Sara Arêde
Também incluído no FEPIANO 64, publicado em Fevereiro de 2026
A realidade de que atravessamos uma crise climática já não é questionável: os seus efeitos batem à porta. Torna-se, por isso, essencial compreender a dimensão das suas consequências e de que forma estas criam e aprofundam desequilíbrios socioeconómicos, sobretudo nos espaços urbanos.
A crise habitacional tornou-se um fenómeno global, sendo as cidades o principal palco desta problemática. Em Portugal, o desfasamento entre o crescimento das rendas e a evolução dos salários, a escassez de oferta e o abrandamento da construção levam cada vez mais famílias a viver em situações de precariedade.
São apontados vários responsáveis por esta realidade: o turismo que converte habitações em alojamento local, os nómadas digitais que vivem a experiência portuguesa a preço de liquidação, os grandes investidores que apostam em imóveis de alto valor ou uma crise da qual ainda estamos a recuperar. Todos estes fatores contribuem, de facto, para a pressão no mercado, mas há uma dimensão frequentemente esquecida: a sustentabilidade. Para satisfazer as necessidades atuais sem comprometer as gerações futuras, é preciso equilibrar as esferas económica, social e ambiental. Ignorar uma delas compromete inevitavelmente as restantes.
E como está a dimensão ambiental? A arder! As cidades são um cenário especialmente alarmante, concentrando cerca de metade da população mundial, consumindo enormes quantidades de energia e produzindo uma fatia significativa das emissões de gases com efeito de estufa (ONU, 2024). Edifícios com baixa eficiência energética, um elevado volume de veículos movidos a combustíveis fósseis, polos industriais e a falta de áreas verdes tornam as cidades vulneráveis a fenómenos tais como ondas de calor, cheias ou secas prolongadas.
Perante este cenário, ganham importância estratégias de mitigação e adaptação climática. O setor dos edifícios apresenta um dos maiores potenciais de redução de emissões, muitas vezes a custos baixos ou negativos, através de melhorias da envolvente, como isolamento térmico nas paredes, telhados, substituição de janelas, e sistemas de aquecimento, arrefecimento e iluminação eficientes. As soluções baseadas na natureza têm ganho particular destaque: parques urbanos, corredores verdes, arborização, fachadas e coberturas verdes ou hortas comunitárias. Estas medidas ajudam a reduzir as ilhas de calor, a gerir episódios de cheias ou de chuva intensa, criam zonas de sombra e melhoram a qualidade do ar. Contribuem ainda para a redução da pobreza energética e melhorias no bem-estar e na saúde pública.
Porém, estas estratégias podem levantar um desafio social: a gentrificação verde. A gentrificação ocorre quando a requalificação urbana atrai investimento e residentes com maior poder aquisitivo, aumentando os preços e afastando populações vulneráveis. Quando este fenómeno decorre de melhorias ambientais, designa-se por gentrificação verde.
“estas estratégias podem levantar um desafio social: a gentrificação verde”
Estas iniciativas evidenciam um dilema central na transição urbana sustentável: quem beneficia e quem suporta os custos. Por isso, a adaptação climática deve articular-se com políticas de habitação acessível e participação comunitária. Além disso, os projetos de requalificação e o desenho de soluções baseadas na natureza devem envolver os residentes locais desde o início, garantir mecanismos de controlo de rendas e apoios financeiros, promover a habitação pública e proteger o comércio local.
A transição urbana sustentável não pode ser apenas técnica ou paisagística. Precisa de integrar preocupações de justiça social e assegurar o direito à cidade. Caso contrário, o verde das cidades poderá apenas esconder desigualdades cada vez mais profundas.

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