Conduzida por Alícia Andrade e Isabel Valério
Também incluída no FEPIANO 69, publicado em Setembro de 2026
Óscar Afonso, natural da vila de Sendim, no concelho de Miranda do Douro, é doutorado em Economia e Professor Catedrático da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto, instituição de que é atualmente Diretor e Presidente do Conselho Científico. Ligado à FEP há várias décadas, tem desenvolvido a sua atividade nos domínios da docência, da investigação, da gestão académica e da ligação à sociedade.
É membro fundador do OBEGEF (Observatório de Economia e Gestão de Fraude), instituição na qual exerceu, entre outras, as funções de vice-presidente e presidente. É também investigador do FEP Research Center.
A sua atividade científica traduz-se na autoria de livros e capítulos de livros, em diversos artigos publicados em revistas científicas internacionais, bem como em numerosos working papers e comunicações apresentadas em congressos internacionais. Mantém a presença regular no debate público através da análise e comentário de temas económicos e de política pública.
Para além da atividade académica, tem desempenhado diferentes funções de responsabilidade institucional e cívica. Foi, até recentemente, Presidente da Assembleia Municipal de Miranda do Douro, é Presidente da Comissão de Vencimentos da FCP-SAD e Presidente do Conselho Consultivo da CMVM.
O seu percurso tem sido marcado pela articulação entre ensino, investigação, gestão académica e intervenção pública, procurando contribuir para a produção e divulgação do conhecimento económico e para a aproximação entre a Universidade e a sociedade.
Os estudantes conhecem-no sobretudo como Diretor da FEP. Mas quem é a pessoa por detrás desse cargo?
Sou um transmontano que, com 14 anos, veio estudar para o Porto. Na minha terra não havia, na altura, a área que eu queria seguir no 10.º ano, a área C, e eu já tinha decidido que queria estudar Economia. Muito por influência de um tio, que pertencia aos quadros da Soares da Costa e cujo trabalho me fascinava, mas também porque me interessava compreender as pessoas e as sociedades, perceber como fazemos escolhas perante recursos escassos e de que forma essas escolhas acabam por influenciar a vida de todos nós.
Tendo vindo sozinho para o Porto com 14 anos e desejando entrar na FEP, procurei esforçar-me para o conseguir, não apenas porque era aquilo que queria, mas também porque tinha consciência do esforço financeiro que os meus pais faziam para que eu pudesse estudar e sentia que não podia desiludi-los. Talvez por isso continue a acreditar que as circunstâncias em que nascemos não devem limitar aquilo que podemos ambicionar ser. O esforço e o mérito devem poder ser recompensados e, para que isso aconteça, é essencial que todos tenham reais oportunidades para os demonstrar.
Fiz amigos nas escolas por onde passei. Primeiro, naturalmente, na minha terra e, depois, já em Matosinhos, na Gonçalo Zarco e na Augusto Gomes. Acabei por conseguir aquilo que desejava. Entrar na FEP, da qual sempre ouvira dizer que era a melhor escola de Economia do país.
E, na verdade, praticamente nunca mais saí daqui. Quando terminei a licenciatura, ainda trabalhei 4 anos no BPA, hoje Millennium BCP, mas a minha vida profissional acabou por ficar ligada à FEP. Aqui fui estudante, tornei-me professor e investigador e fui assumindo, ao longo dos anos, diferentes responsabilidades académicas. Por isso, digo muitas vezes que a FEP é a minha segunda casa e que lhe devo uma gratidão imensa. Deu-me muito e permitiu-me crescer, pessoal e profissionalmente, pelo que sinto também a responsabilidade de lhe devolver uma parte daquilo que dela recebi.
Gosto imenso do Porto, cidade que também sinto como minha, mas nunca deixei de ser transmontano nem perdi a ligação às minhas origens. Sendim e Miranda continuam a fazer parte de quem sou. Foi também por isso que me senti muito honrado por ter tido a oportunidade de presidir à Assembleia Municipal. Foi uma forma de servir a terra onde nasci e à qual continuo ligado.
Quanto à pessoa, sou muito ligado às minhas raízes e à família e procuro respeitar toda a gente. Não gosto de conflitos, mas defendo aquilo em que acredito. Acho que devemos discutir e lutar pelas ideias, nunca contra as pessoas. Podemos discordar profundamente de alguém e continuar a respeitá-lo e até a aprender com ele. Para mim, saber conviver com quem pensa de maneira diferente é uma parte importante da vida em sociedade.
Talvez por ter estudado Economia, acredito no mercado, mas num mercado devidamente regulado. O Estado tem funções essenciais, desde corrigir falhas de mercado a promover a equidade, a igualdade de oportunidades, a estabilidade e o crescimento. Diria, por isso, que sou pró-mercado, mas não defendo nem um mercado sem regras nem um Estado ausente. Acredito na iniciativa individual, no mérito e na responsabilidade, sem esquecer a importância de uma sociedade que procura dar oportunidades a todos.
E, na dimensão social, preocupo-me muito com as pessoas e procuro partir de um princípio muito simples: tratar os outros como gosto que me tratem.
No fundo, sou alguém que saiu de uma vila transmontana aos 14 anos para poder estudar aquilo de que gostava e que teve a felicidade de fazer praticamente toda a sua vida académica na FEP, sem nunca querer esquecer de onde veio. Sou muito grato à minha família, à minha terra e à FEP. Acredito na liberdade, no mérito, na responsabilidade e na igualdade de oportunidades. Gosto de defender aquilo em que acredito, por vezes até com alguma veemência, mas procuro nunca confundir adversários de ideias com adversários pessoais.
Há alguma característica sua que considera ter sido essencial para chegar onde chegou?
Acho que sou, sobretudo, muito focado, persistente e resiliente. Quando acredito num objetivo, dificilmente me desvio dele e estou disposto a fazer o esforço necessário para o alcançar.
Foi assim desde cedo. Quando vim para o Porto, sabia que queria entrar na FEP e concentrei-me nisso. Mais tarde, quando optei pela carreira académica, aconteceu o mesmo. Percebi que era esse o caminho que queria seguir e procurei percorrê-lo com dedicação e exigência, etapa a etapa.
Naturalmente, ao longo desse percurso surgiram outras oportunidades e houve também dificuldades, mas procurei nunca perder de vista as prioridades de cada momento nem os compromissos que fui assumindo.
Talvez seja essa uma das características que mais me define: quando assumo um compromisso ou decido fazer alguma coisa, levo-a a sério. Sou persistente e, perante as dificuldades, a minha tendência não é desistir, mas procurar outra forma de chegar lá. Podemos ter mais ou menos talento e encontrar circunstâncias mais ou menos favoráveis, mas aprendi que a capacidade de trabalhar, persistir e continuar quando as coisas não correm como esperávamos acaba, muitas vezes, por fazer a diferença.
Ao longo do seu percurso, passou pela investigação, pela gestão académica e também pela intervenção na vida pública. De que forma essas experiências diferentes influenciaram a sua visão sobre o papel que um economista deve desempenhar na sociedade?
Acho que todas essas experiências me ensinaram alguma coisa. Estamos sempre a aprender e cada experiência permite-nos olhar para os problemas de uma perspetiva diferente.
Também fui percebendo que o conhecimento que adquirimos não deve ficar apenas para nós. Um economista pode ser útil à sociedade se conseguir usar aquilo que sabe para compreender melhor os problemas, ajudar a explicá-los e contribuir para uma discussão mais informada. Naturalmente, sabendo também que não tem todas as respostas e que há muito a aprender com outras áreas e com a própria realidade.
Acredito igualmente na importância de uma sociedade civil forte, informada e participativa. Dou muitas vezes o exemplo de Miranda do Douro. Quando, em 2020, a EDP vendeu um conjunto de seis barragens, três delas situadas naquela região, eu e outras pessoas começámos a questionar-nos sobre as implicações da operação para o território e, em particular, sobre a questão fiscal. Em vez de ficarmos apenas pela opinião ou pela indignação, procurámos estudar o assunto, perceber os factos e fundamentar as nossas dúvidas.
A partir daí, o tema ganhou dimensão pública e institucional e surgiram vários processos, alguns dos quais ainda seguem o seu curso. Não sei o que teria acontecido se ninguém tivesse levantado essas questões, mas sei que foi importante estudá-las e colocá-las à discussão.
É também por experiências como essa que valorizo uma sociedade civil ativa. Não se trata de achar que temos sempre razão ou de querer substituir quem decide. Trata-se de participar, questionar, estudar e apresentar argumentos. Acho que quanto mais forte e informada for a sociedade civil, mais exigentes tendem a ser as instituições e melhores condições teremos para tomar boas decisões coletivas.
Ao longo das últimas décadas, assistiu a grandes mudanças na forma como os estudantes aprendem e encaram o ensino superior. O que considera que mudou mais na relação entre professores e estudantes?
Mudou muito. Quando eu era estudante na FEP, o ensino era bastante mais expositivo e a relação entre professores e estudantes era também mais distante. Lembro-me, por exemplo, de que ir ao gabinete de um professor para consultar um exame não era uma coisa propriamente natural. Havia uma distância que hoje, felizmente, não existe.
Atualmente existe uma relação de maior proximidade e interação entre professores e estudantes. E acho que isso é positivo. O professor continua a ter a responsabilidade de ensinar e de ser exigente, mas pode estar mais disponível para ouvir, esclarecer, discutir e acompanhar. Essa proximidade não significa menor exigência.
Depois, naturalmente, mudou a tecnologia e mudou o próprio conhecimento. Aquilo que ensinamos hoje não é exatamente aquilo que ensinávamos há vinte ou trinta anos, porque a ciência evoluiu. Há matérias que hoje ensinamos de forma diferente porque o conhecimento avançou.
E a tecnologia acelerou a transformação. Os estudantes têm hoje acesso imediato a uma quantidade de informação que nós não tínhamos. Isso é uma enorme vantagem, mas coloca também novos desafios. Ter informação não significa ter conhecimento, e talvez uma das coisas mais importantes que podemos ensinar seja precisamente a selecionar, compreender e avaliar criticamente a informação.
Por isso, diria que as duas grandes mudanças foram a maior proximidade entre professores e estudantes e a evolução do conhecimento e da tecnologia. Mas a Universidade continua a ser um lugar onde professores e estudantes aprendem uns com os outros. É certo que temos responsabilidades diferentes, mas também nós, professores, estamos sempre a aprender — com a investigação, com a realidade e, claro, com os estudantes.
A FEP vai ter um novo plano de estudos em 2026/27. Qual foi a ideia por detrás desta mudança?
Esta mudança começou a ser preparada ainda no final do mandato da anterior Direção. A ideia principal foi relativamente simples: atualizar os currículos à realidade que os nossos estudantes vão encontrar.
A Economia e a Gestão estão a mudar muito, em particular com a evolução tecnológica e a crescente importância dos dados e da capacidade analítica. Quando começámos este processo, a inteligência artificial ainda não tinha a dimensão que hoje tem, mas é evidente que passou, entretanto, a fazer parte dessa transformação e terá de estar cada vez mais presente na formação.
Outra alteração importante foi procurar criar condições para uma maior mobilidade internacional. O plano de estudos foi organizado de forma a deixar um semestre mais livre de condicionantes curriculares, precisamente para facilitar a possibilidade de os estudantes fazerem Erasmus ou terem outras experiências internacionais.
Há depois uma aposta clara na internacionalização. Em 2026/27 passamos a ter as licenciaturas em Economia e em Gestão também integralmente em inglês. Poderíamos ter optado simplesmente por ter turmas em inglês dentro das licenciaturas existentes, mas entendemos que fazia mais sentido criar cursos autónomos. Isso permite-nos chegar mais facilmente a estudantes internacionais e, ao mesmo tempo, oferecer aos estudantes portugueses a possibilidade de fazerem toda a licenciatura em inglês.
Esta estratégia não se limita às licenciaturas. Já temos mestrados lecionados em inglês, os doutoramentos são em inglês e estamos também a reformular a oferta de mestrados, quer na sua duração e estrutura, quer nos conteúdos. O objetivo é termos uma oferta cada vez mais atual e com maior capacidade de atrair bons estudantes também internacionais.
Há ainda uma dimensão que para a FEP é importante, que é a sustentabilidade. Temos vindo a trabalhar bastante nesta área e tivemos, inclusivamente, reconhecimento internacional pelo trabalho desenvolvido. Mas, mais do que os prémios, interessa-nos que estas questões façam parte da formação dos nossos estudantes, porque estarão inevitavelmente presentes nas decisões económicas e de gestão que terão de tomar no futuro.
Portanto, diria que esta mudança procura responder sobretudo a três desafios: acompanhar a transformação tecnológica, reforçar a internacionalização e integrar cada vez mais a sustentabilidade na formação. Não se trata de mudar por mudar. Trata-se de procurar que aquilo que ensinamos acompanhe a evolução do conhecimento e da realidade e prepare bem os estudantes para um mundo que está a mudar muito depressa.
A FEP vai ter uma nova designação e duas novas licenciaturas em inglês. O que esteve na origem destas novidades e o que espera que tragam à FEP e aos estudantes?
A nova designação procura, no fundo, dizer de forma mais clara aquilo que a FEP realmente é: uma Faculdade de Economia e Gestão. Quando entrei na FEP, em 1986, existia apenas a licenciatura em Economia, com cinco anos, mas era uma formação com uma componente muito significativa de Gestão. No ano seguinte surgiu a licenciatura em Gestão e, naturalmente, os dois cursos foram evoluindo e afirmando progressivamente as suas especificidades. Mas a Economia nunca deixou de ter uma componente de Gestão, nem a Gestão deixou de ter uma base importante de Economia.
Aliás, penso que essa formação relativamente abrangente é uma das características da FEP e talvez ajude também a explicar os percursos muito diversificados dos nossos alumni, que encontramos em funções de responsabilidade em empresas, instituições públicas e muitas outras organizações. Portanto, a nova designação não pretende mudar aquilo que somos. Pretende tornar mais claro, também para quem nos vê de fora, aquilo que há muito fazemos.
As duas licenciaturas integralmente em inglês, uma em Economia e outra em Gestão, inserem-se na estratégia mais ampla de internacionalização da FEP. Queremos atrair mais estudantes internacionais, proporcionar aos nossos estudantes um ambiente cada vez mais internacional e criar mais oportunidades de contacto com outras universidades, outras culturas e outras formas de pensar.
Mas a internacionalização não se faz apenas criando cursos em inglês. Estamos a reforçar o Gabinete de Internacionalização, a aumentar as parcerias com instituições estrangeiras, a desenvolver novas duplas titulações e a procurar que haja cada vez mais mobilidade de estudantes e docentes.
Estamos também a internacionalizar o próprio corpo docente. Este ano fomos, pela primeira vez, ao job market internacional de Economia, algo que ainda não é muito frequente em Portugal, e recrutámos docentes estrangeiros com percursos académicos e de investigação muito interessantes. Isso traz-nos novas experiências, novas redes de investigação e outras formas de trabalhar. E acredito que beneficia não apenas a investigação, mas também aquilo que acontece dentro da sala de aula.
Tudo isto faz parte de uma evolução mais ampla da FEP. Estamos também a reorganizar e reforçar as nossas três missões fundamentais. O ensino permanece naturalmente no centro da Faculdade. A investigação está concentrada no FEP Research Center. E criámos o FEP Knowledge Exchange para reforçar a formação avançada, a transferência de conhecimento e a ligação à sociedade. A criação deste último resultou, aliás, de um processo de reflexão em que envolvemos colegas, estudantes e alumni, incluindo muitos que hoje vivem e trabalham fora de Portugal.
No fundo, queremos uma FEP mais aberta ao mundo, tanto no ensino como na investigação e na ligação à sociedade. Não se trata de internacionalizar por uma questão de imagem ou simplesmente de ter mais aulas em inglês. Trata-se de criar um ambiente em que estudantes e professores estejam mais expostos a outras experiências, outras pessoas e outras instituições. Espero que isso torne a FEP ainda melhor e, sobretudo, que dê aos nossos estudantes mais oportunidades e melhores condições para fazerem o seu próprio percurso.
Para um estudante que esteja a terminar um ciclo de estudos e a ponderar continuar o seu percurso académico, o que é que torna a oferta de mestrados e doutoramentos da FEP particularmente aliciante?
Naturalmente, podemos e devemos ser exigentes com a FEP. Os estudantes podem achar que determinada coisa poderia funcionar melhor ou que uma unidade curricular poderia ser diferente, e é importante que nos façam chegar essas opiniões. Nós próprios sabemos que há sempre coisas a melhorar. Mas acho, sinceramente, que a FEP oferece uma formação de grande qualidade e que um estudante que aqui fez a licenciatura encontra muito boas razões para continuar.
Costumo colocar a questão de uma forma muito simples: se fosse um filho meu a perguntar-me o que deveria fazer depois da licenciatura — e, aliás, tive uma filha a estudar na FEP —, dir-lhe-ia que fazer o mestrado aqui seria uma excelente opção. Se me dissesse que gostaria de ter uma experiência internacional e de estudar alguns anos fora, também lhe diria para aproveitar essa oportunidade.
Os nossos mestrados de continuidade têm precisamente a função de permitir aprofundar e completar a formação iniciada na licenciatura. De certa forma, recuperam a profundidade de formação que, no meu tempo, estava integrada nas licenciaturas de cinco anos, naturalmente adaptada às exigências e ao conhecimento de hoje. É também nesse sentido que estamos a reformular estes mestrados, atualizando conteúdos e procurando torná-los ainda mais adequados ao percurso dos estudantes.
Temos depois mestrados de especialização, destinados a quem procura aprofundar uma área mais específica, e uma oferta de doutoramento com uma componente internacional e uma ligação muito forte à investigação. O reforço do FEP Research Center e o recrutamento internacional de docentes deverão também contribuir para melhorar esse ambiente científico.
Nos próximos anos queremos ainda reforçar a capacidade dos mestrados de continuidade, nomeadamente em Economia, no MIM – Master in Management – e no MIF – Master in Finance. Queremos que os bons estudantes que desejam continuar na FEP encontrem condições para o poder fazer.
Portanto, não diria a um estudante que tem obrigatoriamente de ficar na FEP. Deve conhecer as alternativas e escolher aquilo que fizer mais sentido para o seu percurso. Mas dir-lhe-ia, com bastante tranquilidade, que antes de decidir deve olhar muito bem para aquilo que a FEP lhe oferece. Temos uma formação exigente, bons professores, investigação de qualidade e uma rede de alumni muito relevante. E estamos a trabalhar para que a experiência seja cada vez mais internacional. Acho que são boas razões para ficar e, para quem sair, também gostaríamos que a FEP continuasse a ser uma casa à qual pudesse regressar.
Que conselho daria a um estudante desorientado no primeiro dia de aulas para aproveitar bem estes anos? E que conselho daria aos estudantes que estão a pensar conciliar a faculdade com trabalho, desporto ou outras responsabilidades?
A primeira coisa que lhe diria é muito simples: fale com alguém. Com os colegas, com os professores, com a Associação de Estudantes, com os serviços da FEP. Não tenha receio de dizer que está desorientado ou que precisa de ajuda. Entrar na Universidade é uma mudança grande e é perfeitamente natural que, nos primeiros tempos, nem tudo seja claro.
Eu próprio me lembro muito bem do meu primeiro dia na FEP. Entrei na sala 111, cheio de gente, naquele tempo entravam cerca de 250 estudantes de Economia. Fiquei mais para trás e o professor começou a falar. A certa altura falou em “elasticidade” e eu percebi “eletricidade”. Depois começou a falar em “custos marginais” e eu fiquei ainda mais confuso. Lembro-me de pensar: “Onde é que eu estou?”. Portanto, também sei o que é chegar aqui e sentir-me um pouco perdido.
Creio que, naquela altura, estávamos muito mais entregues a nós próprios. Hoje procuramos fazer um melhor acolhimento. Temos uma semana de acolhimento, programas de mentoria, a Associação de Estudantes e outros organismos estudantis, o Serviço de Desenvolvimento e Carreira e, naturalmente, os professores e a própria Direção. Há uma estrutura de apoio que não existia no meu tempo.
Por isso, o conselho é mesmo esse. Se estiverem com alguma dificuldade, falem connosco. Não podemos resolver todos os problemas, naturalmente, mas aquilo que não conhecemos também não podemos tentar ajudar a resolver. Gostaria que nenhum estudante deixasse de aproveitar a FEP por ter passado demasiado tempo sozinho com uma dificuldade para a qual poderia ter encontrado apoio.
Quanto a conciliar os estudos com outras atividades, acho que pode ser muito positivo, desde que haja equilíbrio. Em relação ao trabalho, depende muito das circunstâncias. Conciliar um curso exigente com um trabalho de oito horas por dia é naturalmente muito difícil. Há cansaço, há limites de tempo e cada pessoa tem de perceber aquilo que consegue fazer sem prejudicar nenhuma das dimensões da sua vida. Mas uma experiência profissional compatível com o estudo pode também trazer aprendizagens importantes.
Em relação ao desporto, sou particularmente favorável. Conheço exemplos em que o desporto deu muito mais do que condição física. Ensinou disciplina, organização do tempo, responsabilidade perante os outros, capacidade de trabalhar em equipa e também liderança.
Acho que a Universidade não deve ser apenas estudar, fazer exames e obter um diploma. Há muito que se aprende fora da sala de aula. Naturalmente, cada estudante tem de encontrar o seu equilíbrio. Não aconselharia ninguém a acumular atividades apenas para ter um currículo maior. Mas aconselharia a praticar desporto, participar numa associação, fazer voluntariado, ter uma experiência profissional ou envolver-se noutra atividade de que realmente goste. Além das competências que se desenvolvem, há momentos em que é importante sair dos livros, aliviar a cabeça e regressar ao estudo com outra disposição.
No fundo, diria duas coisas: se estiverem perdidos, não tenham receio de pedir ajuda; e, durante estes anos, procurem aproveitar a Universidade para aprender também para além das aulas. A FEP deve dar-vos uma boa formação académica, naturalmente, mas estes anos podem dar-vos muito mais do que isso.
Qual é a sua opinião sobre o atual modelo de acesso ao Ensino Superior?
É uma questão complexa e não tenho a pretensão de ter uma solução fechada para o modelo de acesso ao Ensino Superior. Acho que tem de existir uma forma objetiva e transparente de selecionar os estudantes quando há mais candidatos do que vagas e, nesse sentido, as classificações do ensino secundário e os exames nacionais parecem-me instrumentos importantes.
Acredito no mérito e acho que o esforço deve ser valorizado. Os exames nacionais têm também a vantagem de introduzir um elemento comum de avaliação entre estudantes provenientes de escolas diferentes, ajudando a reduzir eventuais diferenças nos critérios de classificação interna. Se são suficientes, se devem ter exatamente o peso que têm hoje ou se o modelo pode ser aperfeiçoado são questões que, naturalmente, devem ser discutidas.
A minha maior preocupação está talvez um pouco antes do acesso ao Ensino Superior. Para podermos falar verdadeiramente de mérito, temos de procurar garantir que os jovens têm condições tão próximas quanto possível para o poder demonstrar. E não estou seguro de que isso aconteça hoje.
As condições económicas e familiares continuam a influenciar as oportunidades educativas. Há famílias que podem escolher determinadas escolas, pagar explicações ou proporcionar outros apoios aos filhos, enquanto outras não têm essa possibilidade. Isso não diminui o mérito de quem teve essas oportunidades, evidentemente, mas deve fazer-nos pensar naqueles que, tendo capacidade e vontade, partem de condições mais difíceis.
Conheço essa realidade também enquanto pai. Os meus filhos passaram pelo ensino público e pelo privado e, no ensino secundário, optei por colocá-los numa escola onde sabia que teriam um acompanhamento muito orientado para a preparação dos exames nacionais. Pude fazer essa escolha. Mas tenho consciência de que muitas famílias não a podem fazer. E é precisamente aí que me parece existir um problema de igualdade de oportunidades.
Por isso, mais do que eliminar a avaliação ou diminuir a exigência, tenderia a procurar reforçar as condições dadas aos estudantes que delas mais precisam. Por exemplo, se um aluno vai realizar um exame nacional de Matemática, Português ou outra disciplina determinante para o acesso ao curso que pretende, deveria poder encontrar na escola apoio e acompanhamento suficientes para se preparar, independentemente da capacidade financeira da família.
Preocupa-me também perceber até que ponto a origem social ou territorial continua a condicionar o acesso aos cursos e instituições mais procurados. Seria importante conhecer bem esses dados antes de tirar conclusões. Para alguém que veio do interior para o Porto aos 14 anos precisamente para poder prosseguir os estudos que desejava, esta é uma questão a que sou particularmente sensível.
Portanto, vejo aqui dois princípios que temos de tentar conciliar. Por um lado, mérito, esforço e exigência; por outro, igualdade de oportunidades. Não acho que devamos resolver o segundo problema sacrificando o primeiro. Devemos, isso sim, procurar que as condições de partida sejam menos desiguais, para que o mérito que depois avaliamos dependa tanto quanto possível do esforço e da capacidade de cada um, e o menos possível das circunstâncias em que nasceu.
A FEP tem uma forte ligação ao tecido empresarial e uma elevada taxa de empregabilidade dos seus diplomados. No entanto, Portugal continua a enfrentar um elevado desemprego jovem e uma fuga de profissionais qualificados. Como explica este contraste?
É verdade que a FEP apresenta uma empregabilidade muito elevada e o feedback que recebemos dos empregadores sobre os nossos diplomados é, em geral, muito positivo. Valorizam a preparação técnica, naturalmente, mas também características como a capacidade de trabalho, a resiliência, a adaptação e uma certa humildade na forma de chegar às organizações e aprender.
A FEP beneficia também de uma reputação construída ao longo de muitas décadas e de uma rede de alumni muito relevante. Encontramos antigos estudantes da Faculdade em empresas, instituições públicas, universidades e organizações nacionais e internacionais, muitas vezes em posições de grande responsabilidade. Isso cria confiança junto dos empregadores e ajuda naturalmente os nossos diplomados. Mas temos de continuar a merecer essa confiança em cada geração que formamos.
O problema mais geral do país é diferente e bastante mais complexo. Portugal conseguiu aumentar muito as qualificações das gerações mais jovens, o que é uma excelente notícia, mas a transformação do tecido produtivo não ocorreu necessariamente ao mesmo ritmo. Há, por isso, situações de desencontro entre as qualificações que temos e as qualificações que as empresas procuram ou conseguem valorizar. E isso pode traduzir-se em dificuldades de entrada no mercado de trabalho, em sobrequalificação ou em salários que não correspondem às expectativas e às competências de muitos jovens.
É importante também distinguir desemprego jovem de saída de profissionais qualificados. Um jovem pode sair de Portugal porque não encontra emprego, mas pode também sair tendo emprego e simplesmente encontrar noutro país uma oportunidade profissional ou salarial muito melhor.
Lembro-me de um episódio de quando era Diretor do Mestrado em Economia e Gestão Internacional. Presidi ao júri de uma estudante, a Mafalda, que trabalhava na DHL. No final da defesa estava particularmente contente e explicou-me que, na segunda-feira seguinte, iria começar a trabalhar em Barcelona. Perguntei-lhe o que ia fazer de diferente e respondeu-me que continuaria na mesma empresa, em funções semelhantes, mas a ganhar cerca de três vezes mais. É apenas um caso e não devemos generalizar a partir dele, mas ajuda a perceber uma parte do problema.
Quando um jovem qualificado olha para Portugal e para outros países e encontra diferenças muito significativas de salário, progressão profissional ou oportunidades, é natural que considere sair. E a mobilidade internacional, em si mesma, não é um problema. Pelo contrário, acho muito positivo que os nossos jovens tenham experiências internacionais. O problema surge quando sair deixa de ser uma escolha e passa a ser sentido como a única forma de encontrar oportunidades compatíveis com aquilo que sabem e podem fazer.
Por isso, para mim, a questão fundamental não é impedir os jovens de sair. É criar condições para que possam ficar se quiserem, para que alguns dos que saem queiram regressar e também para que Portugal seja capaz de atrair talento de outros países. Isso exige uma economia com empresas mais produtivas, atividades de maior valor acrescentado, mais investimento e melhores condições para que os salários possam crescer de forma sustentada.
Talvez seja esse o contraste: conseguimos formar gerações cada vez mais qualificadas, mas ainda temos dificuldade em criar, em quantidade suficiente, oportunidades à altura dessas qualificações. E esse é um problema que não se resolve apenas nas universidades. As universidades têm de fazer a sua parte, formando bem e aproximando-se das empresas e da sociedade, mas depois é o país, no seu conjunto, que tem de ser capaz de aproveitar o talento que forma.
A inteligência artificial está a transformar profundamente o ensino e o mercado de trabalho. Que competências considera que um estudante de Economia deve desenvolver hoje para se preparar para um mercado de trabalho cada vez mais marcado pela IA?
Acho que, antes de mais, deve acompanhar aquilo que está a acontecer. A inteligência artificial está a evoluir muito rapidamente e um estudante de Economia não pode ignorá-la. Deve conhecê-la, aprender a utilizá-la e perceber de que forma pode tirar partido dela no estudo e, mais tarde, na sua atividade profissional.
Vejo a inteligência artificial sobretudo como uma ferramenta que nos pode ajudar a trabalhar melhor e a ser mais produtivos. Mas, para isso, devemos ser nós a saber o que queremos fazer e a utilizar a tecnologia para nos ajudar a chegar lá, e não simplesmente aceitar aquilo que ela nos apresenta.
Aliás, quanto mais fácil se torna obter uma resposta, mais importante me parece saber fazer a pergunta certa e ter conhecimento suficiente para avaliar a resposta que recebemos. A inteligência artificial pode errar, pode dar-nos informação incompleta ou até levar-nos para uma conclusão errada. Se não tivermos boas bases de Economia, Gestão, Estatística, Econometria e capacidade de raciocínio crítico, podemos nem sequer perceber que isso aconteceu.
Por isso, não acho que a IA torne menos importante aprender Economia e Gestão. Provavelmente torna ainda mais importante compreender verdadeiramente aquilo que estamos a fazer. Há tarefas que hoje podemos executar muito mais depressa, tal como aconteceu quando o software nos deixou de obrigar a fazer manualmente muitos cálculos. Isso permite-nos dedicar mais tempo à análise, à interpretação dos resultados e às questões que realmente queremos estudar.
Diria, portanto, que um estudante deve combinar boas bases técnicas com capacidade analítica e pensamento crítico e, ao mesmo tempo, estar confortável com dados e com estas novas ferramentas. E há ainda competências que continuam a ser muito importantes: saber comunicar, trabalhar com outras pessoas, ter curiosidade e capacidade de adaptação.
Não sei exatamente como será o mercado de trabalho daqui a dez ou quinze anos e acho que devemos ter alguma humildade quando fazemos esse tipo de previsões. Mas estou bastante convencido de uma coisa: é melhor aprender a trabalhar com a inteligência artificial do que tentar ignorá-la. Devemos utilizá-la para ampliar as nossas capacidades, mantendo sempre o conhecimento e o sentido crítico do nosso lado. A ferramenta pode ajudar-nos muito, mas devemos continuar a ser nós a pensar e a decidir.
Numa vertente mais cultural, que filme e que livro recomendaria aos estudantes da FEP?
Se tiver de escolher um livro para estudantes da FEP, mas que não seja propriamente um livro académico, escolheria Why Nations Fail?, de Daron Acemoglu e James Robinson. É um livro que procura responder a uma questão fundamental: porque é que alguns países prosperam e outros não? E coloca as instituições no centro dessa explicação. Identifico-me bastante com essa importância atribuída às instituições.
Mas há um livro muito diferente que li há um ano e que também me marcou muito, a autobiografia do Papa Francisco. Sempre tive admiração pela sua forma de estar. É um livro muito humano, que nos confronta com realidades e experiências muito diferentes das nossas e que nos ajuda a relativizar muitas coisas. Portanto, se o primeiro nos faz pensar sobre a Economia, as instituições e as sociedades, este faz-nos pensar mais sobre as pessoas e sobre a forma como estamos na vida.
Quanto aos filmes, escolheria também dois, também por razões diferentes. Um deles seria A Beautiful Mind, sobre John Nash. Para quem estuda Economia, é difícil não ficar interessado na história de alguém cujo trabalho teve uma influência tão importante na teoria dos jogos e na forma como pensamos as decisões estratégicas. Mas o filme vai muito além disso. Mostra também a importância da curiosidade intelectual, da capacidade de pensar de forma diferente e da persistência perante dificuldades muito grandes. Naturalmente, é um filme e não uma descrição rigorosa de toda a vida de Nash, mas deixa-nos a pensar sobre o conhecimento, o talento e também sobre a dimensão humana de quem o produz.
O outro seria Gandhi. Não é um filme de Economia, mas é por isso que o escolheria. Impressiona-me a forma como alguém pode ter convicções tão fortes, lutar persistentemente por aquilo em que acredita e, ao mesmo tempo, procurar fazê-lo sem transformar quem está do outro lado num inimigo. Acho importante termos ideias, defendê-las e não desistirmos facilmente daquilo em que acreditamos, mas também termos a capacidade de ouvir e respeitar quem pensa de maneira diferente. Gandhi transmite muito dessa persistência e resiliência, mas também da importância da forma como escolhemos defender as nossas convicções.





