Opinião de Sara Arêde
Artigo exclusivo do site, publicado em Fevereiro de 2026
Os primeiros dias de janeiro são marcados por promessas de mudança, de esperança de cair no lado bom do Universo e pela convicção de que algo transformador está prestes a acontecer. Mas afinal… muda realmente alguma coisa além da data?
Todos os anos damos a janeiro um peso que ele não pediu. Encaramos o dia 1 deste mês como um marco simbólico e sufocamo-lo em significados que vão muito além da mudança de calendário. A viragem do ano tem um efeito de recomeço: depois da contagem decrescente, sentimo-nos distanciados das nossas “falhas” do passado – um momento quase mágico, milagroso, arrisco – e acreditamos que é possível recomeçar, reorganizar a vida e reconhecer uma melhor versão de nós mesmos quando nos olhamos ao espelho.
Se o leitor acha que escapa a este ritual, pense duas vezes. Provavelmente apenas o vive de forma diferente. Há quem pinte dezembro como “o mês da reflexão” e arquitete cautelosamente a construção do seu novo “eu”, com data oficial de início a 1 de janeiro. Outros espremem metas e desejos entre doze passas e goles de champanhe. Uns vão anotando o que gostariam de mudar com a aproximação do fim do ano; outros reconhecem mais cedo, mas empurram resoluções de uma semana para a outra até chegarem, inevitavelmente, à última do ano. E há ainda aqueles que, não compactuando com essa coisa das “metas de Ano Novo”, claro, percebem que vão tomar iniciativa e mudar algo, sendo a coincidência com o início do ano apenas isso: uma coincidência, óbvio!
Somos levados a criar resoluções por diversas razões. Para além das pessoas que nos rodeiam, estamos constantemente expostos a fragmentos da vida dos outros, desconhecidos, com os quais nos comparamos e fazemos destes referências para avaliar a nossa. Vivemos sob o peso de normas e expectativas sociais anteriores a nós, às quais se juntam as pressões de familiares, amigos, colegas de trabalho e de algoritmos exigentes. Soma-se ainda a necessidade de controlo, de redução da incerteza, de propósito e de realização pessoal – o cocktail biológico perfeito para nos levar a planear hábitos e rotinas. Em alguns casos, há também eventos marcantes ou desfechos menos felizes que funcionam como um alerta para a necessidade de mudar: quando, pelas palavras de Freud, a dor do evento supera o medo ou o incómodo de mudar.
Apesar de o planeamento das resoluções parecer um exercício profundamente individual, os desejos de mudança revelam-se, na prática, bastante semelhantes, sobretudo entre pessoas de uma mesma geração e em contextos semelhantes. Uma breve passagem pelas redes sociais basta para perceber que as resoluções e objetivos “pessoais” são cada vez mais padronizados: promessas de ir ao ginásio um número exato de vezes por semana, a febre das corridas e maratonas, dietas que contrariam a intuição, passatempos inspirados em algum conteúdo que se repete três vídeos abaixo, rotinas cronometradas ao minuto para maximizar a produtividade ou abraçar a mentalidade hustle. Até os objetivos relacionados com a estética e a aparência parecem sair de um mesmo molde. O que poderia ser a expressão de necessidades pessoais acaba por convergir para modelos uniformes, reforçados por tendências digitais e influenciadores de lifestyle que oferecem receitas prontas para “ser a melhor versão possível”. Seja a que esfera da vida se aplicar, a mensagem parece clara: existe um conjunto de soluções certas, bastando segui-las com disciplina.
Mas se adotar novos hábitos ou abandonar comportamentos indesejáveis fosse um processo linear, porque é que se estima que mais de 80% das pessoas já tenha desistido das resoluções de Ano Novo por volta de fevereiro? Ao contrário da leitura mais comum, esta realidade não se deve necessariamente à falta de força de vontade ou disciplina. Muitas resoluções falham não porque as pessoas não queiram mudar, mas porque a mudança foi pensada a partir de pressupostos frágeis, idealizados ou pouco compatíveis com a vida real.
“A mudança foi pensada a partir de pressupostos frágeis, idealizados ou pouco compatíveis com a vida real”
Com frequência, as resoluções estão destinadas a falharem logo à partida. Quando a motivação surge sobretudo de pressões externas, o compromisso torna-se difícil de sustentar no tempo. Além disso, grande parte dos objetivos ignora a etapa mais exigente de qualquer mudança: a transição entre o “eu” atual e o “eu” que cumpre a meta. Perante um ano em branco, somos contagiados por uma sensação renovada de otimismo e pela vontade de compensar tudo o que não foi feito antes. Essa ambição, muitas vezes desmedida, traduz-se em resoluções que procuram transformar, em simultâneo, rotinas, comportamentos e até traços da própria personalidade, esquecendo-se da importância da ajustabilidade ao quotidiano, extrapolando a disponibilidade real de tempo, capacidade de atenção e energia.
Segundo James Clear, o autor de Hábitos Atómicos, o que distingue quem atinge ou falha as metas não é a intenção, mas os processos construídos ao longo do tempo. A mudança dificilmente advém de um reinício anual intenso; parte antes de ajustes contínuos que permitem recuperar de contratempos sem abandonar o percurso, o famoso “1% melhor todos os dias”. Assim, pode ser benéfico mudar as lentes com que olhamos para este desafio anual, deslocando a pergunta de “o que quero alcançar este ano?” para “em quem me estou a tornar no processo?”, permitindo recentrar a mudança na identidade que se constrói, e não apenas no resultado que se pretende riscar da lista.
Com tantas falhas e incompletudes, este ritual ignora princípios básicos do comportamento humano. Ainda assim, continuamos a apostar num formato de mudança anual, intenso e pouco flexível, esperando que a transformação seja algo espetacular.
Talvez por isso fevereiro mereça ser visto de outra forma. Em vez de simbolizar o fracasso das resoluções, pode representar um momento de ajuste e reflexão. Pode ser um convite a revisitar os objetivos mais regularmente, em vez de esperar por dezembro, para avaliar o nosso desempenho e conquistas e questionar o que precisa de ser adaptado ou abandonado.
“Talvez seja mais produtivo aceitar que mudar raramente é um ato espetacular.”
Mais do que insistir em planos idealizados, talvez seja mais produtivo aceitar que mudar raramente é um ato espetacular. Na maioria das vezes, a mudança é imperfeita, gradual e discreta. E talvez seja precisamente aí, longe do entusiasmo de janeiro, que ela começa, de facto, a acontecer.
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