Opinião de Andreia Aguiar
Também incluído no FEPIANO 61, publicado em Novembro de 2025
Apesar do declínio do interesse pela literatura, o romance é um género literário que contraria a tendência. A sua popularidade é provada pela criação de espaços online a si dedicados. Já em 1811, quando Jane Austen se estreava com “Sensibilidade e Bom Senso”, este género captou as mulheres britânicas, na sua maioria donas de casa, servindo os livros como uma janela para outros mundos.
O foco dos romances e aquilo que os torna cativantes vai mudando em concordância com as perceções sociais. Para as mulheres do tempo de Austen, os romances traziam emoção à rotina por meio das suas protagonistas: mulheres com vivências diferentes da vida caseira de mãe. No entanto, os romances centravam-se no casamento como necessidade para mulheres, nomeadamente aquelas de poucos recursos.
“aquilo que os torna cativantes vai mudando em concordância com as perceções sociais”
Na obra “Emma” de Austen, Emma, herdeira do seu pai, não precisa de casar, mas isto não a impede de opinar sobre o casamento de Harriet, a sua amiga mais desfavorecida. A história depende das regras sociais que rodeiam o casamento. Apesar do foco no conflito interno da heroína (característico de Austen) é a atitude presunçosa de Emma que cria a intriga. Como fruto do seu tempo, reflete a sua sociedade, ainda que o casamento da própria não seja central.
Entretanto, ondas de movimentos sociais moldaram o mundo até se transformar na sociedade de hoje e os romances acompanharam a maré. A independência económica torna-se na norma na sociedade ocidental, sendo o casamento menos central nas obras modernas, chegando as histórias de amor a um fim muitas vezes sem este desfecho.
A própria circulação das histórias mudou com a revolução digital do século XXI e a resultante ascensão do “Booktok”. Este fenómeno digital move a discussão literária para as redes sociais, ligando os leitores aos autores, convidando o escrutínio público das suas obras. Surge novamente a ideia de que a opinião social influencia a literatura. Os autores sentem a pressão de criar pares (que agradem a opinião das massas) daquilo que deve ser uma relação, caindo por vezes no erro da homogeneização, com conflitos simples e previsíveis.
Por outro lado, estes standards mais elevados dão origem a livros com elementos totalmente novos como histórias com um elenco mais diverso e interesses amorosos afastados de moldes antiquados.
Estes fatores servem como indicadores da direção dos romances modernos: focam-se mais na resolução do conflito interno das personagens consigo mesmas do que com a relação do caráter com o ambiente social, centrando assim a profundidade emocional e nas conexões pessoais. Um exemplo desta última tendência é “Beach Read” de Emily Henry, no qual ambos os protagonistas aprendem a lidar com desilusões das suas vidas: January com a história de amor dos seus pais e Gus com os seus sentimentos de indignidade. Durante a obra, vão sarando as suas cicatrizes juntos.
Assim, é claro que a influência da sociedade nos romances se revela à medida que restrições sociais e económicas se tornam menos rígidas, evidenciando-se, portanto, o papel da opinião pública nas vidas amorosas de personagens fictícias e a relação dinâmica entre os romances e a sociedade.

Sê o primeiro a comentar