Conduzida por Formato Escrito
Também incluída no FEPIANO 61, publicado em Novembro de 2025
Nesta edição, celebramos a literatura, a escrita e as palavras. Assim, fez-nos completo sentido enaltecer também os nossos jovens escritores, as suas influências e as suas jornadas literárias. Reunimos, então, cinco membros da Fink, entre os nossos vários departamentos, para responderem a diversas perguntas sobre o poder das palavras.
O que te motivou para começares a escrever?
Rita Loureiro – Sendo algo que faço desde muito jovem, confesso que esta é uma pergunta difícil. Escrever sempre foi uma fuga da realidade e um dos meus hobbies favoritos. Mas, penso que tudo nasceu do incentivo por parte dos meus professores de português para escrever, sempre me ajudaram a melhorar os textos e encorajaram-me bastante. Lembro-me que a motivação maior surgiu no 2ºciclo quando participei em oficinas de escrita e concursos ligados à gramática e leitura mas, foi consolidada já no ensino secundário com uma professora incrível que me encorajou a continuar mesmo quando eu achava que essa vontade estava a desaparecer e, até hoje, sou grata por não me terem deixado desistir!
Tudo isto fez com que esse bichinho da escrita continuasse até hoje, mesmo estando numa área mais ligada às ciências socioeconómicas e não de letras.
Guilherme Sampaio – O que me motivou a começar a escrever foi sobretudo a curiosidade e a vontade de experimentar uma forma diferente de comunicar. No início, escrevia porque queria compreender melhor os assuntos que me rodeavam e aprender a estruturá-los de forma clara. A escrita apareceu como um desafio pessoal: perceber se conseguia transformar ideias soltas em algo que fizesse sentido para os outros. Com o tempo, este primeiro impulso evoluiu, mas foi essa vontade de aprender, testar e criar que me levou a dar os primeiros passos.
Sofia Condez – Definitivamente ler. Ler as histórias dos outros e querer inventar as minhas. Desde mais nova até agora, nunca a minha motivação mudou, ler põe-me a escrever. Na categoria mais específica dos artigos, também me vejo movida por ter algo a dizer, ou a comentar, em especial no tópico da cultura. Mas comecei a escrever porque gosto de ler, e os dois continuam num par.
Também me ficaria mal não mencionar aqui os meus dois professores de português, Bruno e Luísa, que sempre puxaram os limites que eu achava que tinha, que me ensinaram a escrever e sobre literatura. Foram as aulas apaixonadas deles em que aprendi a gostar de ler, e, por conseguinte, a escrever. Ainda hoje guardo e uso com regularidade as suas lições, dicas, e apontamentos.
Martim Pereira – Não tenho nenhuma razão especialmente glamorosa. A primeira vez que eu escrevi alguma coisa com o intuito que esta fosse lida foi exatamente por me ter juntado à Fink.
Sara Arêde – Desde pequena que sou uma pessoa que sente bastante e de forma intensa. A escrita sempre foi o meu porto seguro, a minha confidente. Ajudava-me – e continua a ajudar– a tirar do peito as “emoções grandes”, a ordená-las e a compreendê-las. Mas escrever não é apenas a minha forma de expressão de eleição para autoconhecimento, também é a maneira como me comunico melhor com “o outro”. Acho que estas são as duas principais razões que me fizeram pegar na caneta.
Como é que planeias a tua escrita? Ou é algo do momento?
Rita Loureiro – Sempre senti que a escrita era algo natural, algo que fluía com bastante facilidade. Contudo, esta fluidez aplica-se maioritariamente ao estilo de escrita livre, aquela que é feita para mim, sem uma estrutura ou tema rígidos. Já na escrita mais formal, para trabalhos, testes ou artigos publicados, o processo tem de ser mais cuidado e pensado, e seguir uma sequência eloquente e lógica para captar a atenção dos leitores. Apesar de tudo isto, tento sempre deixar o texto o mais genuíno e autêntico possível para quem o lê, mas mantendo, claro, o rigor e o planeamento necessários para garantir a qualidade final do trabalho.
Guilherme Sampaio – O meu processo de escrita é uma mistura de planeamento e espontaneidade. Normalmente, começo por fazer pesquisa sobre os temas, especialmente para aqueles relacionados com as edições do Fepiano. Depois, analiso a importância do assunto para os leitores e questiono-me se vale a pena escrever sobre ele, considerando também se o tema já foi amplamente debatido. Em outras situações, os temas surgem de forma natural, como aconteceu com o Orçamento de Estado e as eleições autárquicas, acontecimentos que estavam a decorrer enquanto escrevia os artigos.
Sofia Condez – Nunca me é propriamente algo do momento. Nunca consigo escrever sem planificar primeiro as minhas palavras, e também não consigo fazê-lo sem me apoiar em alguma pesquisa. A minha rotina neste assunto costuma ser a seguinte: Escolher um tópico, e apontar as minhas opiniões já formadas neste; Pesquisar comentários de outras pessoas no assunto, para poder encontrar argumentos tanto positivos e negativos em que não tenha pensado; Planificar o texto (introdução, primeiro ponto, …); Começar a escrever, parando várias vezes para pesquisar sobre os diversos assuntos em que tocar; E, por fim, “limpar” o resultado.
Martim Pereira – Bom, a maior parte daquilo que eu escrevo são ensaios sobre a atualidade política. A maior parte das vezes, simplesmente abro um documento e começo a escrever sobre aquilo que me tem chamado a atenção, mas costumo ter uma ou duas reflexões às quais quero chegar. Outra vezes venho já com uma reflexão feita, sobre a qual tenho incidido muito e quero passar para o papel, mas é raro.
Sara Arêde – Depende muito do tipo de escrita. Se for algo pessoal, geralmente é quando estou a sentir algo forte, bom ou mau, e surge a oportunidade de captar essa emoção crua. Se for algum tipo de projeto, como um artigo para o fepiano, uma vez que demoro bastante para me concentrar plenamente e entrar num fluxo criativo, prefiro olhar para a minha agenda e reservar um intervalo para me focar. Costumo escrever primeiro tópicos soltos, notas imprecisas de pontos interessantes de serem abordados, resultados de pesquisas sobre o tema ou até mesmo expressões ou palavras de que não me quero esquecer. Depois, começa um verdadeiro trabalho de corte e costura para construir um texto fluído e coeso através da junção destes retalhos.
Onde procuras a tua inspiração para a tua escrita?
Rita Loureiro – Poucas foram as vezes em que escrevi por obrigação. Na minha opinião, a escrita deve surgir de momentos em que sinto vontade de o fazer, seja para desabafar ou até para expor a minha visão sobre um determinado tema. Diria que a necessidade de escrever e a inspiração surgem lado a lado. Não sei se usaria a palavra inspiração neste contexto, mas há dias que sinto a necessidade de escrever, seja porque tive um dia mau, estou stressada, aprendi sobre um tema e quero pesquisar e descobrir mais ou até porque tive um dia inesquecível e não me quero que esse momento se perca. Tenho muita pena que, em épocas mais desafiadoras da faculdade, não tenha tempo para escrever e para me expressar desta forma tão bonita. Mas, sempre que posso, dedico um pouco do meu tempo livre para falar das minhas emoções ou até de políticas sobre habitação, porque na escrita tudo é válido e importante.
Guilherme Sampaio – A minha inspiração vem sobretudo dos problemas da sociedade. Gosto de abordar assuntos pouco discutidos, temas que não recebem destaque suficiente na comunicação social, ou questões que afetam diretamente a vida dos jovens e estudantes. Observar o quotidiano, ouvir histórias, acompanhar debates e analisar acontecimentos políticos e sociais ajuda-me a identificar tópicos que merecem reflexão. Acredito que escrever sobre estes temas pode esclarecer, provocar curiosidade e despertar nas pessoas uma maior consciência e sentido crítico sobre a realidade que as rodeia.
Sofia Condez – Na escrita dos outros e noutros formatos de arte, em conversas com amigos, nas notícias, nas aulas, na internet, na natureza.
Martim Pereira – Mais uma vez, os desenvolvimentos na conjuntura política do país e do mundo são todos muito esmiuçados na comunicação social, de forma expositiva, mas também crítica. Consumir os factos e as opiniões de determinadas vozes mais influentes deixa-me sempre a cogitar sobre possíveis reflexões da minha autoria.
Sara Arêde – Em todo o lado: em conversas que tenho, algum vídeo que vi, problemáticas mais ou menos atuais, questões que me tocam mais pessoalmente, pensamentos de almofada, algum assunto trabalhado em aula ou até mesmo na música que ando a ouvir naquele momento. Quando preciso de escrever algo sobre algum tema em específico e tudo isto falha a contagiar-me de ideias, acabo por discuti-lo com amigos, e surgem sempre várias perspetivas e questões que acabam por me desbloquear.
Que autor mais te inspirou?
Rita Loureiro – O meu gosto pela escrita surgiu muito cedo e, embora a minha preferência passe por textos expositivos e de opinião, há alguns autores portugueses que marcaram profundamente a minha infância. Nomes como José Jorge Letria, Alice Vieira, Sophia de Mello Breyner Andresen e Luísa Ducla Soares representaram o meu primeiro contacto com a literatura e são aqueles que me vêm à mente quando me perguntam sobre inspiração. Mais recentemente, uma autora que me marcou foi Heather Morris, muito devido ao seu livro “O Tatuador de Auschwitz” .
Guilherme Sampaio – O autor que mais me inspirou foi George Orwell. A maneira como, em “1984”, expõe as fragilidades da sociedade e a importância da consciência crítica, influenciou profundamente a minha forma de ver a escrita. No entanto, o ponto que mais destaco é o facto de a relevância de Orwell se manter na atualidade, porque continua a lembrar-nos de como a falta de transparência e a manipulação da informação podem moldar silenciosamente a sociedade.
Sofia Condez – Escolher só um autor é-me difícil, e definitivamente depende do específico. Para querer e começar a escrever, a J.K. Rowling, a minha primeira escritora favorita antes de todos os seus problemas. Foi “Harry Potter” a saga que me puxou para o mundo das palavras e da fantasia. A nível português, Afonso Cruz, com o seu “Os Livros que Devoraram o Meu Pai”, Saramago e o seu diálogo, e Eça de Queirós e as suas descrições. Atualmente, depois de um retorno aos universos da fantasia, vejo-me muito inspirada pela escrita de Tolkien e pela construção de Brandon Sanderson.
Martim Pereira – Difícil dizer. Eu não sou um romancista, nem nada que se lhe pareça. Não tem a ver com desapreço pelo género, é só que a plataforma de escrita que eu tenho é direcionada para texto jornalístico. Se eu tivesse de apontar um autor que me fascina, eu diria George Orwell. Nunca me senti particularmente atraído por escrita demasiadamente rebuscada, apenas para exibir cultura. Para mim, o engenho vem da forma subversiva como a frase está contruída. Orwell sempre me impressionou pela forma como dizia coisas desconcertantes de forma seca, um pouco como Kafka, mas, as de Orwell eram mais pontuais. Acho muito impressionante a forma como Orwell destila reflexões atordoantes e regressa à narrativa como se nada fosse. Se tiver de dar exemplo de crónicas das quais o engenho eu tento emular seriam as de Daniel Oliveira, pela astúcia no cogitar, na sua forma mordaz de criticar, e na forma como muitas das suas reflexões têm um leve embelezamento prosaico.
Sara Arêde – Acho que não consigo pensar em nenhum(a) autor(a). Nunca fui muito fiel a nenhum nome para ser sincera. Tive a sorte de ter crescido numa casa recheada de livros e de ter tido amigas na infância com as quais trocava outros tantos. Por isso, ia lendo diversos géneros e contactando com diferentes autores. Mas todos eles me inspiraram, mais ou menos, cada um à sua maneira: cada redação de português, cada uma das linhas rabiscadas nos meus journals, cada poema perdido nas notas do telemóvel, cada artigo meu na Fink foi-se transformando conforme os meus hábitos de leitura e inclinações. Sinto que o meu crescimento pessoal e a maneira como me expresso através da escrita estiveram sempre intimamente relacionados com a evolução da minha leitura, do que vivia entre capa e contracapa, e não tanto com autores específicos.
Qual o momento com a tua escrita de que mais te orgulhas?
Rita Loureiro – Sendo a escrita um dos meus momentos favoritos e mais autênticos, considero que cada ato de escrever é, em si, um motivo de orgulho. No entanto, eu consigo distinguir duas naturezas distintas nesse sentimento. Por um lado, existe a satisfação que advém de ver um texto publicado e lido por um vasto número de pessoas. Neste cenário, o orgulho reside em ouvir feedback positivo não apenas sobre a forma como escrevemos, mas também sobre o tema escolhido.. Por outro lado, e não menos importante, existe o orgulho mais pessoal. Este surge nos momentos em que a escrita se torna um refúgio e uma ferramenta de desabafo. Quando consigo passar para o papel uma emoção ou um sentimento que estava preso, que não conseguia expressar “em voz alta” sinto um certo orgulho.
Guilherme Sampaio – O momento do qual mais me orgulho foi a publicação do meu primeiro artigo. No secundário, tinha o sonho de criar um jornal, mas não tive a oportunidade de o concretizar. Por isso, pertencer à Fink e lançar o meu primeiro artigo foi um marco especial. Senti que estava finalmente a concretizar algo que desejava há muito tempo.
Sofia Condez – Comicamente, orgulho-me de algo completamente indisponível a quem estiver a ler – a minha composição no exame de Português do décimo segundo ano. Lembro-me perfeitamente do tópico – “o heroísmo exige percorrer um caminho árduo, que implica renúncia e sofrimento” – que sempre me foi muito próximo, algo que eu procuro e admiro nas histórias que leio, e que acabou por ser a perfeita conclusão para os meus anos de Liceu. De resto, tento ter algum orgulho em tudo o que escrevo, e gostava de realçar um artigo que publiquei com a Fink, “O monstro que se esconde por trás dos montes”, em que falo da terra que me é querida e dos dilemas dos seus habitantes.
Martim Pereira – Um dos primeiros artigos que escrevi, “Democracia, uma vontade ou um valor incutido”. Sinto que expressei particularmente bem o meu ponto, bem como divergi para tangentes particularmente interessantes, com exemplos pertinentes. A pertinência é algo que valorizo muito. É importante, principalmente na escrita jornalística, sentir que estamos a adicionar qualquer coisa à discussão. Para além disso, foi um artigo que escrevi após um acontecimento um pouco mais abrupto, por assim dizer, e as minhas opiniões estavam mais à flor da pele. Como tal, sinto que do ponto de vista da prosa também foi um dos meus melhores.
Sara Arêde – Pensei imediatamente , não em um, mas em dois momentos que me orgulham por ter sido capaz de sair da minha zona de conforto e ter contrariado o medo de não ser capaz.
O primeiro foi quando ainda estava no secundário e escrevi um artigo de opinião que criticava o regresso da tauromaquia a Alpiarça, a vila ribatejana de onde sou. Estava muito revoltada com este retrocesso que iria roubar espaço de representação de grupos e organizações culturais cada vez mais apagadas. Publiquei-o na página do Facebook da vila com o objetivo de introduzir um “e se” numa região onde a paixão pelas touradas não é questionada, mas não esperava a dimensão que tomou. Foram vários os tipos de resposta ao meu texto e diferentes as intensidades, o que me fez perceber, talvez pela primeira vez, o poder que as minhas palavras poderiam ter.
O segundo foi com o primeiro artigo aqui na Fink, no 1º ano da minha Licenciatura. Lembro-me de estar na primeira reunião e não conhecer ninguém. Estávamos a dividir artigos e faltava alguém para fazer a crítica de uma peça de teatro ainda por definir. Alguém acreditou em mim por mim e acabou ser um momento muito especial: a peça retratava as minhas raízes scalabitanas, tive um bocadinho de “casa” no Porto e fiquei muito satisfeita com o artigo.
Ambos os momentos ajudaram-me a trabalhar o meu medo de errar e de tentar algo novo.
Qual a tua opinião sobre escrita assistida com IA?
Rita Loureiro – É inegável que a IA veio para ficar, e o nosso papel não é fugir dessa realidade, mas sim integrá-la. Contudo, defendo que a escrita, na sua essência, carrega um sentimento e uma autenticidade que a IA, pela sua natureza, ainda não consegue imitar. Existem domínios ligados à experiência pessoal e à emoção onde o criador humano é insubstituível. A escrita mais sentimental e genuína nasce da vivência e da consciência, características que permanecem fora do alcance da IA. Dito isto, a IA é uma ferramenta de apoio que pode auxiliar-nos na pesquisa de temas e atuar como corretor de gramática e estilo. Ao usarmos a IA para aperfeiçoar o lado técnico, podemos libertar o nosso tempo para o que é fundamentalmente humano: a criação de significado e a expressão da nossa voz única.
Guilherme Sampaio – Acredito que a escrita assistida por Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta útil para apoiar o processo criativo, seja ao organizar ideias ou a facilitar a pesquisa. No entanto, penso que a essência da escrita continua a ser humana: a sensibilidade, a intenção e a experiência pessoal do autor são insubstituíveis. A IA deve complementar, não substituir.
Sofia Condez – Completa desaprovação. O uso da Inteligência Artificial já é, para mim, algo completamente ridículo, prejudicial, e desnecessário. No caso específico da escrita, ou até de todos os tipos de arte, reprimo-a completamente. A arte é algo inerentemente humano, sendo-nos tão querida porque reflete o nosso espírito. Quando IA tenta produzir “arte” falha aí, não consegue sequer espelhar o sentimento e a alma humana. Não vejo qualquer benefício no uso de serviços de IA na escrita sabendo que há tantas pessoas com tanto talento capazes de o fazer melhor, e, por norma, essas pessoas querem-no fazer, e colocam o trabalho e o esforço nos seus textos. Por outro lado, encontro vários pontos negativos: o prejudicar do ambiente e o gasto da nossa água potável; o conformismo que tem provocado nas pessoas, fazendo com que se habituem e se esqueçam de como se escreve sem ajuda; as respostas todas iguais, e o tipo de escrita sempre parecido que dificultam a procura de bons artigos para ler no dia a dia; entre muitos outros.
Martim Pereira – Não é algo que me interesse consumir ou usar como ferramenta. Debruçando-nos agora um pouco mais na literatura, um livro também serve como uma janela para a reflexão do autor na altura que foi escrito. Os possíveis erros ou vieses são informações relevantes. Por isso, enquanto a inteligência artificial escrever livros imperfeitos, é uma perda de tempo. Quando escrever livros perfeitos, não vai adicionar nada à antologia mundial.
Sara Arêde – Tenho uma opinião bastante mista neste tópico. Por um lado, reconheço que é uma ferramenta muito facilitadora no sentido de pesquisa de informação: reduz para metade o tempo que perdíamos, por exemplo, à procura de artigos científicos ou de fontes que nos esclarecessem alguma dúvida. Por outro… Sinto que nos rouba a capacidade de cultivar criatividade, de ultrapassar a dificuldade de lidar com o “descobrir o que vem a seguir” em vez de simplesmente pedir a solução a algoritmos que, por sua vez, a vão buscar a quem não é devidamente creditado.
Enquanto não são criadas restrições ao uso de IA, penso ser muito importante que cada um se questione sobre a moralidade do uso pessoal que dá a esta tecnologia, sobretudo nos dias de hoje, em que o controlo da qualidade da informação é cada vez mais lasso e as formas de arte e a expressão estão sob ameaça, caminhando para um lugar cada vez mais impessoal e homogéneo.
Na escrita, penso que não se torna moralmente questionável se se usa esta ferramenta para assinalar erros gramaticais ou debater se fica melhor A ou B, até porque tudo isso são pequenas ajudas que peço à minha mãe ou amigos mais próximos – um grande agradecimento a todos aqueles que tiraram um momento para ver os meus textos antes de serem convertidos a versão final, que debateram hipóteses de título ou a posição de uma vírgula. Ao criar, temos de nos reconhecer nas nossas palavras; se não o conseguirmos fazer, está na altura de repensar a assinatura premium do ChatGPT.
Porque escreves?
Rita Loureiro – Escrever sempre foi para mim uma fuga da realidade e um dos meus hobbies favoritos. Inúmeras vezes, a escrita serviu de refúgio para expressar sentimentos que não conseguia verbalizar e para desabafar os meus próprios pensamentos. Para além deste lado mais íntimo, sempre me interessei por textos expositivos ou de opinião sobre temas atuais e notícias recentes. Senti que era uma forma de ler, pesquisar sobre o que me cativava e conseguir expor essas ideias, juntamente com a minha perspetiva. Muitas vezes, os textos que escrevia durante horas não eram lidos por ninguém, mas eu sentia um alívio e uma felicidade imensos ao terminá-los (e tudo em papel, o que tornava o processo mais autêntico).
Guilherme Sampaio – A escrita é, para mim, um espaço de liberdade. É o lugar onde posso expressar a minha opinião de forma clara e consciente, especialmente porque sinto que existem poucos espaços onde os jovens podem realmente fazer ouvir a sua voz. Através da escrita, consigo refletir sobre o que me preocupa, questionar o que me rodeia e contribuir para debates que considero importantes. É a minha forma de participar, de intervir e de tentar gerar algum impacto positivo.
Sofia Condez – Escrevo porque posso. A escrita, as palavras, são um direito e uma arte humana, que já nos foi retirada (no caso, tentativas) várias vezes ao longo da história, sempre por motivos de opressão. Assim, escrevo enquanto puder, e sei que continuarei mesmo se me for retirada. Tenho algo a dizer, e tenho, por sorte ou por esforço, a capacidade de o colocar em palavras. Também escrevo porque leio, porque outros autores me inspiram, e as suas frases ficam comigo; por rotina, já se tendo tornado um hábito quase diário; e (quase que) por necessidade.
Martim Pereira – Esta é simples. Escrevo porque gosto, para além de que é algo em que estou decidido em tornar-me melhor. A boa escrita é a maior demonstração de genialidade. Ter uma mente analítica suficiente para que os seus pensamentos valham a pena ser lidos, para além da criatividade para criar algo do vazio, é uma demonstração de engenho verdadeiramente pasmosa. Daí a minha vontade de me desafiar a fazê-lo. Para além disso, sempre quis ter ferramentas para criar algo culturalmente relevante. A escrita é onde chego mais perto de o fazer. É prazeroso ter um produto final, mas é ainda mais ter um processo criativo.
Sara Arêde – Julgo que aquilo que me leva a escrever nasce precisamente daquilo que me fez começar a fazê-lo: uma grande vontade de me conhecer e de fazer sentido do que me rodeia. Sinto que não sou apenas eu, vivemos todos tão acelerados que, por vezes, nem nos ouvimos realmente. Escrever obriga-nos a parar e a escutar o que vai dentro de nós e o que se passa à nossa volta, a ponderar e a sermos mais conscientes.
No caso dos artigos do Fepiano, escrevo porque é uma oportunidade constante de aprendizagem: a cada edição sou exposta a temas diferentes, o que me obriga a pesquisar sobre áreas variadas, a tomar uma posição, a refletir e a adaptar a forma como me expresso em relação a assuntos com características muito distintas. É um ótimo exercício para desenvolver o meu sentido crítico, a criatividade e a capacidade de comunicar com mais clareza e intenção.







