Há datas que não pertencem apenas ao passado, pertencem ao carácter de uma nação. O 25 de Novembro de 1975 é uma dessas datas. Cinquenta anos depois, continua a ser uma referência essencial para compreender o que somos e o caminho que escolhemos seguir: o da liberdade, da moderação e da democracia liberal.

Após o 25 de Abril, Portugal viveu um período de intensa transformação política e social. O fim de quase meio século de ditadura abriu as portas à esperança e à participação cívica, mas trouxe igualmente radicalismo e incerteza. O país encontrava-se dividido entre projetos políticos profundamente distintos. De um lado, estava a vontade de consolidar uma democracia representativa e aberta. Do outro lado surgia um conjunto de forças formado por unidades militares influenciadas pelo PCP e por correntes da extrema-esquerda revolucionária, que pretendiam instaurar em Portugal um regime autoritário comunista. 

O ano de 1975 foi, por isso, uma encruzilhada histórica. As nacionalizações e as ocupações de terras multiplicavam-se, os saneamentos políticos alimentavam tensões e as lutas sindicais intensificavam-se. O poder militar encontrava-se fragmentado em fações ideológicas com projetos incompatíveis, e a crescente instabilidade ameaçava transformar-se em conflito aberto. 

Foi neste contexto que, no dia 25 de novembro de 1975, ocorreram operações militares lideradas por António Ramalho Eanes e Jaime Neves, figuras centrais na intervenção das forças moderadas para travar a escalada radical. Embora existam divergências quanto aos pormenores e aos vários comandos envolvidos, é consensual que essas operações permitiram manter o controlo institucional e evitar um desfecho com potencial para desencadear uma guerra civil e, posteriormente, uma ditadura de extrema-esquerda.

O que esteve verdadeiramente em causa nesse dia não foi uma disputa convencional entre correntes políticas, mas o futuro da liberdade em Portugal. De um lado, encontrava-se a defesa da democracia, assente no Estado de Direito e na legitimidade eleitoral. Do outro, situava-se um projeto que pretendia substituir a democracia liberal por uma orientação revolucionária centralizada, capaz de condicionar a própria vontade do povo, tirando-lhe a sua liberdade. 

O 25 de Novembro não contrariou a promessa do 25 de Abril. Reforçou as condições necessárias para que a liberdade inaugurada em abril pudesse desenvolver-se com estabilidade institucional, afastando simultaneamente o risco de regressão autoritária e a possibilidade de um novo autoritarismo. Foi graças a esse desfecho que Portugal pôde avançar para a democracia constitucional de 1976 e, mais tarde, integrar-se plenamente no espaço europeu.

É precisamente por isso que esta data deve ser celebrada e preservada na memória coletiva. Foi nesse dia que Portugal rejeitou qualquer forma de autoritarismo, independentemente do seu disfarce, e escolheu a via da moderação, da responsabilidade e do pluralismo político. Celebrar o 25 de Novembro é reconhecer que a liberdade, para subsistir, necessita de instituições fortes, de limites e de compromisso cívico. É compreender que a democracia não se defende apenas com palavras, mas também com coragem e ambição. 

Infelizmente, existem pessoas que preferem o silêncio em torno deste acontecimento. Por razões ideológicas ou por desconforto perante a complexidade do período revolucionário, tenta-se por vezes reduzir o 25 de Novembro a um episódio menor da história da democracia. Essa leitura não só distorce a realidade histórica, como ignora a diversidade de motivações e ideais que marcaram a época. Esquecer esta data seria uma injustiça para com todos os que, nesse momento decisivo, garantiram a preservação da liberdade e de uma democracia liberal.

Hoje, num mundo novamente marcado por tentações autoritárias, populismos ruidosos e discursos de intolerância, o 25 de Novembro assume renovada importância. Recorda-nos que a democracia não é um dado adquirido, mas uma construção permanente. Ensina-nos que o multipartidarismo é uma força, não uma fragilidade, e que o extremismo, venha de onde vier, constitui sempre uma ameaça à democracia.

Cinquenta anos depois, celebrar o 25 de Novembro é, acima de tudo, um ato de lealdade à liberdade. A liberdade que protege o indivíduo, garante o direito à diferença e sustenta a dignidade da vida em sociedade. Enquanto essa memória persistir, lúcida, crítica e viva, Portugal continuará a ser, verdadeiramente, um país livre!

Fascismo nunca mais! Comunismo nunca mais!