André Campos é estudante de Doutoramento em Gestão na Faculdade de Economia da Universidade do Porto desde 2021.

Tem mais de 10 anos de experiência em desenvolvimento de negócios, comércio internacional e desenvolvimento de projetos industriais.

É CEO e co-fundador da Susplus, uma empresa que fornece soluções inovadoras de gestão climática baseadas em dados, usando o poder da tecnologia para ajudar empresas de todos os tamanhos a acelerar a sua transição para a neutralidade carbónica. 

Como surgiu a Susplus e que lacuna identificaram no mercado que a empresa procura colmatar?

A Susplus é um spin-off aqui na Universidade do Porto, neste caso, um spin-off da FEP. Vem um pouco do meu projeto de doutoramento, embora este esteja mais ligado à parte de tecnologia que interligo com a indústria da moda. Apesar de ser algo que não está cem por cento relacionado com a Susplus, tem uma carga científica grande que me permitiu posteriormente criar a empresa. Ela surgiu no final do ano passado, foi criada oficialmente no final de 2024, mas só ao longo de 2025 é que realmente ganhou alguma maturidade, uma vez que comecei o processo do zero, isto é, tive que arranjar co-fundadores, entrar no ecossistema, conseguindo depois desenvolver a empresa para chegar ao momento em que estamos: temos já pilotos oficializados, estamos agora a expandir para outras empresas… A ideia de negócio em si na empresa já foi algo que vinha de trás, quando eu me inscrevi aqui na FEP, no doutoramento. Uma das ideias que eu tinha na altura, que não sabia se era possível concretizar ou não, era fazer uma spin-off do meu doutoramento. A ideia consistia em conciliar a parte científica com a parte pragmática e usar esse conhecimento para conseguir criar essa spin-off, que conseguisse ajudar a indústria da moda a fazer descarbonização ou ajudar nos processos de descarbonização e criar uma indústria mais verde. O que acabou por ser engraçado, relacionado com o empreendedorismo foi que quando começámos a ir ao mercado, fizemos um processo até contrário,  começamos a falar com potenciais clientes, empresas do mercado, antes sequer de construirmos alguma coisa e quando começamos a ir ao mercado, quem nos começou a pedir esta solução foi a indústria de transformação alimentar e particularmente mais da economia azul: as Conservas Portugal Norte, a Flatlantic, que é uma empresa de aquacultura em Mira e a Lusiaves, que toda a gente conhece, é um grupo gigantesco com mais de 30 empresas no seu guarda-chuva. Foi interessante nós percebermos que uma coisa é realmente nós construirmos o conhecimento científico, outra coisa é o processo de empreendedorismo que tem que haver uma flexibilidade para nós conseguirmos adaptar-nos às condições do mercado e onde realmente começam a existir as oportunidades. E nós começámos por essa área a explorar um pouco essas oportunidades e mesmo posteriormente, quando já tinha co-fundadores, o Manuel e a Inês, nós até falámos um pouco sobre isso, o nosso conhecimento assentava mais na parte de indústria de moda, e tinha bastante contactos e ainda continuo a ter bastantes contactos na indústria de moda, e não percebíamos muito, por exemplo, de conservas, não percebemos muito da indústria de mar. Porém, realmente há processos, há muitas coisas que são transversais, independentemente das indústrias. Já estive em várias indústrias para além da moda e há processos em que o expertise é nas indústrias em si, ou seja, quem nos vai trazer o expertise da indústria de mar são as conserveiras, é a Flatlantic por exemplo, nós temos é que conseguir aproveitar o máximo do expertise deles e conseguir criar soluções para esse tipo de indústria.

Teve alguma experiência pessoal, um mentor, ou até mesmo alguma celebridade que o tenha inspirado a seguir este percurso?

Sinceramente, não. Eu sei que às vezes isso são catalisadores para criar novos negócios, criar empresas, mas sinceramente não. Eu acho que o que me fez chegar a este ponto e criar uma empresa, acho que parte um pouco do perfil das pessoas também, porque há pessoas que podem não ter tanto perfil de empreendedorismo, embora não concorde que haja uma diferenciação assim tão grande, acho que qualquer pessoa, independentemente do momento em que está na vida se pode tornar empreendedor. Um caso muito específico é o de muitas pessoas que perdem o emprego e se tornam empreendedores por esse mesmo motivo. No meu caso não foi assim, trabalhei em várias indústrias ao longo de vários anos, já tinha passado pela indústria europeia pela indústria asiática, já tinha atravessado alguns tipos de indústrias diferentes e chegou a um momento que pensei: “já vi muita coisa, percebo muito bem como é que isto funciona, consigo perceber os constrangimentos de muitas das empresas, se calhar está na altura de realmente sair da empresa onde estou e criar alguma coisa” e foi assim que realmente começou. Foi mais esse processo ao longo de anos e não tanto um catalisador específico.

Que conselho daria a jovens que procuram seguir uma carreira ligada à sustentabilidade?

Essa é uma pergunta difícil. A minha perspetiva pessoal é que a sustentabilidade vai tornar-se algo que é integrado nas empresas. Acho que é algo que vai fazer parte do dia-a-dia, e vai fazer parte dos vários departamentos das empresas. Não só um departamento, claro que há departamentos específicos, e pode haver departamentos específicos a trabalhar nisso, e depende muitas vezes da dimensão das empresas, mas acho que a sustentabilidade vai tornar-se integrada em diversos processos de diferentes departamentos. 

Por isso, o que eu diria é, quem quiser trabalhar nessa área, deve começar a explorar, primeiro, que áreas é que quer trabalhar numa empresa, e segundo, como é que essas áreas podem alavancar valor para esta estratégia de sustentabilidade. Como é que vamos trazer a sustentabilidade para dentro da minha área? Quer seja financeira, quer seja de marketing, quer seja de recursos humanos, porque a sustentabilidade tem, no fundo, um leque muito alargado de coisas, da parte do environmental, do social, do governance, por isso acaba por ser transversal às empresas. E acho que trazer isso para dentro dos seus próprios departamentos, conseguir alavancar nos processos em si, é um bom ponto de partida para isso.

Houve algum momento decisivo na sua carreira que o levou a focar-se mais intensamente nas questões climáticas e de sustentabilidade?

Como há pouco eu expliquei, não tanto um momento específico, mas ver muitos dos processos que aconteceram na parte industrial. Eu, a trabalhar na parte europeia ou na parte asiática, em diferentes empresas, consegui ver os mesmos processos, ou processos semelhantes, a serem feitos tanto de um lado como do outro. Existe muito o estigma que na parte asiática, há menos controlo sobre estes processos de sustentabilidade, mas se formos a olhar, por exemplo,para a indústria europeia, é inqualificável a quantidade de desperdício, por exemplo, que uma fábrica produz. É algo que, se nós estivermos no dia-a-dia de uma fábrica, por vezes conseguimos ver a sair contentores de desperdício, não digo diariamente, mas semanalmente, dependendo também da dimensão da fábrica. E isso é valor que às vezes não é aproveitado, porque poderia haver otimização de gastos, materiais, pode haver até, por exemplo, a requalificação de materiais para outras indústrias. E acho que todos estes processos, e ver essas cadeias logísticas a funcionar, e as cadeias internas das fábricas a funcionar, levou-me a que realmente abraçasse um bocado esta área.

Acredita que as novas gerações estão mais preparadas e conscientes para enfrentar os desafios climáticos? Porquê? 

Primeiro, as novas gerações estão sempre mais preparadas do que as anteriores, felizmente. E acho que, nesta área climática, vejo muito que… por exemplo, no meu caso, sou millennial, mas eu vejo que da minha geração para a seguinte, a Gen Z, já houve uma evolução muito grande. Enquanto, se calhar, nós tínhamos uma preocupação grande na parte do propósito, esta geração nova já trouxe um movimento bastante mais, não gosto muito desta palavra, mas mais agressivo na defesa destes valores. E acho que isso se deveu a alguns movimentos, por exemplo, um deles, quer se goste ou não, da Greta Thunberg, foi um dos que alavancaram muita gente que era jovem na altura, no secundário ou nas escolas básicas. É um exemplo que consegue criar uma ideologia à volta de uma área climática. Acho que as novas gerações já têm muito esta preocupação, não é que as nossas não a tivessem, mas agora existe essa preocupação por se calhar começarem a ser mais afetadas por esta transição climática. Mas espero que esta geração desloque muito valor para esta área.

Que papel podem as universidades desempenhar na promoção de práticas mais sustentáveis, para além do ensino teórico?

As universidades têm aqui um papel fundamental, teórico, com o conhecimento científico, que é uma base bastante importante, principalmente a parte do conhecimento científico, porque é este que realmente é de alavancagem de valor na sociedade e nas empresas. A diferença entre conhecimento e conhecimento científico é grande, porque este último permite trazer soluções bem mais avançadas, mais desenvolvidas e mais estruturadas para alavancar valor, e as universidades têm que ser realmente um  motor deste tipo de conhecimento. Outras áreas que a universidade pode envolver são as explorar que impacto é que nós conseguimos criar, quanto a alunos, professores, funcionários, colaboradores na nossa envolvente. O que é que nós conseguimos criar, quer seja o conhecimento, quer com os diversos intervenientes que existem à nossa volta? Temos de ser catalisadores dessa mudança. A FEP tem trabalhado bastante através, por exemplo, do Comité de Sustentabilidade, em que toda a gente que faz parte deste se tem envolvido e tem desempenhado um papel muito relevante na transição dos processos da faculdade, na implementação dos processos de sustentabilidade, no impacto que gera aqui e fora de portas. É muito interessante ver que realmente cada pessoa, individualmente, traz bastante valor para esse impacto, e é aí que a universidade deve atuar. Promover estas aplicações, criar contextos para que os alunos promovam as suas iniciativas, não só dentro da faculdade, mas também fora.

A transição para a neutralidade carbónica é muitas vezes apresentada como inevitável. Acredita que as empresas estão verdadeiramente preparadas para essa mudança? 

Acho que não, sinceramente. Por isso é que também surgiu um pouco a empresa de spin-off Susplus. Nós, quando vemos esta transição climática, normalmente pensamos num abstrato, que é transversal a todas as empresas. E nós não podemos ver isto assim. Porque, para começar, as empresas têm diferentes dimensões, diferentes indústrias, têm diferentes características.  Nós temos que ver isto como conseguir criar soluções para casos específicos ou para áreas específicas. Nós se calhar, se virmos uma grande empresa, pensamos que poderá estar mais preparada. Pelo menos tem as condições para estar mais preparada, porque tem budgets maiores, porque tem mais pessoas, porque tem, se calhar, já softwares ou processos implementados, tendo a possibilidade de talvez conseguir preparar-se melhor para isto. Mas se formos ver, no caso do mercado português, até europeu, quase 99% das empresas são pequenas e médias empresas. E aí está uma grande fatia e é fundamental nós conseguirmos trazer esta transição climática para estas empresas. É muito importante nós focarmo-nos também nestas empresas. Ao contrário das grandes empresas, elas vão ter bastantes dificuldades. Estas têm equipas curtas, por exemplo, não conseguem ter alguém que está só dedicado à sustentabilidade, alguém, por exemplo, de sourcing, de operações, ou outras áreas é que vai trabalhar a sustentabilidade. Nós vemos iniciativas muito interessantes em empresas. Por exemplo, estivemos numa empresa em que eles tinham imensas iniciativas, já tinha robotização, automação, painéis, tinha uma série de processos ligados à sustentabilidade mas, por exemplo, falhava numa área fundamental, porque tinha iniciativas avulso, mas depois não tinha uma estratégia para sequer se reenquadrar na regulamentação ou sequer comunicar para os clientes ou para os parceiros o que eles realmente estavam a fazer. E nós temos que começar a ter noção de que este tipo de empresas, este tipo de mercado, tem especificidades e tem que se construir soluções específicas para esse mercado. Se nós não conseguimos dar soluções a esta grande fatia e à escala das PMEs, nós não temos uma solução para a transição climática. Porque a transição climática não é só feita por grandes empresas.

Que erros mais comuns observa nas empresas quando começam a trabalhar temas como sustentabilidade e ESG? 

Eu acho que não é um erro, mas acho que são as prioridades, isto é, as empresas muitas vezes começam a trabalhar isto sem uma estratégia. 

No exemplo que estava a dar anteriormente, se nós formos ver, muitas destas empresas já têm iniciativas. Só que são iniciativas que não têm uma componente estratégica associada. Mas, eu acho que isso é fundamental, nós conseguirmos perceber, primeiro, onde é que eu quero estar com a minha empresa daqui, por exemplo, a 5 anos, e onde é que eu quero chegar, por exemplo, daqui a 10 anos. A partir daí nós conseguimos perceber o que é que nós vamos conseguir implementar e que processo ou que caminho é que vamos percorrer para fazer esta transição. Isto envolve ter estratégia, ter decisões, um planeamento mais alargado. Isso ajuda também a conseguir que estas empresas se contextualizem, muitas vezes, em soluções que, se calhar, estavam descartadas inicialmente, mas, posteriormente, são investimentos que poderiam ser realizados e que poderiam, por exemplo, ser amortizados ao longo deste tempo. Porque existem muitos investimentos que podem ser feitos nesta área, que ajudam na descarbonização e ajudam na redução de custos de operação, nomeadamente, painéis solares, eletrificação da frota elétrica. Existe uma série deles, que, se nós olharmos num âmbito temporal mais alargado, nós conseguimos beneficiar a empresa nesta redução de custos. 

Assim, acho que haver uma estratégia, algo que é pensado e é interdisciplinar também, é muito importante para fazer esta transição nas empresas.

Se pudesse mudar apenas uma coisa na forma como as empresas encaram a sustentabilidade, qual seria? 

Eu acho que as empresas, principalmente, falando um pouco mais no meu contexto português, têm muita aversão ao risco, e eu acho que é isso que nós temos que ajudar a mudar.

Essa aversão, muitas vezes, leva a que as decisões que tomam sejam demasiado confortáveis e demasiado simplistas para depois colher valor mais à frente. E, neste caso, nós tentamos também com as empresas mostrar que o componente de risco, não é risco, é quase demonstração de como o investimento, mais à frente, consegue gerar valor. Mas as empresas, realmente, têm que assumir essa componente. A implementação da digitalização, da automação, tudo isso, implica que novas empresas e novos intervenientes, venham com soluções novas. Implica também que as empresas assumam:  “vamos dar oportunidade a testar isto, de algum risco para nós conseguirmos alavancar aqui negócio, oportunidades e valor”.

No nosso caso, por exemplo, nós só temos a agradecer aos pilotos que assumiram esse risco connosco inicialmente, porque realmente ajudaram-nos bastante, o que permite ajudar no crescimento das empresas e a potenciar soluções que são interessantes. Estas podem ser soluções co-criadas, que é o que nós estamos a fazer. Sendo isto o mais interessante, que é, se uma solução é co-criada com a empresa, aquilo é quase que uma solução tailor-made para elas, porque estamos a resolver problemas reais do funcionamento real da empresa. Isto é uma das partes importantes que as empresas têm de começar a assumir cá em Portugal, cada vez mais.

Como fundador de uma empresa, considera que Portugal apoia e incentiva os jovens a investir no país e a criar negócios no território, ou sentiu, por outro lado, que esse processo foi distante e desafiante? 

Eu acho que nós temos, cada vez mais, um ecossistema bom, um ecossistema que fomenta o empreendedorismo cá em Portugal. Sem dúvida alguma existem muitas iniciativas, dentro do ecossistema existe uma rede de suporte que ajuda a esse empreendedorismo, por exemplo, aqui na Universidade do Porto, a UPTEC é um “braço bom” que ajuda nesse empreendedorismo, as pessoas são muito disponíveis a isso e toda essa rede acaba por ajudar bastante. Nota-se que ao longo das últimas décadas o ecossistema tem vindo a maturar em termos de empreendedores. Eu acho que nós usufruímos do crescimento desse ecossistema, mas agora estamos num momento de alguma estagnação porque – e isto é obviamente uma perspetiva mais pessoal – o que estamos a ver acontecer é empreendedores second time funders que conseguem alavancar, muitas vezes, mais investimento no ecossistema, mais oportunidades, mais relacionamentos… É muito comum, por exemplo, empresas unicórnio que depois fomentam o empreendedorismo através de investimentos diretos, fomentam relações, networking, …. E tudo isso é feito de uma forma privada. Quando olhamos de forma pública, mais governamental, eu acho que nós realmente precisamos é de conseguir uma desburocratização de todos estes processos. Isso vai ajudar bastante as empresas, principalmente, as empresas jovens, a conseguir vingar no mercado, porque todo este processo de criar uma empresa até conseguir ter breakeven da empresa é extremamente difícil e, mais do que funding ou mais do que às vezes oportunidades governamentais, o que estas empresas precisam realmente é não ter burocracia associada ao seu crescimento. A partir do momento em que vocês começam a ter a vossa empresa, começam logo a pagar custos da empresa. Às vezes a empresa nem tem lucro, nem sequer tem dinheiro a entrar em caixa e já tem custos associados. Ou, dou-vos outro caso, que até nos aconteceu diretamente: nós beneficiamos de uma grant, um funding público, no âmbito do PRR, que são os vouchers verdes. Nós candidatámo-nos aos vouchers verdes e todo esse processo foi bastante moroso. Primeiro ponto, eram vouchers verdes e a primeira resposta que recebemos foi que nós não nos enquadrávamos em vouchers verdes, porque não éramos uma empresa que trabalha na área verde. Não consigo perceber como pode haver uma resposta tão simplista a uma candidatura de uma empresa que ajuda outras empresas a descarbonizar-se e está claramente numa área verde. Então acabámos por refutar essa decisão, fomos colocados no funding novamente e acabámos por receber essa grant. Mas, para um projeto que era para ser executado ao longo  de 2025, nós recebemos a confirmação de que iríamos receber a grant a meio de novembro de 2025. Como é que uma empresa que tem um projeto calendarizado para executar ao longo 2025 depois tem cerca de um mês para executar todo o dinheiro que estava calendarizado para um projeto de um ano? E isso são realmente burocracias e processos que têm que ser agilizados. Posteriormente, o PRR foi estendido e nós estamos agora a executar os seis meses seguintes. Tivemos, nós de “recalendarizar” e pedir para sermos novamente aprovados para os seis meses seguintes, mas porque realmente o PRR atrasou, senão teríamos que ter executado aquilo num mês. E isto são processos burocráticos, processos morosos que não facilitam a vida às empresas e é isto que acaba por criar alguma estagnação e entropia nestes processos de empreendedorismo.

Considera que as políticas públicas atuais estão alinhadas com os objetivos climáticos ou ainda existe um grande desfasamento entre discurso e prática? 

Eu acho que, em termos de discurso, há uma abertura maior para a área climática e nota-se que existem pelo menos investimentos-chave, ou procuram-se investimentos-chave na área climática. Podemos gostar mais ou menos do tipo de prioridades que estão a ser dadas mas vemos claramente que existe uma área, por exemplo, offshore eólica que está a ser explorada em Portugal, a parte também da exploração de lítio,… Existem grandes projetos que estão realmente a promover esta área, mas também em empresas mais pequenas e prioridades também “mais pequenas”. O que é que eu acho que escapa aqui um pouco e acho que nós poderíamos realmente promover e fazer com que fosse melhor? A alocação muitas vezes das prioridades ou de fundos destas áreas são feitas e geridas por entidades públicas e que não têm, se calhar, a eficiência que fundos ou investidores privados têm. O caso anterior que eu vos dei é um exemplo que aconteceu diretamente connosco e acho que isto deve trazer aqui uma componente de “conseguir criar soluções, nem que sejam co-participativas entre privados e públicos” para conseguir transformar este dinheiro de forma a rentabilizá-lo o mais rápido possível. Já existem alguns destes mecanismos, mas nem que seja, por exemplo, se não queremos trabalhar com os privados e alocar uma co-participação a privados, pode-se fazer isto de outra forma. Nós vemos grants que são financiadas fora de Portugal, noutros países europeus, que são open calls: dizem, no fundo, que têm projetos, por exemplo, “Queremos explorar esta área específica e procuramos empresas que tenham expertise ou que nos consigam alocar expertise nesta área. Quem é que poderá participar nestes processos e promover realmente soluções que possam ser escaláveis, comercializáveis e que tenha também uma componente privada?”, porque, por vezes, vê-se que algum do dinheiro que financia também entidades ou projetos públicos  podem até ser projetos extremamente eficientes e bons, existem muitos casos cá em Portugal, mas são para um contexto específico que depois não conseguem escalar para outras geografias e o bom de termos empresas com estes contextos é que empresas que exploram cá alguns destes processos, alguns destes contextos, conseguem depois escalar essa solução, se calhar, para outros países, começando pela Ibéria, pela Europa, Estados Unidos,… E isso é realmente criar as sementes para que a economia verde, que passa muito pelas empresas, consiga criar raízes cá, mas consiga escalar e crescer para além da nossa geografia.

Que livro e filme gostaria de recomendar aos nossos leitores? 

Há um livro que eu acho que é interessante sobre a área climática, no prolongamento desta nossa conversa, que é um livro chamado “Speed & Scale”, porque aborda a transição climática como uma estratégia muito abrangente, mas sempre como uma estratégia.  E acho que isto demonstra que, realmente, não há “tasks” impossíveis, temos é de ter um planeamento e celeridade e escala para resolver os problemas. E às vezes os problemas parecem gigantescos e extremamente bifurcados mas se nós investirmos resolvemos grande parte do problema no final. Em termos de filmes, trouxe 2 sugestões, uma delas na área da Universidade é um filme muito “light” mas que acho engraçado, o “Misty Business” dos anos 80. Já é bastante antigo em relação ao contexto atual, mas demonstra muito o processo de empreendedorismo entre estudantes, envolve risco e o valor do risco. Na altura, quando vi pela primeira vez, achei muita piada ao filme porque realmente os estudantes não têm de ficar só na universidade, podem explorar um impacto fora da universidade, usar o seu conhecimento fora dela. Outro filme é o “The  Big Short” que aborda a crise do subprime de 2008, em que o que é evidente para muita gente, e que podemos fazer uma transposição para a parte climática, é que o que muita gente segue cegamente em termos de ideias não implica que não haja ideias contrárias e que não haja oportunidades de negócio e de mudança. Cabe a nós e a muita gente conseguir transpor essas ideias e transformá-las em algo palpável e também em negócio. Acho que o filme é interessante por isso, mostra uma crise financeira que já era prevista por muita gente e como se acaba por beneficiar dessa crise de alguma forma, embora infelizmente tenha acontecido. Depois uma série também mais “light”, de comédia, mas que é bastante engraçada porque quem cria uma startup em algum momento vai rever-se nela, é a série “Silicon Valley”. Há sempre algum momento em que nos associamos às personagens, às vezes demasiadas vezes, porque demonstra muito bem como se forma uma startup do zero até chegar a um nível de atividade já considerável. Um podcast muito engraçado chama-se “StartUp” e é do Spotify, que mostra como é, realmente, um processo de criação de uma startup. O interveniente principal trabalhava numa rádio pública dos EUA, que cria uma empresa chamada Gimlet. O sonho dele era criar uma empresa de podcasts e vingar no mercado. É todo esse processo dele a gravar-se ao longo da escalabilidade da empresa, em momentos muito específicos, como quando faz os pitches, quando fala em casa com os parceiros, tudo gravações reais até que um dia a Gimlet é comprada pelo Spotify. Então ele tem o podcast até ser comprado pelo Spotify e vê-se o processo todo, as diferentes etapas e situações muito engraçadas como a primeira vez que ele fez um pitch a um investidor e corre super mal, e depois chega o momento em que ele corta a gravação e diz que nem tudo corre sempre como queremos e é muito interessante ver os altos e baixos todos gravados.

Para terminar, que mensagem considera essencial deixar à comunidade académica sobre o papel de cada um na construção de um futuro mais sustentável?

Eu acho que se calhar fazia um paralelismo, porque funciona quase como um processo democrático. Muita gente diz que no processo democrático o nosso voto é igual, que o teu voto é igual ao meu, conta um para um e acaba por ser igual. Mas isso não é verdade, porque se nós realmente acreditarmos numa ideia e queremos transformar alguma coisa, o meu voto vale muito mais que o meu voto, porque eu consigo falar com pessoas, influenciá-las, mostrar a ação que temos, consigo ser um catalisador da mudança. O meu voto passa a ser o meu e o de toda a gente que eu consegui influenciar para essa mudança. E é isso que nós temos de trazer nesta área, também aqui na FEP, que é nós sermos catalisadores, agentes de mudança e conseguirmos através dos nossos projetos, ações, com quem falamos, que não implica ser um processo de empreendedorismo, mas tentar passar a mensagem, o que é fundamental. Se realmente acreditamos nalguma coisa nós conseguimos falar com outras pessoas, influenciar, gerar essa mudança e é algo muito nobre, porque no fundo estamos a tentar passar ideias que possam mudar alguma coisa, mesmo que possa ser para melhor ou para pior e que possamos discordar. Às vezes podemos discordar, mas a discordância é boa, porque se calhar estou a dar-vos estas ideias e alguém pode ler e dizer que não concorda com nada disto e não tem mal. É bom porque depois podemos falar com essas pessoas e transmitir diversas opiniões e construir uma solução final, que sai mais robusta.