ser um convite a revisitar os objetivos mais regularmente, em vez de esperar por dezembro, para avaliar o nosso desempenho e conquistas e questionar o que precisa de ser adaptado ou abandonado.

“Talvez seja mais produtivo aceitar que mudar raramente é um ato espetacular.”

Mais do que insistir em planos idealizados, talvez seja mais produtivo aceitar que mudar raramente é um ato espetacular. Na maioria das vezes, a mudança é imperfeita, gradual e discreta. E talvez seja precisamente aí, longe do entusiasmo de janeiro, que ela começa, de facto, a acontecer.